Memorial do Morgado de Melquíades

Sinto-me feliz neste reencontro com minha memória de quase 40 anos de
magistério. Visito os escaninhos da memória para escrever esse memorial
que conta um pouco da minha trajetória como educador e fazedor de
cultura. Procuro transpor os muros da área acadêmica para falar um pouco
da minha atuação como escritor e bibliófilo com ampla atuação na vida
cultural da cidade em que vivo. Ao fazer isso deixo transbordar emoções
e experiências de uma trajetória intensamente compartilhada em 60 anos
de vida. Elaborando este memorial reconstruo uma existência de buscas e
aprendizados com os milhares de alunos por mim assistidos e orientados.
De uma vida acadêmica trilhada com profundidade nos seus três segmentos:
Ensino, Pesquisa e Extensão. Professor da UFRN desde 01 de Março de
1977, com mais de uma dezena de artigos científicos publicados em
revistas indexadas nacional e internacionalmente. Publiquei também
capítulos de livros e duas centenas de trabalhos de divulgação
científica e cultural. Trabalhei nas áreas de Geofísica, Astronomia,
História da Ciência, divulgação científica e cultura em geral. Filho de
pais pobres e semianalfabetos, me sinto um profissional realizado. Fui
um estudante que nunca repetiu um ano letivo, mesmo quando estive
gravemente enfermo na passagem do Ensino Médio para a Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A Universidade Pública, que
ajudamos a construir, é hoje uma das melhores do país. Sinto-me feliz
por ter participado ativamente de sua vida acadêmica, política e de
prestadora de serviços à comunidade que a financia. Neste memorial
apresento, sucintamente, a minha trajetória profissional como professor
da UFRN. Descrevo a opção pela Física e a minha atuação nas atividades
de ensino, pesquisa e extensão, incluindo a produção científica e
cultural em quase 40 anos de vida acadêmica. Também destaco minha
relação acadêmica com as várias áreas do saber na interação com vários
departamentos da UFRN e com a comunidade potiguar em geral.
Ao final, tenho a certeza do dever cumprido e do muito que ainda tenho a
ENSINAR E APRENDER. Minha biblioteca é parte da minha biografia e o meu
descanso é o pelejar. Filho primogênito de uma grande prole de seis
irmãos, cheguei à Cidade de Natal vindo de Caicó – RN com um ano de
idade. Meus pais eram comerciantes e desde os dez anos de idade
ajudava-os nas feiras livres da capital e do interior, uma grande escola
sobre a qual já escrevi alguns artigos. Fiz toda minha formação em
Escolas Públicas da Capital com exceção do Segundo ano primário quando
ganhei uma bolsa de estudo do Instituto Sagrada Família, situado no
Alecrim, bairro onde morei e recordei recentemente como participante do
Documentário “Cais do Sertão” dirigido por Paulo Laguardia. Após ter
sido desasnado pela professora do bairro e da família, Dona Xixi,
ingressei no segundo ano do ensino fundamental, no Instituto Sagrada
Família, próximo à vilinha onde morava. Estudei nesse colégio com uma
bolsa de estudos e depois estudei em escolas públicas de boa qualidade.
O restante do primário cursei no Instituto Padre Miguelinho, situado no
Alecrim, bairro querido onde morei por tantos anos. Morando no Bairro
das Quintas, num período de forte privação das liberdades politicas, fiz
o ginásio, após o admissão, no excelente Ginásio Industrial do Instituto
Padre Monte. Escola onde aprendi pequenos ofícios, tais como trabalhar
com ferro para fazer uma pequena cadeira, vasos de barro e blocos
tipográficos. Essa escola, situada no Bairro das Rocas, era longe da
minha casa e chegar a ela em dias de chuva era uma verdadeira epopeia.
Alagava tudo nas proximidades da escola e, muitas vezes, tinha que tirar
a farda para atravessar e depois vestir novamente todo molhado. A
Educação Física acontecia antes das 7 horas da manhã, horário em que
começavam as aulas das matérias obrigatórias. Minha querida mãe Dona
Santinha acordava de madrugada para fazer meu café no fogão à lenha. Já
no ginásio mostrei vocação para a área das ciências exatas. Após o
Ginásio, ingressei na Escola Técnica Federal onde fiz o Técnico em
Estradas. Excelente ensino, com boas aulas de física estudada nos livros
da Beatriz Alvarenga e foi uma motivação decisiva na escolha pelo
Bacharelado em Física, na UFRN. Cursei o Técnico no período entre 1970 –
1972, quando fiquei gravemente enfermo, com uma doença que só muito
tarde foi diagnosticada como Espondilite Anquilosante. Antes,
pensava-se, fosse febre reumática. Sobre esse período escrevi no Jornal
de Hoje. Na adolescência padeci de uma espécie de reumatismo que ataca
pessoas mais jovens. Foi difícil achar um diagnóstico. Suspeitaram de
febre reumática e, por isso, precisei ficar internado alguns dias no
Hospital São Lucas. Tirei amídalas, pois podia ser o transmissor do
possível vírus que me atacou. Assisti parte da copa de 70 no hospital.
Depois de tomar milhares de remédios e fazer todas as fisioterapias do
mundo, o diagnóstico ficou sendo “Espondilite Anquilosante”. Me
arrastava por todos os lugares onde precisava ir. Dormia nestes lugares
tomando radiações e muita Benzetacil. Ainda hoje sinto a dor. Tive que
tomar muitas injeções, muitas vezes no bumbum porque já não aguentava no
braço. Isto tudo numa das melhores fases da vida. Aquela quando
despertamos para os namoros compartilhados e quando todo o corpo
desabrocha para receber o amor. E a mulher que me aplicava injeções era
a mãe da minha primeira paquera. Ela morava na casa vizinha. Quantas
vezes a aguardei despontar na porta de casa para conversarmos. Quem iria
namorar um enfermo? Pensava eu! Que bobagem, a doença foi embora
definitivamente e o amor foi platonicamente vivido e curtido. O tempo
passou e como foi bom ter sentido aquele amor. Ela foi sempre a filha da
mulher que aplicava injeção. Após o diagnóstico correto do doutor
Geraldo Furtado, fiquei bom e com pouquíssimas sequelas. Inacreditável
para ele. Eu me transformei em paciente digno de constar nos anais da
medicina. Um paciente potiguar. Foi uma dura luta da qual sai ileso (in
A doença, a vizinha e a injeção na bunda). Apesar de todo esse suplício
nunca perdi um ano letivo.

 

 

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Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Damata Costa 1 de dezembro de 2014 20:58

    Obrigado queridas Rosário Oliveira e Maria Bacci. Namasté

  2. Maria AparecidaA. Bacci 1 de dezembro de 2014 17:48

    Parabéns pela sua jornada sei que na,não foi nada fácil,você não é um professor,está muito além disso é um mestre ,um educador, ministra aulas na UFRN, vai além abre um leque de conhecimento erudição bibliográfica poética,por outros meios de comunicação,além de ser uma maravilhoso poeta.Parabéns pela sua trajetória continue nos presenteando com sua sabedoria,por muito tempo.

  3. Rosário Oliveira 1 de dezembro de 2014 19:18

    Parabéns querido João pela publicação de parte de sua história! Percebe – se nela sua paixão por tudo que fez, faz e fará! Namastê!

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