Melancolia

Por Luiz Zanin
ESTADÃO

É ainda tema para debate se Lars von Trier se preparou, ao longo de toda a sua obra, para chegar a esse estupendo Melancolia. Mas é ideia defensável, ainda que controversa. Esse filme recente tem algo da dramaticidade individual de Ondas do Destino, a profundidade de Dançando no Escuro, a intensidade da poética política e brechtiana de Dogville e Manderlay, o sentido apocalíptico de Anticristo. É uma obra-síntese, embora seja claro que o diretor continua em evolução.

Melancolia mergulha o espectador de chofre em uma experiência intelectual e sensória já no prólogo. À maneira de uma ópera, apresenta, como prelúdio, um resumo do que virá, com seus tableaux vivants, os personagens perdidos num jardim de sonho, imagens pontuadas pela música de Tristão e Isolada, de Wagner.

Depois disso, o filme se desdobra em duas partes, intituladas com os nomes das duas irmãs – Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg). Na primeira parte do díptico, vemos Justine se preparando para um casamento suntuoso. A estética, aqui, parece a dos primeiros filmes do Dogma dinamarquês, em especial pela câmera na mão. A festa burguesa se prepara, enquanto a noiva, melancólica, com tudo agora ao alcance das mãos, se prepara para arruinar sua vida, peça por peça. É uma demolição que se anuncia. E não apenas no âmbito pessoal.

Esta se anunciará na segunda parte, a de Claire. Justine arruinou-se a tal ponto que precisa até ser alimentada na boca para sobreviver. Quem cuida dela é a irmã, que é seu oposto. O que Justine tem de desordenada, Claire tem de centrada. Há, no entanto, uma ameaça pairando, sob a forma de um enorme planeta, chamado Melancolia, que ameaça chocar-se com a Terra. Os cálculos dizem que tudo está sob controle, mas sabemos como são os cálculos.

A linguagem do filme muda nessa segunda parte. Torna-se intensa, suntuosa, grave à medida que a catástrofe se aproxima. Neste ponto, há uma curiosa (porém compreensível) inversão. Justine, tão inadaptada para o mundo, parece serena e centrada para a iminência do fim. Claire, tão centrada e dentro dos parâmetros da normalidade, é o desespero em pessoa quando confrontada com a perspectiva da finitude. Faz sentido. Uma, de acordo com sua perspectiva, não tem mais nada a perder; a outra, pelo contrário, tem sólidos motivos para se apegar a uma vida que parece ameaçada.

Essa é uma maneira de ver este filme simples em sua compreensão imediata. Mas que tem, ao que parece, outras implicações e leituras possíveis. A segunda parte é, claramente, a metáfora da primeira. Von Trier foi buscar o tema da melancolia como comentário do mundo. Não buscou a depressão, o chamado mal contemporâneo, mas que significa uma “doença” (eventualmente combatida com medicamentos) cuja causa pode ser encontrada. Fala-se de depressão pós-parto, ou seguida da morte de uma pessoa querida, ou da perda do emprego, etc. É mais pontual, embora possa ser devastadora. Já a melancolia é o mal do mundo, sem que qualquer causa se apresente. É o mal-estar, por definição; não tem objeto e sustenta-se por si. É letal.

A originalidade de Lars von Trier foi tirar da melancolia esse caráter individual e retratá-la como o fim de um mundo. O homem contra si mesmo é o cataclismo fundamental. Donde essa estranha peça de ficção científica, tão aparentada a Solaris e Stalker, de Tarkovski. Não apenas pela estética, mas pela preocupação de entender, em chave metafísica, as humanas inquietações do presente.

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