O melhor dos mundos possíveis

Por Juan Pablo Villalobos
BLOG DA COMPANHIA

A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

1. Na sexta-feira passada, eu estava no melhor dos mundos possíveis: tinha dedicado a semana a ler, escrever e a rabiscar ideias e frases soltas para meu novo livro. No final da tarde, fui caminhando até uma livraria para comprar uma nova edição de um dos meus livros favoritos, Cândido, ou o otimismo, de Voltaire. Tinha prometido escrever sobre esse livro para este blog e meu plano era levá-lo comigo para a praia, onde eu passaria o fim de semana com a família e uns amigos.

2. O melhor dos mundos possíveis continuou no sábado: passei o dia na praia e na piscina, lendo devagarinho oCândido. Eu devo ter lido esse livro pela primeira vez há pelo menos uns 25 anos, em algum momento entre os meus 15 e 17, e voltei a lê-lo duas ou três vezes nestes anos. De novo, como em cada releitura, as aventuras de Cândido, nas quais Voltaire reflete sobre os temas mais caros aos filósofos do Século das Luzes – religião, fanatismo, liberdade, opressão, obscurantismo, felicidade, infortúnio –, me encantaram.

3. Cândido é um jovem “reto de juízo e simples de espírito” que mora no castelo de um barão na Vestfália. Apaixonado pela filha dos barões, chamada Cunegundes, de dezessete anos, “corada, fresca, rechonchuda, apetitosa”, tem um preceptor, Pangloss, que ensina “metafísico-teólogo-cosmolonigologia” e acha que “este é o melhor dos mundos possíveis” e que “as coisas não podem ser de outra maneira”. Pangloss é um otimista que afirma o tempo todo que tudo está bem, que tudo está da melhor maneira possível e que não poderia ser de outra maneira. No decorrer do livro, Cândido, depois de ser expulso do castelo e sofrer inúmeras desgraças, irá conhecer o pessimismo e terminar acreditando que o otimismo é a mania de garantir que tudo está bem quando tudo está errado.

4. Acordei o domingo no melhor dos mundos possíveis e o projeto para o dia era ler mais Cândidona praia e na piscina. Porém, apareceu uma trinca no melhor dos mundos possíveis: notícias do México. Li a reportagem no celular, na beira do mar. O jornalista Rubén Espinosa, que tinha fugido de Veracruz ameaçado de morte, acabava de ser assassinado na Cidade do México. O corpo dele e de quatro mulheres foram encontrados com sinais de tortura e tiro de misericórdia num endereço da Colonia Narvarte.

5. Pensei, com raiva e tristeza, na descoberta de Cândido dos horrores do mundo – assassinatos, estupros, o terremoto de Lisboa, que inspirou Voltaire a escrever o Cândido– e na decepção que o leva a repudiar os ensinamentos do seu preceptor: “Ó Pangloss. Não tinhas imaginado esta abominação; não há remédio, acabo renegando o teu otimismo”.

6. Uma das mulheres assassinadas era uma amiga do Rubén, Nadia Vera, 32 anos, ativista que defendia a liberdade de expressão, antropóloga formada na Universidade Veracruzana, na mesma Faculdade de Humanas onde eu estudei Letras Espanholas. Fui procurá-la no Facebook: tínhamos dois amigos em comum.

7. Continuei a ler o Cândido durante o domingo, mas tudo tinha mudado: eu voltei a ser aquele leitor adolescente ansioso que exigia dos livros uma resposta ou, pelo menos, uma esperança. Também, de certo modo, me sentia culpado pela frivolidade da minha vidinha cheia de livros enquanto o meu país afunda.

8. Voltaire escreveu contra o otimismo porque queria atacar as ideias de Leibniz, que ele achava simplórias, mas também não se identificava com o pessimismo porque ele leva à inação. Uma das contribuições mais importantes do Iluminismo foi, justamente, a proposta de que temos que procurar a felicidade neste mundo e não, como propunha a religião, no além. O mundo, diz Voltaire noCândido, é horrível e o único lugar perfeito é o Eldorado, uma região tão rica e maravilhosa que se torna inacreditável. Não devemos procurar o Eldorado. O Eldorado não existe.

9. Ou, para ser exato, o Eldorado só existe como manipulação: é aquele lugar perfeito que só existe na mente dos governos corruptos e assassinos que falam que tudo está maravilhosamente bem quando está terrivelmente errado.

10. Entre o otimismo e o pessimismo, oCândidopropõe a ação modesta do trabalho pessoal e comunitário, resumido na frase final do livro, que já virou um lema famoso: “devemos cultivar nosso jardim”.

Devemos cultivar nosso jardim.

Cada um na sua própria trincheira.

Os livros e a escrita são também uma trincheira.

Não devemos nos render.

Descansem em paz Rubén, Nadia, Yesenia, Alejandra e Nicole.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil e Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.

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