Melancolias

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Só os muito insensíveis são capazes de viver sem sofrer os efeitos da mais antiga das doenças da alma

Ainda não pude ver “Melancholia”. As colunas de Francisco Bosco e de Caetano me mobilizaram para o filme, e para o assunto da melancolia e do fim do mundo. Já contei aqui, recentemente, que essas questões me perseguiram intimamente por muito tempo, com o sentimento de uma catástrofe final, definitiva, inevitável. Contei também que esse sentimento passou por uma mutação em mim, e perdeu a dominância que tinha nas minhas fantasias e nos meus medos. Talvez porque eu tenha passado por perdas reais. A verdade é que saí da posição melancólica encruada. Entrevejo, pelos comentários deles, que as duas irmãs, personagens do filme de Lars von Trier, de algum modo dramatizam isso. Diante da iminente colisão do planeta Melancholia com a Terra, a melancólica parece encarar o real (se eu não estiver enganado), enquanto a realista e adaptada não tem como suportá-lo.

Sem ter visto o filme, eu o vejo através dos meus colegas de coluna, além de vêlos e de me ver neles. O texto de Francisco Bosco é bonito e forte, e acusa o impacto do filme sobre si como o da Melancolia destruidora sobre a Terra. Embora já tenha se revelado, aqui mesmo, como habitualmente insone, ele conta ter sofrido, na noite que se seguiu, da insônia redobrada desse impacto, o do filme, que lhe pareceu tão poderoso quanto filosoficamente inaceitável.

Não sofro de insônia, em geral, mas imagino bem essa insônia específica. Acho que eu e Francisco Bosco, antes de críticos, somos crédulos, isto é, damos crédito às fabulações artísticas que nos atingem. Há outros que, antes de críticos, preferem ser mais propriamente crápulas, dispostos a extirpar pela raiz qualquer espécie de inocência. Eu e Bosco não tememos a inocência — tememos talvez pela inocência. É por isso que ele acusa no filme a traição da vocação nietzscheana da arte, a de afirmar a vida contra a falta de fundamento e sentido.

Caetano é mais escolado do que nós dois, que somos mais escolares, ou mais scholars, do que ele. Identifica com naturalidade os truques americanoides que correm por baixo do supereuropeu “Melancholia”, ao mesmo tempo em que identifica os vezos europeizantes do norteamericano “A árvore da vida”, que lhe parece ser o mesmo filme pelo avesso. Conhecendo bem, por experiência própria, os atalhos do campo que medeia entre a arte (historicamente europeia) e o entretenimento (invenção americana), embarca autoconsciente no que há de entretenimento em “Melancholia”, sem se abalar, ao que parece, com os efeitos apocalípticos do filme, movidos a subwoofers tipicamente hollywoodianos (aqueles sons mais que graves, que vêm de baixo, vibrando nos ossos, e que servem no cinema para dar a ideia da presença de forças colossais).

Fazendo assim, isto é, apontando truques hollywoodianos no famigerado cineasta transgressor escandinavo e relativizando a sua ambição totalizante, livra-se de sofrer os efeitos do filme em bloco, podendo apreciar as situações da trama que lhe interessam — a atriz sexy, o problema do casamento, os podres devassados da burguesia, a trepada, o vestido da noiva, a limousine na estrada de terra, a criança e o anúncio da tragédia — mais em escala interpessoal do que em escala global e alegórica. Não deixa de ser uma estratégia, praticamente declarada ao final do artigo, para neutralizar a melancolia espasmódica dada em espetáculo, com suas cólicas catastrofistas.

Eu me interesso por essa visão multifocal das coisas, que Caetano pratica hoje em dia sem maiores cerimônias e sem pruridos didáticos. Ela é um dissolvente, funcione assim ou não, dos estereótipos monofocais que pulam e pululam por toda parte. Nos seus comentários ele exibe o modo como ao mesmo tempo gosta e não gosta do filme de Lars von Trier, colocando-se, no entanto, não em cima do muro, mas acima de certos muros mentais.

No final das contas, nos convida de novo a ver os vídeos de Mangabeira Unger (eu também ainda não vi ) . Mangabeira representa, para Caetano, a posição assertiva de quem contrapõe à paralisia crítica e aos lampejos revolucionários de certa esquerda, por um lado, e às ameaças apocalípticas, confusamente objetivas e subjetivas, que nos assombram, por outro, um rol de propostas práticas, não por acaso pouco audíveis em meio ao turbilhão entrópico. Acho que Caetano migrou desde algum tempo, a seu modo, para uma ênfase na afirmação política, mesmo que heterodoxa, mais do que na sublimação estética. Isso marca a sua diferença em relação à tônica do artigo de Francisco Bosco, ao mesmo tempo em que se liga com a tendência à poética mais crua e direta de suas últimas canções.

Voltando à melancolia. Só os muito insensíveis são capazes de viver este tempo sem sofrer os efeitos mutantes da mais antiga das doenças da alma. Esses efeitos são desde muito tempo conhecidos como ambivalentes, como Francisco Bosco mostrou. Enraízam-se na impossibilidade estrutural do desejo, de atingir plenamente os seus objetos, e realimentamse das ansiedades e ameaças contemporâneas, multiplicadas em todas as escalas. São despistados pela oferta universal das mercadorias. Mas a melancolia mesma só tem uma saída: mergulhar fundo nela, até conhecer a forma mais total do desapego, a de quem abre mão de tudo. Aí então, sem se deixar levar por ela, voltar a ter pela vida um apego de verdade, desses de que não se abre mão.

Comentários

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  1. Ana Barros 28 de agosto de 2011 12:11

    Desapegar-se de tudo inclui também a vida. Esta, no desapego de tudo, passa a ser uma espécie de impessoalidade, de comunhão plena com o cosmos, de comunhão com todas as formas e não formas de vida. É um conhecer o obscuro e depois de tanto tempo e melacncolia adentrar no mais claro existencial das metáforas e aí captar o grande delírio do estar no mundo, nada mais nada menos do que passar sobre uma ponte numa linda manhã de sol.

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