Massacre da Praça Paz Celestial

Michael Wines e Andrew Jacobs
Em Pequim

New York Times/UOL

O ex-líder chinês Deng Xiaoping ordenou que os militares tentassem limitar o número de feridos quando avançaram contra os manifestantes na Praça Tiananmen, há 21 anos, mas lhes disse para estar prontos para “derramar um pouco de sangue” se necessário, segundo um diário inédito que documentaria as decisões internas que levaram à violenta repressão.

O número de mortos na ação militar contra os manifestantes, cujo aniversário é na sexta-feira, continua discutível. Estimativas oficiais na época diziam 200 manifestantes mortos; alguns ativistas pelos direitos humanos situam o número em mil ou mais, e dizem que de 70 a 300 manifestantes continuam presos.

O diário, que abrange cerca de nove semanas antes e depois da ação militar, teria sido escrito por Li Peng, o primeiro-ministro chinês na época e um aliado dos conservadores na liderança chinesa de Deng. Uma editora de Hong Kong, New Century Press, pretende lançar o manuscrito de 279 páginas como um livro em chinês em 22 de junho.

A mesma editora causou sensação em maio de 2009 ao editar as memórias secretas de Zhao Ziyang, o líder do Partido Comunista Chinês que se opôs ao uso da força contra os manifestantes de Tiananmen e foi demitido pelos conservadores depois que os militares entraram em cena.

Zhao, que passou o resto da vida em prisão domiciliar, tinha gravado secretamente sua memória em fitas cassete que mais tarde foram retiradas da China. Li, em contraste, teria desejado publicar seu trabalho em 2004, no 15º aniversário dos protestos de Tiananmen, mas foi desencorajado pelos líderes chineses.

Bao Pu, o editor de ambas as obras em Hong Kong, disse em uma entrevista por telefone na sexta-feira que havia recebido o último diário de uma fonte não identificada, e por isso não podia garantir sua autenticidade. A memória e 34 fotografias que a acompanham parecem ter sido fotocopiadas de uma prova de impressão, ele disse. Bao disse que não conseguiu contatar Li, hoje com 81 anos e supostamente doente, para verificar o conteúdo.

Mas ele disse que um estudo detalhado da obra o convenceu, e a outros especialistas, de que Li é o autor. Uma revista de Hong Kong, “Ásia Weekly”, relatou a existência de uma memória de Li Peng com detalhes idênticos em 2004, um ano depois que ele se aposentou do governo.

“Ainda acho que é real e é realmente apresentável”, ele disse. “O que é realmente notável é que fornece detalhes surpreendentes que não conhecíamos.”

Uma cópia completa do manuscrito não estava disponível. Mas o jornal “South China Morning Post”, de Hong Kong, publicou uma reportagem na sexta-feira de que havia obtido uma cópia do manuscrito. Ele disse que Li escreveu em um prefácio datado de 6 de dezembro de 2003 que se sentia levado a registrar o que aconteceu “para servir como o mais importante testemunho histórico” sobre Tiananmen.

O jornal disse que ele escreveu que os manifestantes ameaçaram enviar a China para uma nova era de rebelião política, semelhante ao caos em que Mao mergulhou o país periodicamente durante seu regime.

“Desde o início da confusão eu me preparei para o pior. Preferia sacrificar minha própria vida e a de minha família para evitar que a China passasse por uma tragédia como a Revolução Cultural”, escreveu o jornal, citando uma entrada do diário de 2 de maio de 1989.

Essa visão – de que os manifestantes tentaram derrubar o regime comunista – contrastava totalmente com Zhao, que afirmou que os estudantes queriam reformas, e não revolução. Nas memórias, escreveu o jornal, Li afirma que começou a discordar de Zhao dias depois do início dos protestos, em abril de 1989.

Mas segundo um prólogo de Wu Guoguang, um acadêmico da Universidade de Victoria, na Columbia Britânica (Canadá), a memória deixa claro que Deng, e não Li, dirigiu o movimento para esmagar os manifestantes e tirar Zhao do poder.

“Este livro revelou claramente que Deng foi o proponente e quem tomou a decisão de aplicar a lei marcial em partes de Pequim em 1989”, escreveu Wu. “E ele deu a aprovação final para a operação de ‘limpeza do terreno’ na Praça Tiananmen em 3 de junho.”

Em uma entrevista na sexta-feira, Bao Tong, um importante assessor de Zhao que foi preso depois dos protestos de Tiananmen, disse que aprovou a publicação da nova memória, embora a visão de Li da crise não esteja de acordo com a sua. “Existe um antigo ditado na China: se você ouvir falar amplamente de todas as fontes, suas dúvidas sobre a situação logo se esclarecerão”, ele disse.

Os chineses comuns não terão essa oportunidade, porque a memória de Zhao não é legalmente encontrada no território principal, e a de Li certamente também será banida. Desde o massacre de 1989, as referências aos protestos de Tiananmen foram tão vigorosamente suprimidas que muitos jovens têm pouco conhecimento do que aconteceu.

Bao, que é pai de Bao Pu, chamou a repressão de “uma grande vergonha”.

“Mas o mundo entrou em uma era de informação”, ele disse. “E com a disseminação da Internet não pode haver monopólio da verdade.” Com o tempo, ele disse, a maioria dos chineses poderá avaliar os dois lados da história de Tiananmen.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

três + dezesseis =

ao topo