A memória desconstruída?

Foto: Rodrigo Dantas

Por Lívio Oliveira

Assustei-me quando me deparei com as ruínas, nada além de montes de entulhos e poeira, ocupando o terreno onde ficava o belo casarão que eu contemplava todas as vezes que passava naquele cruzamento, naquele encontro de ruas, hoje bem mais pobres. Foi como uma morte, uma espécie de morte da memória, uma morte da esperança e da permanência do sonho. Um apagar e um despertar diante da desconfortável visão da perda. Perda minha, individual, e perda coletiva, de toda a cidade que tanto se ressente de não ter o seu patrimônio arquitetônico e histórico respeitado e preservado.

Parece que tudo vai alimentando as bocas enormes das caçambas de entulhos que se multiplicam nos quadriláteros da província, ocupando espaços outrora destinados às pessoas, à passagem dos veículos, da vida que deveria ser pulsante, corrente e harmônica, mas que se depara quase sempre com a paralisia das vontades de autoridades ou com a sofreguidão de particulares alimentando seus bolsos com o lixo em que transformam nossa história.

Depois, quando cheguei em casa e liguei o computador, foi que vi as fotos do acontecimento, reproduções da tragédia, quadro a quadro, destacando-se a máquina gigantesca e destruidora, com sua mão de ferro poderosa arrancando o rosto já triste do casarão, seus olhos, portas e janelas, suas telhas, cabelos e dentes, seus batentes, paredes ao chão, ao pó, como um corpo tombando para o nada, para o esquecimento e desonra, humilhante fim para o lugar que abrigou gentes e vozes e gestos: a vida havia sido violada com a queda do casarão. O silêncio se instalara. Os ruídos e barulhos vis vieram antes. Virão depois.

Foi-se num sábado. E foi num domingo em que mais me entristeci. O que colocar no lugar? Como tapar aquele buraco aberto no peito da cidade, que vinha de mais umas e outras perdas incalculáveis? Quantos buracos ainda serão abertos no coração que sangra sem parar? O que ainda arrancarão diante dos nossos olhos perplexos e impotentes? Em que farmácia, das muitas farmácias já existentes na cidade, encontraremos remédios que amenizem a dor e que façam cicatrizar a ferida? Farmácias não curam mesmo esse tipo de mal. Fazer o quê? Nada. Chorar, talvez. Ou pedir que nos ouçam. E parem.

São as casas derrubadas, são as árvores caídas e seus pássaros desabrigados, são as memórias desgastadas, são os ideais perdidos, patrimônios materiais e imateriais abandonados, são os restos que se amontoam e se empilham e que nos fazem perguntar sobre a necessidade de tanta sofreguidão, tanta correria para não se chegar a lugar nenhum. A velha pergunta se repete mais uma vez: onde vamos parar? Onde vamos parar, meu Deus? Em que vilipendiado ponto largaremos nossos restos identitários?

Pobres de nós, os desamparados no meio das especulativas selva e guerra capitalistas, que não entendemos porque todos os dias nos roubam a herança cultural, nossos valores e princípios, ícones e símbolos, a nossa compreensão acerca dos componentes humanos da beleza artística e do engenho criativo e utópico, isso que se esfarela em poucos instantes, após tanto labor ter sido dedicado para que se erguesse.

Proponho, em face de tal realidade, que seja levantada uma estátua colossal aos “deuses” capitalistas que já tomaram conta da cidade, e que se dance sobre os cadáveres da nossa cultura, que sejam distribuídos os fármacos da ignorância eterna e que se comemore sobre os escombros da cidade que almejávamos ter. Ou, então, que urgentemente descubramos um novo sentido para empregarmos ao real e iniciemos a reconstrução do sonho, antes que tudo venha ao chão da memória, em pó e perda.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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