[MEMÓRIAS AFETADAS] Save a prayer

E entre escrever ou não escrever esse texto vou honrar minha história, meu passado, e já estou escrevendo-o. Não fizemos tudo aquilo em vão, né? Na verdade, fizemos sim, em um grande vão livre – aquele do MASP é cafezinho pequeno. O vão livre das ruas e dos pensamentos. Falar em cafezinho, será que dá tempo de tomar um cafezinho e escrever esse texto antes do pintor chegar? Mas fizemos o quê mesmo? Fizemos os anos 80 assim como os anos 80 nos fizeram. Mas fizemos quem? Eu, meu irmão Mário Ivo, a galera do Chernobyl… E se você não sabe que o Chernobyl era um bar emblemático nos anos 80 é porque você não é de Natal ou não viveu nosso Baixo Leblon ali na Ponta do Morcego. Vivíamos de cabeça pra baixo na noite alta, vampiros na cidade do Sol. O Chernobyl foi durante muito tempo minha segunda casa.

Tudo isso porque, ao fazer meu almoço de hoje com cinema, resolvi escolher um filme divertido na Netflix para deixar meu almoço mais leve: BUMBLEBEE, de 2018. A sinopse diz assim: “Em 1987, para escapar dos Decepticons, Bumblebee se esconde na Terra. Mas, ao fazer amizade com uma adolescente, seus inimigos voltam a persegui-lo.”

Quando eu era boy, ficção científica e histórias em quadrinhos eram coisas mais naturais. Agora tenho que me esforçar para resgatar esse pertencimento, para, como eu disse, honrar meu passado – quando meu amigo Paulo Mamão, que eu gosto de chamar de Paul e hoje mora no Canadá, traduziu de uma música do Supertramp: “de agora em diante minha vida será uma eterna fantasia”. Pois pronto.

“Quando eu era boy, ficção científica e histórias em quadrinhos eram coisas mais naturais. Agora tenho que me esforçar para resgatar esse pertencimento”.

Já no início do filme toca The Smiths e a menina provavelmente protagonista, ou co-protagonista, escova os dentes no ritmo da música “Bigmouth Strikes Again” parando a escovação para fazer aquele clássico gestual da virada da bateria. E eu logo penso: anos 80 na veia! Logo depois entra Save a Prayer do Duran Duran e alguma coisa acontece no meu coração, e é quando cruzo a Ponta do Morcego e a Ladeira do Sol. Eu dou pausa no filme e me levanto para levar o prato para a pia. Mas fico parado, sem saber o que fazer. Então corro para o computador para dizer tudo isso que estou dizendo agora. Porque mexeu com Save a Prayer mexeu comigo!

Smiths e Duran Duran naturalmente se misturando na trilha sonora do filme. Nem sempre foi assim. As tribos se levavam a sério. O “metal farofa”, por exemplo, não tolerava os darks e vice-versa. Mas lá em casa, no “quarto azul”, rolava de tudo, na graça da mistura. No Chernobyl também.

Acho que vai dar tempo de rolar um cafezinho sim. Escrevi o texto mais rápido do que pensei, porque acho que o texto é isso mesmo. O pintor ainda demora um pouco para chegar e avaliar aqui o mofo no apartamento. Agora quanto aos outros mofos… O mofo deu! Como a gente gostava de dizer brincando. Por enquanto, o filme está ali na sala, suspenso, como se eu pudesse suspender o passado. Coisa de quem vive numa eterna fantasia mesmo.

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Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Juçara Albuquerque 25 de junho de 2021 9:34

    Seus textos são incríveis e tem uma leve e gostosa mania de nos transportar pelo tempo como se fosse uma ‘’máquina do tempo ‘’ . Sou sua amiga e fã das suas escritas …. Parabéns !!! Você é massa

  2. Paulo, ou Paul, The Mammas. 24 de junho de 2021 23:51

    Massa Charles. Tive a honra de compartilhar com você a « eterna fantasia », que foi eterna enquanto durou, mas aí vieram boletos e imposto de renda e acabei (acabamos?) vestindo outra fantasia. Enfim, são histórias para muitos carnavais, ao som de Duran Duran, The Smiths ou Alceu.
    Segura a coisa… que eu chego já, diz na flâmula. E a camisa perdida foi devolvida.

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