Memória para uso diário: Dia da Visibilidade Trans

Em 2012 participei do IX Encontro Nacional Sobre Diversidade Sexual, na Universidade Federal da Bahia. O tema do evento era: “Raça e Religiosidade: Abrangendo as Fronteiras da Diversidade Sexual.” Foi nessa época que li o artigo ‘Ser Queer ‘, publicado na revista Bagoas, da UFRN, da bicha, poeta e filosofa(o) anarquista estadunidense Paul Goodman. Um das ideias geniais trabalhadas pela poeta neste artigo é a ideia de ‘Malícia’. Goodman diz que um NIGGER nos Estados Unidos (termo fortemente pejorativo para designar: Nego, negão, crioulo ), para continuar moralmente vivo usa vários tipos de malícia.

Para o autor, a malícia é a vitalidade/poder dos sem-poder. Ancoro-me nas palavras do poeta para contextualizar a minha participação no IX ENUDES. Eu tinha vontade de viver o Dia 2 de Fevereiro – na Bahia, mas não tinha dinheiro. O IX ENUDES caiu como uma luva. O evento foi realizado de 1 a 5 de Fevereiro, na Bahia de Todos os Santos. Embora nova na UFRN eu era muito conhecida entre os militantes do movimento estudantil da universidade.

Em 2010 tinha ido ao Fórum Social Mundial, no Rio Grande do Sul e em 2011 a Bienal da Une, no Rio de Janeiro. Quando soube dessa viagem liguei para uma amiga que era directora do Directório Central dos Estudantes (DCE-UFRN), e perguntei se havia vagas no ónibus, pois queria participar do evento. Uma das prerrogativas para participar era está vinculada a algum movimento social. FEVEREIRO DE 2012 Consegui a vaga.

A nossa delegação era composta por 43 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e no máximo uns 7 heterossexuais. Contando com os motoristas. Neste evento nós – os heteros, éramos minoria. Nossa presença era a prova de que a delegação da UFRN era mesmo da diversidade. Até heterossexuais tinha. rss! Cinquenta humanos. Jovens sonhadores querendo um mundo melhor. A Festa de Iemanjá, na Barra do Rio Vermelho, foi apenas a cereja do bolo. As lições que aprendi marcaram-me pelo resto da vida. Tive a chance de passar 5 dias no Campus Ondina – Salvador, ouvindo e aprendendo sobre as lutas, as alegrias, as dores e o preconceito vivido por jovens estudantes de todo o Brasil. A inscrição para o evento custou a bagatela de 25 reais e ,claro, estava incluso alimentação e hospedagem no Campus.

Foi no IX ENUDES que tive a alegria de conhecer e ficar alojada na mesma sala que Leilane Assunção. Lembro que ao entrarmos no ónibus a Leilane propôs a seguinte brincadeira. Tínhamos que dizer o nome, o curso e se éramos activos, passivos ou self- service. A surpresa foi descobrirem que a nossa delegação tinha heteros. Nesta viagem aprendi todos os jargões do mundo gay e até a versão do “Abecedário da Xuxa”, cantada pelos homossexuais. Não nos faltava alegria e risos. O ónibus era uma sala de aula. Nele, debatíamos vários assuntos e compartilhávamos as nossas vidas e nossos sonhos. Leilane Assunção morreu em 2018. Ao saber de sua partida o meu relógio existêncial ficou remansado. Perdemos uma grande companheira de lutas!

No país que mais mata LGBT’s no mundo Leilane Assumção será sempre um símbolo de resistência. Ativista pela causa dos Direitos Humanos/LGBT, doutora em Ciências Sociais e uma das primeira trans a dar aulas em uma universidade pública.

A Leilane que lembro é daquela que no meio de uma viagem puxou um livro da algibeira e fez do ónibus – sala de aula. A Leilane que lembro é aquela que dormia e acordava na mesmas sala que eu. A Leilane que lembro é a Leilane vaidosa que se produzia connosco para irmos as culturais. A Leilane que lembro é uma mulher cheia de vida sambando no Pelourinho. A Leilane que lembro é aquela que viveu um das mais belas manifestações de fé – O dia 2 de Fevereiro na Bahia. A Leilane que lembro é aquela que me falou do João W. Nery, e que em uma das mesas que fomos juntas no ENUDES disse-me, que seu maior medo enquanto estudante trans era sair de casa para a universidade estudar, e não ter a certeza se voltaria viva. Esta foi uma das mais belas viagens académicas que fiz.

Aprendi no ENUDES a respeitar e compreender os meus amigos e suas escolhas. Aprendi que qualquer maneira de amor vale a pena. Passei a compreender que enquanto mulher -minoria a luta dos meus amigos é também a minha luta. Grata por todas as lições. Leilane Assunção, presente!

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