A melancolia que nos acompanha

Dia desses revi dois filmes completamente diferentes, mas que têm traços em comum, situados a partir de um olhar melancólico e trágico sobre a humanidade. Um tem título por demais evidente: “Melancolia” – foto – (2011), de Lars Von Trier. O outro é “Bird” (1988), que, para mim, é o melhor filme dirigido por Clint Eastwood. Ambos excelentes, com atores principais jogando seus papéis em atuações magnânimas (Kirsten Dunst em “Melancolia”, Forest Whitaker em “Bird”). Os filmes demonstram, de maneiras e ângulos distintos, como as ideias de morte, tragédia, desalento e desespero estão sempre no entorno da vida, como um duro e continuado aviso, impedindo que esqueçamos (como o escravo na biga de César) nossa efêmera condição de seres viventes e limitados.

O filme de Trier possui a beleza natural de uma obra clássica. A longa cena inicial (uns oito minutos, ou mais), com quadros quase estáticos, tendo a bela música de Wagner (Tristão e Isolda) ao fundo, somente poderia ter sido feita por Trier. Às vezes o filme parece muito enfático, às vezes aparenta ser pretensioso. E nos põe uma questão basilar: Será que não é a humanidade a mais pretensiosa ao almejar continuidade eterna sobre a Terra? Estaremos nós cientes da iminente queda e do possível desaparecimento? Não sei se isso é pessimismo tosco ou mera constatação, mas é algo interessante a se pensar no início de um ano que, certamente, trará muitos desafios a toda a humanidade. Os avisos estão por toda parte.

O filme de Eastwood, expondo traços biográficos e a trajetória acidentadíssima do grande músico de Jazz Charlie “Bird” Parker, virtuose que teve morte precoce decorrente do desenfreado uso de drogas e álcool (o legista que analisou o morto lhe atribuiu a idade de 65 anos, quando contava com apenas 34), mostra o quanto podem ser e são diferentes a vida e a arte. E numa só pessoa as distâncias entre uma e outra podem ser abissais. Charlie Parker talvez tenha sido o maior saxofonista do Jazz de todos os tempos. A sua vida, porém, não tinha lá essas belezas todas. Dizendo de outra forma: permitiu-se muita feiúra onde poderia ter predominado, com sobras, o belo. Foi uma existência, assim, sempre pontuada pela tragédia e pela dor intensa.

Esse tema da melancolia humana (e os seus contornos e desdobramentos) me fascina. Sobre o tema, o primeiro livro absolutamente recomendável e maravilhoso que li foi “Saturno nos Trópicos – A melancolia europeia chega ao Brasil”, de autoria do saudoso Moacyr Scliar, Companhia das Letras, 2003. Isso me fez buscar outros textos, outros títulos. Claro que inúmeros autores literários, poetas e prosadores, possuem conteúdo banhado nesse caudaloso rio, que é perene sob o “sol negro”. No nosso rincão, basta lembrar a “alma lacrimosa” de Ferreira Itajubá. Ocorre que me deparei, em minhas buscas mais específicas no que respeita ao tema, com algumas verdadeiras obras-primas e, dentre elas, até um tratado. Obras de Cioran (beirando e mesmo mergulhando, com estilo e verve, no desespero), Jean Starobinski (cuidando de leituras acerca de Baudelaire), Jacques Hassoun (em ênfase psicanalítica à crueldade do sentimento melancólico), Michael Löwy e Robert Sayre (num estudo sobre o Romantismo e seu caráter revoltoso e de recusa da realidade social presente). E no meio da montanha de livros que começo a escalar, destaca-se um monumento impresso chamado “A anatomia da melancolia”, escrita no século XVII pelo inglês Robert Burton, que me desafia à leitura de todos os atrativos quatro volumes traduzidos por Guilherme Gontijo Flores e publicados pela Editora da UFPR em 2013.

Talvez não seja necessário afirmar que os filmes revistos e os livros adquiridos (alguns já lidos), fizeram-me e me têm feito pensar muito mais acerca do aforismo latino: “Ars longa, vita brevis.” É ela, a arte, que nos impede o conformismo em pleno 2016, apesar da melancolia evidente. Não temo em afirmar que é mesmo o fazer e o fruir artístico o melhor dos lenitivos e a única e verdadeira esperança nos tempos atuais. Por isso, prossigo. Por isso.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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