Meio Século do Dep. de Física da UFRN

Por João da Mata Costa
Prof do DFTE – UFRN

Nos 50 anos do Departamento de Física Teórica e Experimental (DFTE) da UFRN lembro de alguns colegas que fizeram parte de sua história e já não estão entre nos para comemorar esse meio século de muitas conquistas e desafios. O DFTE completa 50 anos com uma grande produção acadêmica e grupos de pesquisas bem consolidados. O Departamento de Física foi pioneiro em pesquisas nas UFRN e atualmente a sua pós-graduação tem conceito 06. Muitos professores já aposentaram e outros faleceram. Aproveito a efeméride para lembrar de alguns colegas que conviveram comigo nesses quase quarenta anos de formado em Bacharel em Física na UFRN.

Professor Juarez Pascoal de Azevedo foi um dos fundadores do nosso Departamento de Física e um grande intelectual autor de muitos livros. Alguns religiosos e com medo do comunismo. Foi meu professor de História da Ciência, quando aprendi muito e depois passei a lecionar essa disciplina. Um professor eclético da linhagem dos grandes de antigamente, como os professores Malef, Pinho, Milton e outros. Religioso. Quando me formei em 1976, tivemos que assistir um culto na sua igreja. Foi um dos dias mais felizes para papai. Deixa saudades e o exemplo. Brincalhão e bem humorado. Quando não tinha apagador tirava as meias dos pés e limpava o quadro. Juarez escreveu os livros Ateu Já era, Histórias que nunca foram escritas, A Bíblia falou tá falado, Histórias pra rir e pra chorar e, juntamente com o prof. Timichak, escreveu um manual de estratégias de missões. Além de muitos artigos pra revistas científicas e evangélicas.

Professor Remarque Fernandes da Silva era um homem magro, tímido e reservado. Nunca deixou de usar sua camisa de linho, tecido que comprava em peças para confeccionar suas roupas. O carrinho antigo e bem conservado era o seu meio de transporte. Mesmo depois de comprar um carro novo não abandonou o seu corcel velhinho. Como morador antigo da cidade, conhecia a ribeira e suas alfaiatarias e botecos, mas nunca foi boêmio. Solteirão vivia para o trabalho e a companhia das irmãs. Formado em Engenharia Civil. Trabalhou durante muito tempo na Faculdade de Engenharia (gérmen do DFTE) e no Departamento de Física da UFRN. Participou do grupo de Ionosfera, um projeto pioneiro de pesquisas na UFRN. Professor Remarque lecionou durante muito tempo as disciplinas de Física Geral e de Mecânica. Fui seu aluno de mecânica e guardo grandes lembranças de suas aulas muito bem ministradas. A Vida do professor Remarque era a universidade. Depois de aposentar, aparecia sempre na Física para conversar com os amigos. Nos últimos anos antes de falecer não saia de casa. A doença o consumia. Palmeirense doente, também gostava de conversar comigo sobre a música popular brasileira da época de ouro. Um dia ele me doou alguns discos antigos em 10 polegadas. Guardo-os como relíquia. E guardo do amigo a dedicação, a simplicidade e o amor ao ensino e aos amigos.

Janúncio Bezerra de Melo (Juba) foi um dos alunos formados no DFTE e depois professor do CERES – Caicó. Uma lição de vida. Grande amigo meu e do Departamento de Física da UFRN, onde ele foi professor. No vestibular de 1974, foi o primeiro lugar em medicina e o primeiro na classificação geral. Mudou para o curso de Física devido ao acidente que lhe deixou na condição de paralítico, após um mergulho em um açude, na sua cidade de Caicó (RN) em 1963. Sertanejo legítimo da família Bezerra de Melo, possuia a inteligência e sagacidade do povo seridoense. Persistente e estudioso, estava concluindo o doutorado em Campina Grande, em meteorologia. Tinha trabalhos sobre as secas históricas no nordeste brasileiro e fez mestrado no INPE, São José dos Campos (SP). Nesse período teve a ajuda inestimável de muitos colegas, particularmente do prof Rui Tertuliano, ex-chefe do Departamento de Física da UFRN. Um prosador como já não existe mais. Conversava sobre todos os assuntos e tinha um conhecimento profundo das coisas e personagens do sertão. Gostava de escrever sobre os “causos” do sertão do nunca mais. Deixou muitos escritos e livros inéditos. Cheguei a ler alguns desses contos e histórias nas muitas idas ao Seridó, quando ia trabalhar na estação Ssmográfica de Caicó. A estação ficava na fazenda dos seus familiares, num terreno gentilmente doado a UFRN para abrigar a estação Ssmográfica. Durante toda a operação de transferência da estação de Natal para Caicó, manutenção e operação diária da estação, o prof Janúncio teve um papel decisivo. Chico foi o operador da estação e uma pessoa fundamental na vida de Juba. Durante muitos anos foi seu secretário e o transportava para todos os lugares. Tive o prazer de conhecer seus pais e manos. A estação fazia parte de uma rede mundial de sismógrafos padronizados. Hoje está desativada e encontra-se do Departamento de Física da UFRN. A ultima vez mais demorada que estive com o amigo Janúncio foi como diretor da ADURN, numa reunião do sindicato no Ceres, e uma festa dos professores na APUC. Conversamos bastante, tiramos muitas fotos e ouvimos muitos discursos no velho estilo seridoense. Como seridoense de nascimento e sangue fiquei muito emocionado. Como físicos, observávamos as interferências das plácidas ondas no belo açude do ITANS. Foi uma bela reunião e a minha despedida do grande e saudoso amigo Janúncio. Um grande professor da UFRN, e uma grande figura humana que tive o prazer de privar da amizade durante tantos e tantos anos. Descansa em paz meu irmão, sabendo que deixastes muitos amigos e um exemplo de vida que honra a família seridoense e a garra dos que não se sujeitam com as adversidades da vida.

Meus sentimentos e saudades, caríssimos colegas.

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