“Me perdoe a pressa…”

Já vou logo pedindo que também me perdoem os perfeccionistas da língua pelo título do texto em que mantive a próclise. É que quero ser fiel à expressão que me pareceu bem representativa da linguagem coloquial, como fez valer Paulinho da Viola em sua genial canção “Sinal Fechado”, pérola que não canso de ouvir nesses dias iniciais do ano – a partir de interpretações múltiplas colhidas e expostas pelos vídeos do YouTube. A canção de Paulinho vale por um tratado filosófico. Creiam em mim. Creiam em Paulinho da Viola.

A canção trata de um encontro fortuito de dois/duas amigos/amigas (ou ex-amantes, talvez) num sinal de trânsito fechado. Letra e música se casam de forma perfeita, permitindo imaginar claramente a situação: “Olá, como vai?/Eu vou indo e você, tudo bem?/Tudo bem eu vou indo correndo/Pegar meu lugar no futuro, e você?/Tudo bem, eu vou indo em busca/De um sono tranquilo, quem sabe…”. A dramaticidade emerge. Lugar no futuro? Sono tranquilo? Quem garante? Fica fácil entender a ansiedade e a sofreguidão com que o diálogo vai se desenvolvendo. É o retrato em três por quatro das nossas angústias embebidas na pressa doentia desta nova era em que vivemos ainda tateando, aos tropeços e danças.

Os personagens se questionam sobre a passagem do tempo…lances da vida: “Quanto tempo… pois é…/Quanto tempo…”. Evidencia-se uma perplexidade embaraçante. A isso parece se assomar certa dor, alguma culpa pelo esquecimento e desatenção do outro ou outra: “Me perdoe a pressa/É a alma dos nossos negócios/Oh! Não tem de quê/Eu também só ando a cem”. A alma? Negócios? Compatíveis? Eis a engrenagem da dor capitalista, a dor da velocidade industrial que destrói amizades, amores, seres. A busca patética pelo ter, além da luta – às vezes cega e equivocada nos princípios eleitos – pela sobrevivência na selva “civilizatória” e por lugares de destaque social, algo que termina por separar e distanciar as pessoas e rasgá-las ao meio. Cadê o tempo para contemplar o tempo? Sei lá!

Apesar disso, os viventes teimam em buscar algum contato, mesmo que fugidio e frágil, com outros que lhes são de importância: “Quando é que você telefona?/Precisamos nos ver por aí/Pra semana, prometo talvez nos vejamos/Quem sabe?”. É permanente, ainda que fragilizada pelos obstáculos e constatadas impossibilidades, a procura por caminhos que permitam o encontro ou o reencontro em algum momento. Há uma sede disso. Há uma fome da reconstituição da própria história, que só podemos saciar diante da presença do outro e da memória reconstituída do que somos e fizemos. E dos sonhos sonhados.

A constatação das incomunicabilidades parece se acentuar a cada dia. Muitos são os fatores e é certo que não sabemos lidar com o tempo. O tempo, que é máquina de triturar a paz. Vejo que, tentando superar isso, até as redes sociais virtuais apareceram, buscando diminuir as distâncias. Como exemplo disso, fiquei feliz por me deparar recentemente com a criação de um grupo no WhatsApp juntando gente do meu Pré-vestibular de 1986 no Neves, além de um outro, com pessoal superbacana que morava na minha antiga rua (Segundo Wanderley) nos anos 70/80/90. Quantas histórias saborosas! Mesmo assim, fica uma dor no coração, um sabor amargo na língua quando ouço a realidade estampada na canção, sabendo que o sinal logo, logo, vai abrir: “Tanta coisa que eu tinha a dizer/Mas eu sumi na poeira das ruas/Eu também tenho algo a dizer/Mas me foge a lembrança”.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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