Medíocre, como qualquer um

Hoje foi um dia maroto, me pegou com seu calor de 36 graus esturricando os miolos. Devastando tudo entre espuma e sangue.

Palavras são traiçoeiras. A gente diz tudo e quando vê, se perde entre a verborragia proferida por nós mesmos. Silêncios disformes são necessários quando o asfalto conduz às migalhas de nossos delírios.

Eu disponho de um arsenal de fraquezas e gosto de utiliza-las numa auto sabotagem. O sofrer engrandece tanto quanto emudece e murcha o coração. A razão nunca é a razão e sim uma eterna ilusão. Fatigada, molhada e distante, tão distante quanto o mel das abelhas. As sensações de um homem de 50 são mesquinhas.

Mas não se preocupem. Falo de mim. Do objeto impenetrável que é um simples cinzeiro. Cheguei à conclusão que eu nasci no tempo errado, no local errado ou me perdi por essa ideia. Pelas coisas que vi, que não conclui ou que realizei.

O desgaste emocional e a versatilidade indigesta de saber o que se tem e se pode perder a qualquer momento é como um osso de um cão faminto. Pra um humano faminto. Faminto de sensações, de reconciliações consigo próprio.

A gente, às vezes, acha que sabe tudo, ou melhor, tem certeza que sabe tudo e deixa de enxergar a si próprio, a nossa própria fragilidade emocional e intelectual. Os dissabores indigestos da realidade mundana de nós mesmos.

Alguns podem achar tudo isso uma discrepância inconteste de um intelectualoide diabólico. Ledo engano. São simples constatações que a vida te entrega diariamente e cegamente a gente ignora.

Como eu ignoro meus momentos vis, meus momentos rudes, porque me é confortável achar que sou bacana, do bem.

É confortável achar, pra qualquer um, que os erros cometidos tem sempre uma justificativa padrão. Padrão porque é sincero se achar que os motivos que nos levam a atos desprezíveis, tem, verdadeiramente, justificativa.

Ora, eu sou um cara medíocre. De verdade. Porque quem acha que tem razão, em detrimento dos direitos alheios, sem importar o que enxergamos no espelho da alma, todos os dias, é igual a mim. Um humano medíocre.

Sabe o cinzeiro de que falei antes? Está cheio. Cheio de mim, de qualquer um. São cinzas que tem mais importância que o próprio lixo que coletamos diariamente na nossa labuta.

Eu sinto e acho que tenho razão quando disparo contra eu mesmo 80 tiros. Porque a minha humanidade é tão frágil quanto a minha razão.

Pois é, é distante a minha certeza de ser um homem de  bem do que as outras pessoas acham de mim. Mas eu, como qualquer outro, estou pouco me lixando sobre isso porque o asfalto continua quente, o cinzeiro continua cheio. O mundo continua impenetrável. Os meus miolos e as minhas palavras continua esturricadas no calor das razões.

E eu continuo medíocre como qualquer outra pessoa.

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