MEMÓRIA: Vida de repórter

Post publicado no antigo blog Diário do Tempo sobre meu périplo pelo Vale do Açu para cobrir os efeitos de uma das piores enchentes da história potiguar, em 2008. Dias difíceis recompensados quando a governadora Wilma levou a edição de O Poti, com a manchete e um tremendo registro de uma vaca boiando, por Joana Lima, para o presidente Lula ver. Wilma queria grana para socorrer a região. O DN tem o registro do presidente com o jornal à mesa, junto à então governadora. E a grana veio! Mas vida de repórter não é fácil, embora o texto seja leve rs. Vejam aí!

Vida de repórter
Mais do que uma opção profissional, ser repórter é uma opção de vida. Falta tempo para quase todo o resto: família, amigos e até leituras. Claro, não existe atividade melhor para quem é inconformado com o cotidiano dos escritórios ou com a realidade do mundo. Mas o preço para viver intensamente essa rotina sem rotina é alto e, principalmente, mal pago.

Conto aqui meu périplo na cobertura dos estragos causados pela chuva nos último dois dias, sobretudo no Vale do Assu. É um pouco o retrato da profissão.

Enquanto arriscava-me na selva da cozinha do meu apartamento, no preparo de um macarrão mal encarado, eis que vem O Chamado: “O carro da reportagem está passando aí em 15 minutos para você ir a Assu. A barragem Armando Ribeiro sangrou”.

Aconselharam-me a encarar a coisa pelo lado bom. De certo o digníssimo chefe de reportagem quis me salvar do macarrão vingativo e de uma futura infecção intestinal. E lá estava eu na estrada. Duas horas e meia após, estava com os joelhos n’água para entrevistar os entusiasmados com a sangria da Barragem.

MATERIA SOBRE O RIO GOLANDIM Mico atolado Foto de Fabio Cortez-02/05/06Um dos agricultores da região me contou que a situação de Ipanguaçu – município próximo – estava feia, decorrente do transbordo do Rio Pataxó. Sem pensar em voltar para casa no horário previsto, lá fui eu arrumar sarna para coçar-me. Mas o pior estava por vir.

Após visitar comunidades ilhadas e colher os dados para a matéria, procurei a única lan house do município para enviar os textos e fotos. Chego em casa perto das 0h. De volta à redação no dia seguinte, o segundo chamado: “Amanhã, às 8h, você volta para Ipanguaçu para verificar a situação”.

Era uma quinta-feira. Quando das 11h, e após cobrir já alguns desastres fora da pauta em Lajes… “A coisa aí pelo interior do estado está muito feia e estamos estudando aqui o caso de vocês dormirem aí para visitar outros municípios”.

Olhei para minha roupa como quem olha para um companheiro de quarto. Seria ela e meu bloquinho de papel os companheiros de horas intermináveis. Tive também uma lembrança saudosa da minha escova de dentes e meu desodorante. Fechei os olhos e fiquei a imaginar o filme que assistiria com minha namorada na tarde daquele dia.

Cheguei em Assu (a 220 km de Natal) umas 12 horas. A fome cavou um buraco negro no espaço sideral da minha barriga e o prefeito de Assu nem desconfiava. Levou-me a TODOS os pontos de enchente, bem distantes uns dos outros.

Foto: Canindé Soares
Foto: Canindé Soares

Quando eu já pensava em pescar algum peixe numa enxurrada qualquer, como urso atrás de salmão, o prefeito resolveu descansar. Na espera pelo almoço, senti que comeria até o braço da garçonete se demorasse mais dois minutos. Comecei a ter alucinações. Senti-me o próprio leão do filme Madagascar.

Sem possibilidades para aprofundar a situação de Assu, parti para Ipanguaçu. A coisa tava pior e apressei-me em colher todos os dados e escrever a matéria a tempo do fechamento da edição, na mesma lan house de dias atrás. Foram sete matérias escritas até procurar uma pousada na cidade e um brechó para trocar pelo menos o “fraldão”.

A pousada, na verdade, era uma casa malamanhada. Pior que bordel de beira de estrada. Muito pior, diria. O que nos envolvia não eram os braços das amistosas raparigas, mas a enchente que avançava naquela noite. Durante a madrugada, até os bombeiros enviados em caráter de emergência e também hospedados na pousada, ligaram para o prefeito pedindo ajuda.

Às 6h, senti-me um robô enguiçado quando a água fria do chuveiro caiu sobre meu corpo congelado. Uma pasta emprestada e um bochecho caprichado. Metade do sabonete do banheiro foi gasto em seis sovacos sedentos: os meus e dos outros dois aventureiros da equipe de reportagem. Vestidas as mesmas roupas, partimos para o trabalho.

Fora da pousada, um cenário desolador. Bairros inteiros inundados. Após acompanhar o trabalho dos Bombeiros e a entrega das cestas básicas em um dos 30 abrigos, fui escrever, por volta das 9h. Quando estava próximo ao final, a energia na cidade caiu. Perdi tudo. Sem poder esperar, partimos para Apodi (mais uma hora de viagem). Na entrada da cidade, a surpresa: a ponte cedeu.

O cansaço já era enorme. Fechava os olhos e só via estrada e pastos enlameados. Meu cabelo, já grandinho, estava mais armado do que os membros da Farc. A textura era de um arame, e com formado de aranha em posição de ataque.

Tive a péssima idéia de ir até Umarizal (mais uma hora de viagem), município também castigado pelas chuvas. Um maracatu atômico de lá, que de certo leu as matérias do dia anterior, gritou: “É o repórter das águas!”. Respondi baixinho, envergonhado após o único banho às 6h: “Só se for da falta dágua”. Eram umas 16h. Após digitar os textos e alcançar as 18h, a vez das fotos. A internet lenta demorava 10 minutos para anexar cada arquivo. Demoraríamos mais de duas horas para enviar todas.

Voltamos para Ipanguaçu e a já conhecida lan house, mais rápida, para enviar tudo. Mas, a cidade estava sem energia desde as 9h. Mais uma vez em Assu. E se fosse pouco estar dois dias com a mesma roupa, com fome, sujo e cansado e umas 2h30 distante de casa, a velocidade da internet era mais lenta que a de Umarizal. Enviamos menos fotos. A edição saiu prejudicada.

Partimos de Assu perto das 21h. No posto para abastecer, próximo ao município de Riachuelo, o frentista justificou a demora dizendo que estava lendo o DN e preocupado com os “horrores” em Ipanguaçu. Senti-me um Alfred Hitchcock do jornalismo. Depois o digníssimo, ao reconhecer o carro da reportagem, ressaltou que tinha família em Ipanguaçu. Daí o medo. Menos mal.

Cheguei por volta das 23h30. Sem forças para o cinema ou a cerveja. E apenas com uma sensação e a lembrança do velho conselho de encarar tudo pelo lado bom. E eu que pensei um dia ser igual ao Willian Bonner!

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Alex de Souza 21 de novembro de 2015 17:41

    também cobri essa enchente. foi osso.

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