Memórias da Infância

memórias da infância

Lembro-me de um tempo onde ser criança não era diferente de fazer parte de um conto de fadas; um tempo onde as ruas ainda não tinham os postes iluminados com lâmpadas fluorescentes ou de mercúrio. Ouviam-se apenas os grilos à noite, o coaxar dos sapos ou a ópera das pererecas na noite.

As ruas eram sem asfalto… Lembro-me de um barro vermelho, onde, vez por outra, os jipes – que eram os carros mais comuns da minha época – atolavam. Eles eram quase tratores e mesmo assim perdiam-se, atolavam naquele barro. Isso fazia o evento do dia. A meninada anunciava um ao outro o acontecimento e todos saíam para assistir, o que, para nós, era uma festa; para os adultos um sofrimento. A meninada torcia para que o carro atolasse, faziam elos com os dedos para que os carros afundassem cada vez mais… Isso não caracterizava maldade; era a única distração.

Outra lembrança linda de tantos contos de fada, porém com a conotação verdadeira, pois descrevo aqui apenas fatos reais, é ir cedinho ao curral de “seu João” pegar um leite quentinho. João Lopes era um senhor calado, simples, quase bizarro, chapéu escondendo os olhos, camisa da cor da calça, falava pouco, um tanto assustador, para a minha imaginação de criança. Mas ali eu me perdia, esquecia o leite, colocava a garrafa na calçada, ia correr atrás das vacas, observar os bezerros que mamavam; um cheiro de estrume no ar, aquilo era como perfume. O cheiro do feno; as cocheiras; o mugido dos touros; o eucalipto que formava um tapete… Eu sentava ao lado do Wilson, o moço que tirava o leite; sentava impaciente com uma certa dó da vaquinha, via o Wilson espremer as tetas da vaquinha e a coitada mugia: mummm. Hoje não sei se era dor ou se era um mantra. Sei que de lá não saía leite sem emoção. Enquanto em casa a minha tia, talvez já impaciente, esperava sentada, o leite, porque ali eu me perdia.

Aquilo tudo era meu mundo… Andar descalça, pisar no cocô quentinho das vacas, eu fazia por prazer… Lembro-me do mel de furo, uma substância tirada do melaço da cana, que as vacas comiam com prazer; os vaqueiros chamavam de torta. Eu daria tudo para lamber. Daquilo saía um cheiro… Era uma tentação, uma danação, um assédio, lamber, saber que sensação de prazer a vaca via naquilo. João Lopes dizia: “Vai pra casa menina. Entrega o leite a Anália e volta pra brincar”. Eu ia, então, chateada; voltar é que não podia, pois já encontrava pisando nos cascos, ralhando e dizia: “Amanhã tu não vais pegar o leite; vou eu no teu lugar”. Nossa isso era uma sentença!

Amanhecer, não pode ir ao curral, não poder brincar com as sementinhas caídas dos eucaliptos, não pegar as folhas ainda quase verdes, amassá-las só para sentir o cheiro, seria pior do que prisão… Então eu jurava: “Tia, prometo, amanhã vou, demoro não”. Ela me olhava assim, com um olhar de quem sorria e dizia: “Ednar, eu te conheço. Amanhã, você vai não!”. Eu dizia: “Deixa tia, por favor, deixa tia”. Negócio feito; eu sempre vencia.

Lá mesmo, na casa de “seu João”, D. Zefinha, sua esposa, foi minha professora. Minha tia alegava que era preciso aprender o bê-á-bá, momento de grande alegria, ia estudar na casa de D. Zefinha, ficar perto das vacas, correr atrás das borboletas. Eu as segurava, colocava num vidrinho e só na hora de voltar para casa, as soltava. Tudo muito lindo! Uma infância colorida, rica de emoção.

E lá estava eu no meio dos bichos, magrinha, correndo, feliz, saltitante, cabelos compridos, tranças… Lembro que uma certa vez, como Narciso, me vi no espelho pela primeira vez, e foi aí que notei que não precisava mexer nos batons de minhas tias; minha boca era muito vermelha!

Bem, ia eu todos os dias, com um caderno e um lápis e uma borracha na ponta do lápis grafite, aprender a escrever (b+a= ba; b+e= be…) rsrsrs… Havia um momento mágico, um tal de ir à casinha, que era ir ao banheiro e lá eu ia e vinha, só para fugir do bê-á-bá.

Acordar era sempre uma felicidade… Enfim, eu ia estudar.

Nos fins de tarde, menina bem cuidada, cabelos limpos, perfumados, saía com meu tio Jair, para comprar pão quentinho na venda de “seu Adelson”… Hummm… Que coisa maravilhosa: bolinho, pirulito, alfenim, biscoito champagne, pão doce, suco de maracujá, um biscoito delicioso, biscoito de pobre: língua de sogra, lá tudo isso tinha. E eu, sandália de dedos, shortinho colorido, laços de fitas no cabelo, saía de casa ouvindo uma recomendação: “Tem cuidado Jair, para essa menina não rolar no chão”, tia Anália dizia. Ele, grande cúmplice das minhas travessuras, era o primeiro a me incentivar e com todas as letras que agora escrevo, ele dizia: “Rola Ednar! Eita cabritinha!” O conselho de tia Anália soava ao contrário, com certeza eu voltaria produzida ao meu modo: pés descalços, roupa suja e pé no chão. Livre… Rebelde, não.

Voltava sempre de mãos cheias, colhia na ida e na volta flores silvestres, que encontrava pelo caminho: flores azuis, amarelinhas, brancas, lilases e, ainda, sorvia a aguinha acumulada nas conchinhas das flores. Este sabor, não esqueço. No tempo eu não sabia, mas hoje sei: era um misto de poeira e água morna; um chazinho da natureza, um chazinho de flores… Uma satisfação, uma sensação, sem preço, de liberdade.

Acabavam, assim, quase sempre, as minhas lindas tardes.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Ednar Andrade 19 de outubro de 2010 15:48

    Tácito, querido mais uma vez fiz um envio sem observar o endereço que postava. Favor, corrija-me. Desculpe-me mais uma vez, fica valendo o segundo, então, ok?

    Eitxa! Que festa boa!

    “Jarbas faz o pai Francisco.
    alguem toca o violão
    outro diz uma cantiga
    e Tácito canta uma loa”.

    Hummm… Eu prometo: farei uma imensa fogueira, será numa noite de lua, onde estaremos à beira da lagoa; aquela lagoa que você vê na foto.

    Da Mata, vale esclarecer que a praia não é minha… É nossa… “Presentim” da natureza.

    Ali é Pirangi do Sul. Estou organizando, viu?

    Tão logo fique pronto, aviso a todos. Tenho um projeto muito bom, mas ainda não tenho certeza de que poderei realizar. Se assim for, teremos um espaço para sarau, para falar bobagens, jogar conversa fora que é tão bom…, pra que guardar tudo? Não é verdade? Rsrs.

    E, olha Da Mata, não é querer demais não, eu também quero muito este encontro com todos.

    Beijos, querido.

    Uma boa tarde e obrigada por ler-me, fico feliz.

  2. João da Mata 19 de outubro de 2010 13:53

    Bacana, Ednar.

    Viajando.
    Rolando a pagina voce vai encontar algumas reminiscencias minhas.

    Minha 1ª professora foi Da Xixi.
    Na vila onde eu morava tinha uma velhinha muito querida. Da Joaninha.
    Tomava um zenebra amuada. Morava num quartinho sozinha.
    Gostava de mim. Ela pagava por um cafuné. Contava histórias.
    Nessa coisa de infancia a gente inventa muita coisa, né,
    A minha não foi fácil. Brincava de casa. De biloca.
    E não sei quando descobri o sexo.
    Ninguem me ensinou nada.

    Contar da surras de palmatórias e dos meninos
    Do quebra canela. Das brincadeiras de roda.
    Quando a gente for na sua praia, vamos brincar.

    A gente chama Claudia, Tania, Nina, Carmen, Ramilla, Romana, Denise, etc
    Pera ái. Isso ja e sonhar demais!

    Jarbas faz o pai Francisco.
    alguem toca o violão
    outro diz uma cantiga
    e Tácito canta uma loa

  3. Ednar Andrade 19 de outubro de 2010 13:44

    Jarbas querido, boa tarde. Acabaste de fazer um doce carinho no meu coração.

    Sou daquelas que não negam o que sentem e esta humilde croniqueta é uma tentativa de expressar as tantas histórias que realmente vivi na infância e não é nova: é uma criança que aprendeu a andar, tem um ano. E toda vez que a leio, me reporto a todos estes caminhos que aqui descrevo.

    Não sei onde moras, mas adianto-te que tudo isso acontecia na Alexandrino de Alencar, onde passei parte da minha infância, onde vivi até os 10 anos. Depois, tudo mudou; como tudo muda…

    Beijos.

  4. Jarbas Martins 19 de outubro de 2010 12:42

    ah, Ednar, fazer elos com os dedos…adorei tua crônica. bjs.

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