Médico de cuba, não, melhor deixar como está

O governo federal anunciou a importação de seis mil médicos para tentar diminuir, temporariamente, o déficit desses profissionais no país. Imediatamente o Brasil reagiu, quer dizer, os novos formadores de opinião do Facebook resolveram meter o dedo. Incrível ver gente que depende do SUS reclamando que esse projeto não vai dar certo porque, em sua ótica, os médicos não estão preparados. Quer dizer, do nada, o brasileiro facebookiano descobriu que entende de política de saúde e de medicina e tem certeza, como dois e dois são cinco que os médicos formados da Europa ou de Cuba não têm a mesma formação que os médicos brasileiros. Para atender a essa reação popular midiática, o governo brasileiro recuou e avisou que trará apenas os médicos europeus. Os tupiniquins continuam chiando, mas todo mundo sabe que é só o sujeito hablar español da Espanha, português de Portugal e principalmente francês que todo mundo vai abrir as pernas.

Entendo a reação da oposição que é paga para ser do contra e até entendo a reação do Conselho Federal de Medicina que não quer, de jeito nenhum, que os brasileiros vejam a cartelização que os médicos brasileiros fazem com a saúde pública da nação. Aglomeram-se em cooperativas para poder cobrar o que der na telha e tornar municípios e estados reféns de suas exigências. Além do que, médico não gosta de trabalhar em cidades pequenas, afinal, quem ganha R$ 30 mil por mês não gosta de viver onde não tem onde gastar. Nesse ponto até dou razão a eles, sobretudo os novos médicos que querem investir em sua carreira e não têm nenhuma estrutura para isso no interior. Isso só vai ser resolvido quando tiver tantos médicos no Brasil quanto advogados, aí quero ver um “doutor” recusar R$ 10 mil de salário para trabalhar dois dias na semana. No Brasil, os médicos estão concentrados no Sudeste. No Rio Grande do Norte, 70% estão em Natal. O Brasil ainda forma muito poucos médicos, embora o governo Lula/Dilma tenham sido quem mais investiu em faculdades de medicinas, mas claro que a oposição não vê isso.

O principal argumento dos facebookianos é que o Brasil não vai exigir a revalidação dos diplomas desses profissionais. Talvez não seja bom isso, mas pior ainda é ver as filas enormes de gente nos hospitais do país, moribundos nos corredores e PSF’s sem funcionar. Imagino o que pensa um desses críticos cibernéticos quando precisa esperar horas para receber atendimento, ou mesmo dias para uma consulta, mesmo se paga plano de saúde. Comparo essa discussão com a discussão do Bolsa Família. Embora o programa diminua a miséria do Brasil e represente um importante incremente na economia, tem um monte de new formador de opinião falando mal, muitos talvez até vivam dele.

Agora sobre a recusa dos médicos de Cuba, esse foi o pior. A maioria dos brasileiros está acostumada a ter opinião do ouvir dizer e como as decisões políticas desse pessoal passa pelos states, eles são contra os cubanos. Lógico que não sabem que a política de saúde estadunidense é uma das mais cruéis do mundo, daquelas que deixa bebês e mães de bebês morrerem se não estiverem em dia com o plano de saúde. Claro que eles também não sabem que Cuba tem uma das medicinas mais funcionais do mundo, pode não ser a mais moderna, mas é uma as que mais tem resultado não apenas neste país, mas em vários lugares do mundo. Sim, porque Cuba não enviaria médico somente para o Brasil, ele faz isso com vários países mundo a fora. Graças à sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo, segundo constatou Pedro Porfírios.

Em 2005, o governador do estado de Tocantins trouxe médicos cubanos para trabalhar no estado porque não conseguia fechar as escalas de plantão. O resultado foi surpreendente, embora o CFM e os opositores tenham ficado horrorizados com o resultado positivo. Ainda segundo Porfírios, em 2012, Cuba, com cerca de 13 milhões de habitantes, formou em suas 25 faculdades, inclusive uma voltada para estrangeiros, mais de 11 mil novos médicos: 5.315 cubanos e 5.694 de 69 países da América Latina, África, Ásia e inclusive dos Estados Unidos. Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba. Desde 1963, os médicos cubanos cuidam do mundo. Nesse tempo já trataram de 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo. Mas mesmo assim, os cubanos não servem para os brasileiros porque eles têm cara de pobre e se parecem muito conosco. Ainda se fossem americanos, mas cubanos, não, melhor deixar como está.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 9 comments for this article
  1. ana alencar 28 de Maio de 2013 17:54

    nossa, quanta falácia junta! mas vamos lá! o sr já foi a cuba? já foi atendido pelo “maravilhoso” sistema de saúde cubano? o finado presidente da venezuela foi…; o sr. já morou no interior do país, já foi atendido em algum psf do interior do país? fazer medicina preventiva é bom e barato, mas não resolve crise hipertensiva, hiperglicêmica, infarto, derrame, parto complicado nem politraumatismo; salário de 10, 30 mil que só é pago no primeiro mês nem o sr quer, tenho certeza; médico só vindo do Paraíso pra resolver saúde de posto q não tem estrutura física, insumos (gaze, luva…), equipamento, remédio, exame; profissionais estrangeiros revalidam seus diplomas em todos os países nos quais se pratica medicina com seriedade; se der condições de trabalho e pagar em dia, podemos ir; se quiser estimular, só isentar o nosso salário do imposto de renda já tá bom demais! onde estão os médicos cubanos do Tocantins? Pq não continuam no interior, com seus diplomas validados e asilo político de um regime ditatorial? Se for pra fazer pajelança, nossos índios são melhores do q qualquer médico do mundo!

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  3. Ceres Pascal 29 de Maio de 2013 1:38

    Veio a propósito o comentário da Sra. Ana de Alencar: Fiz um eletro-cardiograma com a finalidade de observar minha saúde para uma cirurgia a que serei submetida. Fiz na Beneficência Portuguesa com uma médica que ainda não sei o nome, pois sua assinatura é ilegível. Fui caminhando até o hospital e lá imediatamente a enfermeira fez meu eletro apesar de minha respiração ofegante e de ter prevenido que o eletro era requisitado porque eu seria submetida a uma cirurgia. Hoje pedi ao motorista ir buscar o resultado. Pra minha surpresa, vi que a interpretação do eletro-cardiograma estava escrita e assinada na parte frontal do envelope. A moça, no mínimo, ignorou as regras de polimento, de ética médica ( já que o resultado é sigiloso e só do conhecimento do médico e do paciente). Enfim, parece que o retirei da lata do lixo. Parece não, foi bem de lá que foi retirado! Será, Sra. Alencar, que este eletro vai prevenir um infarto, uma cirurgia segura, etc…. Que venham os cubanos que, no mínimo,
    recebem princípios éticos e morais superiores aos de parte de nossos médicos.

  4. Marcos Silva
    Marcos Silva 29 de Maio de 2013 5:17

    Nunca fui a Cuba. Critico o modelo de suposto socialismo ali praticado (partido único, Imprensa única, medo estatal em relação a movimentos sociais) mas ouvi boas referências a seu sistema de saúde, e não apenas à Medicina preventiva, conheço gente que foi lá para fazer cirurgias ou tratamentos diversos. Estranho a exclusão de cubanos (li algo na Imprensa também contra médicos bolivianos) nesse projeto de adotar médicos estrangeiros no sistema de saúde brasileiro. E o caos da saúde pública nacional não se restringe ao número de médicos disponíveis, as instalações de hospitais parecem filmes de ficção dos anos 50. preferivelmente aquele em branco e preto.

  5. gerson yam 29 de Maio de 2013 9:31

    Cara Ana, esse teu comentário demonstra teu ódio e preconceito com as camadas mais pobres da população.O SUS apresenta inúmeros problemas, isso é certo, temos que lutar para corrigi-los, perfeito, mas desrespeitar os medicos cubanos que prestam solidariedade ao mundo todo(vide exemplos da venezuela, espanha, portugal, etc…) e que são reconhecidos por sua capacidade humana de tratar os pacientes, diferentes dos médicos mercantis do brasil que somente pensam em ganhar dinheiro, é de uma insanidade tremenda…

  6. Anchieta Rolim 29 de Maio de 2013 11:26

    Vivemos em um verdadeiro CAOS!

  7. Luiz 29 de Maio de 2013 18:08

    Bom…independente de o médico ser cubano, europeu ou estadunidense, penso que QUALQUER médico é melhor que nenhum. Se não tem insumos nos postos de saúde, pior é NEM TER MÉDICO. Não se pode usar o argumento de: “ah, não vai médico lá porque não tem estrutura.” Isso é isentar-se e omitir se do problema. Se o posto não tem insumos, que o médico vá lá, e bote o boca no trombone, que reivindique, que tenha comprometimento com a comunidade local. Garanto que terá apoio dessa comunidade INTEIRA e de muita mídia também. Terceirizar o problema não nos torna melhores que aqueles que causam o problema….ou seja: dizer que ALGUÉM precisa fazer algo, mas não eu.
    Então, pra reforçar: QUALQUER MÉDICO É MEHOR QUE NENHUM.
    E estatisticamente, todos sabemos que os médicos estão concentrados sim nos centros urbanos.

  8. Denise Araújo 29 de Maio de 2013 20:28

    Também tenho feito a triste constatação de Gerson Yam: infelizmente muitos médicos brasileiros são verdadeiros comerciantes. Há alguns anos tomei a atitude de só escolher profissionais bem recomendados por conhecidos. Ainda assim os choques têm sido inevitáveis. É muito clara a diferenciação que alguns fazem ao tratar o paciente da rede privada e o do SUS – como se esse sistema único de saúde não fosse o mais caro dos planos que pagamos. Aceitaria ser atendida por qualquer médico que fosse bom, independentemente da nacionalidade, mas tenho muito medo desta medida do governo geral mascarar o problema: vão dotar os postos e hospitais com reais condições de trabalho? O número de leitos será suficiente para a população? A única solução para os interiores do Brasil será a contratação de profissionais estrangeiros?

  9. Sérgio Luiz Sander 31 de Maio de 2013 11:26

    Creio que as pessoas que falam mal de Cuba e de seus médicos, nada conhecem desse país. Estive lá por duas vezes e já me hospedei em casas particulares. O fato é que Cuba é um país que tem dificuldades econômicas, não por ser socialista e sim por sofrer um cruel bloqueio econômico da maior potência mundial. Não há falta de liberdade da população, ao contrário do que se divulga e, sua democracia é muito mais verdadeira e participativa do que a nossa, mesmo tendo um partido único, pois, quantidade de partidos não tem relação direta com democracia; se assim o fosse o Brasil seria a maior democracia do mundo pois temos uma infinidade deles. Quanto à medicina cubana, é sem dúvida da melhor qualidade. O país é avançadíssimo nessa área e produz muitos dos medicamentos que usamos aqui, hepatite C por exemplo. O que a classe médica mercantilista brasileira quer é manter uma reserva de mercado, tratando a saúde como uma mera mercadoria. São beneficiários de cursos caríssimos pagos em sua maioria pela população pobre do Brasil. Depois de formados, não querem atender tal população e não querem que ninguém atenda. Egoísmo dos “Deuses”.

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