Melanomania

MELANOMANIA chegou. Ontem fiz a primeira leitura e hoje, a segunda. Só há cinco poemas no zine, o que por um lado é bom porque podemos ler mais vezes e experimentar as diferentes cadências que os versos livres podem proporcionar. Por outro lado, penso que o dito “nem tanto, nem tão pouco” cabe aqui: desejaria ler mais da produção de Jefferson Turíbio.

Conheci o poeta através da Ana Paula Campos. Não lembro seu eu solicitei amizade ou se foi ele, mas passamos a curtir e comentar os posts um do outro. Chamou minha atenção o jeito modesto como divulgava seu trabalho, procurando informar o leitor de que era um iniciante. A atitude sempre cria em mim a expectativa de estar diante de um desses talentos que chegam devagarzinho sem fazer alarde e marcam o leitor de maneira inequívoca. Duas outras pessoas me chamam atenção nesse sentido aqui no RN: Lili Pacheco e Raul Pacheco (não são parentes como o sobrenome faz supor).

Outra coisa que chama atenção é o quanto Jefferson é reverente com os que já trilham a vereda da poesia há mais tempo, como Marize Castro e Carmem Vasconcelos. Gosto disso em um artista. Mostra que tem boas referências.

Nos últimos posts do Facebook, o poeta mostrou o cotidiano da sua primeira publicação e foi bacana acompanhar o percurso que ele fez com a ajuda dos amigos, na produção, impressão, divulgação e venda do trabalho. Poucos sabem o quanto é difícil a auto publicação quando se tem poucos recursos para enfrentar a empreitada, então foi instrutivo acompanhá-lo nessa jornada.

O título, junção dos vocábulos melanoma e mania me fez pensar em algo como um amor sofrido e dependente. Algo intenso, erótico, à flor da pele. Há traço disso nas expressões do eu-lírico, mas ele próprio explicou que se refere a um antigo pseudônimo com o qual começou a escrever e que se tornou uma espécie de memorial do seu nascimento artístico.  

O poema Mania contém o verso de que mais gostei:

A cada vez que toco
O pescoço tentando
Saber se estou quente
Um turbilhão de anseios
Fazem de mim um poço
Fundo de nãos-eus

Também gostei muito de transa:

Fiz o exercício de trocar as coisas de lugar.
Comecei pelas palavras…

Jefferson Turibio é poeta e graduando em letras.

Há um probleminha, que vou apontar porque desejo muito que o Jefferson continue a tamborilar sua arte que tem a originalidade e a ousadia dos que não temem observações. A repetição de palavras no poema não contribui com a estética. Elas poderiam ser trocadas por sinônimos ou simplesmente omitidas sem prejuízo do sentido: lugar, lugar, café, café, café. Porque o termo na poesia tem valor individual e esse valor é ainda maior do que na prosa. A prosa é o conjunto, enquanto o poema é o vocábulo que salta aos olhos e atinge o leitor, como a água refrescante de uma cachoeira. Então é preciso buscar entre as muitas palavras, aquela que traga a força que o poema necessita. E TRANSA merece esse refinamento.

Jefferson me informou algo precioso: que essa publicação é o resultado de muita reescrita, de retrabalho, de modificações de uma primeira inspiração. Temos um poeta consciente do que Clarice afirma em “A hora da Estrela”: Não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espelhados…

Deus salve os poetas! São tão fiéis às suas verdades íntimas! Jamais seremos tão sinceros com nossas emoções. Então precisamos dos que têm coragem de evocar as ideias inconscientes das quais fugimos e que nos encontram em momentos de leitura. A alma agradece.

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