Memórias de um escutador de galos

I- Aroldo Martins

No desequilíbrio dos mares perdemos mais um tripulante dessa nau desgovernada. E o galou cantou na Ribeira do Potengy amado. Lembrando de não esquecer seus ilustres moradores. Algumas vão sem dizer adeus. Ninguém fala ninguém comenta. Talvez algum amigo escreva alguma coisa. Muitas vezes nada fica registrado que não na memória inconsútil de uma cidade desmemoriada e seletiva. Eu só o conhecia de sebos e fama de um grande boêmio. Grande leitor, também. Aroldo Martins era um cirurgião – dentista e faleceu com menos de sessenta anos.

Escrevia um texto primoroso. Nos deixou faz pouco tempo, e sua repercussão foi mínima. Seu corcel de farras era uma bicicleta que o levava para os bares e churrasquinho das esquinas da esquina do Brasil. Faleceu sentado no trono, lendo. Na sua biblioteca a marca de uma existência que não pode ser esquecida na geografia sentimental de Natal. Seus textos precisam ser coletados e publicados in memoriam.

Escrevia gostoso sobre a nossa história e personagens que como ele não podem ser esquecidos. Aroldo Martins escrevia muito bem. Alguns dos seus textos podem ser lidos no Jornal “O Potiguar” exemplificado em “O Galo Miou”, abaixo anexado.

“E lá se foi Zé Areia, virando areia que já se fez pó.”. E lá se foi mais uma grande figura de uma Natal boemia que eu escuto e sofro.

O GALO MIOU / Aroldo Martins (In O Potiguar Nº 50 Março/Abril 2008 )

Um poviléu pachorrento na pequena cidade silenciosa escuta pelos doze auto-­falantes espalhados pelo Grande ­ Ponto e Ribeira o que se passa no começo da Segunda Guerra Mundial.

Notícias de invasão, desordem e destruição numa Europa guerreada.

Pasmados, os cidadãos circunstantes comentam os fatos acontecidos e logo após escutarem as badaladas do relógio Big-Bem ao final da transmissão, retomam seus costumeiros afazeres.

São os tempos de Zé Areia, festejado príncipe dos chistes e do deboche instantâneo. Ginosofista, lança por terra, numa rapidez estonteante, aquele que o provoca, dando-lhe resposta fulminante.

O sujeito Genival vê de longe um pai-­de-chiqueiro a ser premiado numa rifa de Zé:

– Que bode feio, magro e fedorento, Areia! E parece que não é sério! Esse bicho tem nome?

– ­Genival, disse Zé.

Barbeiro filibostênico – o que tira sangue -, manejou uma velha Solingen que em tempos frios não pegava corte. E durante algum tempo manteve o ofício trabalhando num salão para os lados da Ribeira. Um tabaréu foi entrando e disse:

– Que catinga de inhaca nessa rua, Zé! E é de uma ponta a outra!

Areia, sem levantar os olhos:
– Veio tirar o bigode?

Zé a todos conhecia e com todos pilheriava na mais fina picardia nas mais diversas oportunidades e ocasiões. Bitáculas o atraem. Numa conversa, convida um amigo:

– Domingo vá sem falta. Tenho pinga de cabeça e vou fazer um galo torrado lá no meu barraco, perto do Miguel Couto.

E Nilson Patriota foi. Nas encostas do morro, se descobre a Praia do Meio, de poucas habitações. O lar de Zé Areia é recoberto de palhas de coqueiro e seu piso é na areia macia da própria duna, tapera humilde, mas de onde vem um cheiro bom de comida caseira em panela de barro.

Enquanto espera Zé, Nilson toma uns aperitivos com alguns pedaços do tira-gosto. Elogiando a comida, diz à mulher ter apreciado o tempero, a cor e o sabor do galo torrado.

– Galo? Questiona a mulher. Ele disse que era galo? Zé Areia não tem jeito, não. O senhor comeu gato, e, ao invés de ser um novinho, que fugiu logo cedo, ele arranjou um velho que ia passando aqui por perto. É gato torrado, seu Nilson.
Cardíaco, dizia:
– Estou farto de ter infarto! Num último arfar, sussurrou, baixinho:
– Mulher feia, quero morrer em teus braços!

E lá se foi Zé Areia, virando areia que já se fez pó.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo