Matusalém e outros judeus assediados por demônios

Décimo volume de contos publicado por Isaac Bashevis Singer em inglês, em 1985, e lançado no ano passado no Brasil pela Companhia das Letras, na tradução de Alexandre Hubner, “A Morte de Matusalém e outros contos” é dessas obras diante das quais de pouco vale se tecer elogios exaltando suas incontáveis qualidades, sua prosa objetiva e certeira, seu ritmo sempre em crescendo, seu uso inteligente e original da rica tradição judaica.

Se tudo isso já é por demais sabido, ainda assim cada uma das vinte histórias reunidas nessa nova seleta de Singer preserva seu roteiro próprio como, por exemplo: um milagreiro que se desencaminha tentado por demônios-fêmeas, aliás fantasmagorias abundantes nesse livro; um Shabat realizado numa Geena que fica pouco a dever às agruras que Dante reservou aos condenados ao seu inferno; ou ainda a intrigante história de uma linha extraviada de um ensaio filosófico publicado num jornal e que vai parar num outro periódico, para desespero do seu cético autor.

Não falta a esses contos uma narrativa que, hoje, tem um nome específico: homoerótica, em linguagem politicamente correta: o caso de um rapaz que foge de sua cidade (trata-se aqui sempre de alguma aldeia polonesa de população judaica) à véspera de um casamento que ele não está preparado para enfrentar. A noiva, em desespero, sai em busca do nubente recalcitrante para constatar, para seu espanto, que ele agora é ela…

A desenvoltura com que as mulheres judias agem nesses contos, nas “primitivas” aldeias e vilas judaicas disseminadas pela Polônia das primeiras décadas do século passado, é um dos sinais inconfundíveis da modernidade. A afirmação da libido feminina é o verniz que põe em movimento os lances mais ousados de um xadrez ficcional que não cessa de assumir novas combinações a cada entrada de um novo personagem. E se a libido parece sempre em ebulição no mundo terreno, nos planos do além ela parece irresistível.

Se o livro descortina um cenário no qual rabinos, falsários e demônios se altercam e se emulam, como na tessitura da história inicial, “A Morte de Matusalém”, por sua vez, não deixa de fazer um contraponto àquele conto, só que com possibilidades melhores para o mortal que a anima, ao contrário do destino trágico que abraça o personagem de “O Judeu da Babilônia”.

De fato, Matusalém é também um pecador, apesar de sua descendência paterna. O fato de seu pai Enoque ter sido arrebatado aos céus por anjos do Senhor lhe parece motivo mais para incômodo do que para regozijo. É que ele não consegue emular Enoque em santidade, e a passagem dos séculos não lhe ajuda a remediar essa situação, como revela a narrativa.

Nesse décimo volume de contos, Singer se dá o direito de receber narradores ora em seu apartamento em Nova Iorque, ora num convés de navio em que viaja à América Latina, ora a uma mesa de restaurante ou recostado ao balcão de um café. Seus interlocutores parecem mesmo mais ávidos de narrar do que o próprio escritor em as ouvir e, recolhido ao estilo low profile, só de raro em raro se atreve a interromper a narrativa para indagar sobre um episódio, um detalhe qualquer que lhe parece indispensável esclarecer. Com isso, a história contada passa a ser compartilhada com o leitor ainda em seu curso presente, ou seja, enquanto o próprio narrador a relata. Esse é o maior elogio que um escritor pode conceder a seus leitores.

Se a boa ficção é uma porta segura para o encantamento do mundo, a obra de Isaac Bashevis Singer, quer em sua vertente novelesca, quer na vertente do conto, é uma dessas portas indispensáveis que a literatura do século XX pode abrir ao leitor de hoje com a certeza de que ele reagirá com a mesma indizível surpresa que maravilhou os seus contemporâneos.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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