Memória sentimental e História

Caros amigos:

Morei na Rua dos Pajeús de 1955 a 1970 (foto da tradicional Feira do Alecrim). Pra mim, o nome dela nunca mudará. Mas é importante pensar sobre o que significam aquelas ruas com nomes de tribos para quem nunca morou lá.

Nossa Cidade do Natal padece de uma memória branca, ibérica e católica (ideologia BIC, símile brasileira da ianque ideologia WASP): parece que foi criada pelos portugueses a partir do nada. Até o nome da cidade deriva da ação colonizadora. Os indígenas são tratados por nós, quase sempre, como os colonizadores o fizeram: um punhado de coisas sem sentido, descartáveis quando for conveniente para quem domina.

Quando nossos maiores colocaram nomes de tribos naquelas ruas, fizeram um gesto digno e coerente com a modernidade dos anos 20/30: declararam que os índios são parte de nossa identidade, que somos um pouco índios também – como o reafirmávamos nas tribos de índios carnavalescas, dançando ou apenas apreciando.

Esses vereadores que querem mudar os nomes das ruas são assassinos da Memória. Eles desejam reafirmar uma História de salão: conhecidos da mesma classe social, ação entre amigos que exclui quem não faz parte da casta.

Reafirmar os nomes indígenas das ruas é saber que aquele bando de rapazes e moças nos bancos universitários, nas ruas e nos espaços de trabalho natalenses tem índios na pele e na alma desde sempre, como todos nós, mais velhos, temos. E tem/os preto e tem/os branco também.

Memória só branca perde as mil cores do arco-íris e de seu além.

Vamos lutar para que esses vereadores passem e a memória do que somos fique.

Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

ao topo