[ESPECIAL] Memória e oralidade no romanceiro de Dona Militana – 2ª Parte

Fotografias: Lenilton Lima

Não basta compreender o fenômeno de Dona Militana como um processo de herança hierárquica, da supremacia de uma cultura sobre a outra, em função de uma lógica da continuidade, mas é fundamental compreendê-la sob a ótica de um devir descontínuo e fragmentário.

Sob esta ótica, a memória dos romanceiros de Dona Militana seria o resultado de um devir da memória não podendo ser interpretada sob a ótica da influência ou da herança cultural, típicos de um discurso dominante, mas como uma forma de resistência dos desejos coletivos. O que move essa memória é um componente transformacional, sujeito a combinações intensas e constantes, emergindo muitas vezes como uma forma singular e inapreensível.

Nesse sentido os príncipes e princesas do romanceiro figuram como objetos de um desejo coletivo, que resulta em uma “bricolagem” cultural e não em um cruzamento de culturas, como retas que se encontram. Daí não se poder fazer diferença entre a moralidade principesca e a do homem rústico sertanejo para quem a palavra, a honra, a moral têm igualmente valores simbólicos e heróicos.

Se há aqui um encontro é o encontro de outros (outrem) diversos e múltiplos, salientando-se mais uma aliança por diferença que por parentesco. As peças dessa máquina-memória se fundem e se confundem em função de significados completamente diversos daqueles do contexto do outro. Isso porque a memória é nômade por excelência, pois não possui referências físicas fixas, assumindo significados conforme múltiplas formas de relacionamento.

Leia a primeira parte do especial sobre Dona Militana

A lógica que rege a apropriação dos conteúdos culturais da memória não é de ordem política (da polis), com sua estrutura definida e definitiva, com agentes, objetos e ações pré-estabelecidos, como é o caso daquela memória defendida pela performance paterna – folclorizada pela cultura dominante –, mas, no caso de Dona Militana, domina uma certa imprecisão de espaço, posto que jamais atinge uma codificação plena. Daí o fato de não se fazer diferença entre as sagas principescas e de cangaço, os contos moralizantes e as apologias anti-heróicas de seus personagens picarescos, todos compondo uma supramemória espiralada, admitida pelo seu grupo social em função de um desejo de resistência e autonomia.

É assim uma memória que não obedece “aos modos de subjetivação subordinados ao regime identitário e ao modelo da representação”, típico da lógica dominante. Em suma, o que de fato se dá com a memória do romanceiro de Dona Militana é uma apropriação do saber do outro, como um ritual antropofágico de dominação do dominante, funcionando desta feita como um discurso de resistência cultural. O resultado é a construção de uma subjetividade heterogênea e híbrida em tudo diversa das imagens a priori próprias dos regimes identitários do establishment.

“[…] poemas eram declamados e decorados ou lidos em folhetos de cordel por alguns poucos letrados para um público ouvinte analfabeto ou semi-alfabetizado, de modo que a escrita era tão presente quanto ausente, muitas das vezes representando um certo prestígio social.”.

Oralidade e escrita: momentos de tensão

Em seu livro “Introdução à poesia oral”, Paul Zunthor elege quatro formas ideais de a oralidade se relacionar com escrita: a oralidade primária e imediata ou pura, sem qualquer contato com a escrita; a oralidade mista, cuja influência da escrita é ainda exterior e paralela à oralidade, como o caso de grupos sociais analfabetos; a oralidade segunda, “que se (re)compõe a partir da escrita e no interior de um meio em que esta predomina sobre os valores da voz na prática e no imaginário”, e finalmente uma oralidade mediatizada, comum às sociedades profundamente tecnológicas.

Apesar de ser uma divisão didática e aparentemente mecânica ela nos favorece algumas apreciações acerca do romanceiro de D. Militana. É fato que a oralidade primária é excessivamente ideal, uma vez que mesmo em sociedades consideradas primitivas ela seria uma hipótese em função de que sua conceituação dependeria em princípio de concepções bastante rígidas quanto ao conceito de escrita.

Todavia, se não nos detivermos numa separação mecanicista dessa tipologia, poderemos supor que o contexto cultural de Dona Militana transita entre a oralidade segunda e a oralidade mista sem se fixar em nenhuma delas. Isso porque o seu meio social é formado por uma comunidade semi-alfabetizada, principalmente se considerarmos que a cidade de São Gonçalo, a mais de meio século atrás, era uma sociedade rural, com índices de analfabetismos relativamente altos. 

Naquele contexto, esses poemas eram declamados e decorados ou lidos em folhetos de cordel por alguns poucos letrados para um público ouvinte analfabeto ou semi-alfabetizado, de modo que a escrita se fazia tão presente quanto ausente, muitas das vezes representando um certo prestígio social.

Reside aí uma espécie de tensão entre oralidade e escrita semelhante ao que tange aos papéis sociais masculinos e femininos. A relação é problemática porque estão em conflito universos sociais diversos, mas que habitam os mesmos espaços.

O mundo mágico da memória

Segundo Zunthor, na lógica da oralidade o ser humano vive diretamente ligado aos ciclos naturais, interioriza, sem conceituá-la, sua experiência histórica; ele concebe o tempo segundo esquemas circulares, e o espaço (…) como a dimensão de um nomadismo; as norma coletivas regem imperiosamente os seus comportamentos. Em compensação, o uso da escrita implica uma disjunção entre o pensamento e a ação, um nominalismo natural ligado ao enfraquecimento da linguagem como tal, a predominância de uma concepção linear do tempo e cumulativa do espaço, o individualismo, o racionalismo, a burocracia…

Esses dois universos se interpenetram e muitas vezes colidem. Isso porque, se dominar a palavra escrita seria ter acesso a uma espécie de mundo mágico, um código secreto dotado de poderes incomuns àquela sociedade, uma das formas de acesso a esse universo poderia ser, contraditoriamente, o exercício da memória. Isso representa uma contradição em função de que a memória é a faculdade capital da oralidade e aproximar-se da escrita pelo exercício mnemônico significa pôr-se no limiar entre a oralidade mista e a segunda, transitando de uma a outra, ao adaptar à fala marcas da escritura ao mesmo tempo em que perpassam, na escrita, marcas da oralidade. Essa tensão se flagra claramente na fala de Dona Militana abaixo, que relata de quando fora chamada a Natal unicamente para dizer um romance a uma tia alfabetizada:

Era tia Petronila, a mais velha irmã de papai, era só quem sabia ler. Ela lia toda qualidade de folheto. Um dia, mandaram me chamar em Natal, só pra mode eu cantar o verso de Antonino, óia? Perguntaram: A senhora sabe o verso de Antonino? Eu digo: vocês sabem ler? Então pega um folheto, pra ler no folheto. E eu que venha cantar verso pra vocês?

Ao mesmo tempo a cantadeira se recente de não dominar a escrita, consciente de que ela lhe ofereceria outra forma de vida e outras oportunidades:

Aí veio um homem muito grosso e perguntou: a senhora sabe ler? Eu disse: num sei não. O meu livro era a terra, a enxada era… o meu caderno era a terra, o cabo da enxada era o lápis e o ferro de cova era a pena. Aí ele perguntou: a senhora não saber ler não? sei não senhor, num tive esse tempo. Acordava logo cedo e só ia dormir depois da meia-noite, só trabalhando. Talvez eu fosse outra. Saí de casa com 20 anos. E diz aí o que quando eu me casei com 20 anos, o que foi que levei de casa? Meu vestido, uma rede emendada e um pedaço de pano remendado que me cobria com ele. Trabalhava direto lá. A mão era aquela carreira de calo… Se soubesse ler… já disse muito isso na vida!

Esse conflito tem em verdade motivos mais profundos e mais fecundos a nossa investigação do que o simples fato do ressentimento de alguém que lamenta não ter sido alfabetizada. Em verdade, reside aí uma tensão que reflete as mudanças sociais por que passaram essas comunidades rurais ao longo do século XX. A sociedade se modernizou e impôs a esses grupos sociais, cujo pensamento era permeado pelo domínio da oralidade, a urgência da escrita. Todavia, essa imposição não se dá de forma pacífica uma vez que não se lhes impõe apenas um instrumento de comunicação, pois com ele transmite-se também uma mitologia, uma lógica, uma forma de pensamento e de ação moral em tudo diverso do pensamento e da moral das sociedades de oralidade primária.

Vijay Sharma Photography

Época de individualidade

Em geral, na cultura oral, a representação do mundo está associada aos ciclos naturais e a uma organização harmônica e íntegra em que todos os elementos sociais se inter-relacionam e funcionam como uma engrenagem. No centro dessa organização residem os valores religiosos que determinam a ação comum e a que se recorre ante qualquer fato que provoque uma desordem no sistema interno. As catástrofes, as doenças, os crimes são motivos de desequilíbrio cuja restauração depende da interferência divina ou sobrenatural. Nessas ocasiões, alguns atores, detentores da palavra, atuam como instrumentos de mediação para a restauração da ordem: sacerdotes, benzedeiras, rezadeiras, milagreiros, são personagens comuns portadores de autoridade diante da comunidade.

Ao se fazer a transposição do universo oral para o universo escrito, o caderno vira a terra, e a enxada o lápis. Todavia, bem poderia a terra ser o livro uma vez que ela é a portadora dos segredos da natureza a que se pode recorrer em busca de respostas às angústias da vida. É importante frisar que essa concepção da terra como um livro ou um caderno, denuncia a presença da metáfora como a modalidade diretiva dessa forma de pensamento. O que reza a metáfora nessa estrutura mental é a relação de identidade seja entre o homem e a natureza, o divino e o humano, ou mesmo um e outro homem, posto que tudo “é” outra coisa, pois todos estão unidos pela semelhança.

Na cultura escrita, a representação do mundo substitui a lógica circular relativa à natureza pela linearidade hierárquica do tempo. A ciência e a jurisprudência determinam a verdade e a moral. A autoridade não se concentra mais sobre o portador da voz, aquele que conduz a palavra sagrada, mas sobre o portador do “documento” escrito que lhe confira esse poder. Como nos diz Paul Zunthor, é uma época de individualidade, quando não individualismos, por isso não há, nesse universo, semelhanças, mas diferenças, uma vez que quem não for sujeito e senhor das ações será objeto.

Pode-se compreender assim as palavras de Dona Militana quanto ao seu desejo de possuir o poder da escrita como a representação de um momento de tensão, quando as águas de dois mundos se encontram e se misturam sem necessariamente se conciliarem. O resultado desse processo é que as manifestações culturais são complexas e fragmentárias prenhes de ambigüidades.

Professor, poeta e contador de histórias [ Ver todos os artigos ]

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