Memória, esquerda, direita

Caros amigos:

Noutras ocasiões, expressei minha admiração pela Poesia de Ferreira Gullar e restrições às crônicas que atualmente ele publica na FSP. Entendo que esse autor conseguiu muito bons resultados na linguagem poética (síntese, metáforas) mas tem graves dificuldades na prosa analítica, resvalando facilmente para chavões ideológicos deploráveis e até silenciando sua responsabilidade em relação a temas que, hoje, combate.

Essas deficiências se manifestam intensamente na crônica “Esquerda, volver”, reproduzida neste SP.

O título é claro slogan contra o que um dia se denominou esquerda: seus lemas e propostas se esvaziaram ou se banalizaram, de acordo com Gullar. No decorrer do texto, discretamente, alguns lemas e propostas de direita também parecem sem sentido – o que o título não registra minimamente em algum “”Esquerda/Direita, volver”. Além disso, Gullar fala como se não tivesse tido qualquer vínculo com esquerda num tempo (primeira metade dos anos 60 do século passado) em que Trostski já estava morto, assassinado pelo Stalinismo, os processos de Moscou tinham sofrido denúncias e até Kruchev fizera seu clássico relato contra o Stalinismo – depois que Stálin tinha morrido… Isso para não falar em Kronstadt e Makhno, do começo da URSS, e das peripécias soviéticas na Espanha revolucionária.

Tenho a impressão de que Gullar poderia falar – mas não fala – sobre a falência de um mundo dicotomizado em direita e esquerda, sobre a necessidade de pensar em maior profundidade sobre poderes e direitos, a privatização de políticas públicas contra os interesses da maioria. Não adianta chover no molhado – denúncias sobre Irã e Venezuela que são unanimidade. O outrora bom poeta se mantém num universo de senso comum constrangedor. De quebra, erros primários de informação: nem todas as esquerdas do planeta defenderam ditadura do proletariado. E exercícios silogísticos que chegam a assustar pela banalidade: de Chávez passa para Bolsa Família, de Bolsa Família para governo Lula, de governo Lula para falência de esquerdas… Sobra o olhar soberano de Gullar, confiante nos cientistas políticos e tão acima da Esquerda…

Na discussão sobre Direita/Esquerda, sinto falta de critérios: Esses polos não satisfazem mais por quais motivos? O que colocaremos em seu lugar? Quais distribuições de poderes defenderemos, a partir de agora?

Uma vez que proletários e burgueses não são angelicais portadores do Bem nem demoníacos mensageiros do Mal, falaremos em poderes de quais formas? Afinal, defender direitos para a maioria, contra a apropriação privada do espaço e do dinheiro públicos, é mais que direita/esquerda, é retomada ou até invenção de critérios éticos na Política – difíceis, eu sei.

No final de contas, o título de Gullar reforça a noção de que o problema é a Esquerda. Apóia, portanto, a tal Direita. Reafirma, sofisticamente, a existência de Esquerda/Direita, assumindo disfarçadamente a última.
Enquanto houver Ideologia não pode haver Poesia. Nem Prosa decente. Quem leu Marx um dia – mesmo que ao som de Cazuza – deveria saber disso.

Gullar não sabe. Ou faz de conta que não sabe.

Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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