PERFORMANCE: A menina que saiu do Oeste potiguar para fazer arte no centro de Portugal

A imagem da avó Ambrosina a plantar algodão, a fiar e tecer redes permanece como força motriz às criações e desejos da multifacetada performer Tânia Suassuruna.

Sonhos emergidos do pacato município de Itaú, no Oeste Potiguar. De tão pequeno, o destino apenas passa por lá sem fincar estadia. E carrega alguns poucos sonhos em sua eterna caminhada.

Tânia segurou esse bonde e desembarcou em Natal ainda menina. Na bagagem, as imagens da avó e a vontade de plantar, fiar e tecer arte.

E com essa inspiração, a menina interiorana está às portas de participar de um dos maiores eventos europeus de arte de rua.

Na capital potiguar, Tânia pintou e bordou; criou ilhas de desordens pelas vias da performance. Usou o corpo como espaço da vida e de experimentação estética; se fez sujeita em trânsito, fluida.

Da liberdade infantil em Itaú à experimentação artística em Portugal
Da liberdade infantil em Itaú à experimentação artística em Portugal
Um balé, uma coreografia, uma cena, uma tela e a arte presente no corpo e na mente, a toda hora. O social, o popular na dança e nas cores. Tudo presente, mas também no passado de lembranças infantis. E um futuro agora escrito no além-mar.

Da Natal da Fortaleza dos Reis e da alma ainda colonizada, partiu a neta de Ambrosina para tomar Portugal. Da Itaú das lembranças de menina levada e de pouco mais de cinco mil habitantes, para o centro lusitano, na elegante cidade portuária de Aveiro, com mais de 75 mil portugueses ávidos pela cultura brasileira.

As terras ibéricas se tornarem território afetivo à artista. Arquitetura, museus, ruelas, tudo com aroma de história, com atmosfera inspiradora e a tranquilidade fértil à produção.

“Vim visitar uma prima em Lisboa. Encantada com o lugar, pensei: ‘Meu mestrado será aqui’. Regressei ao Brasil, fui aprovada no processo seletivo à distância, enfrentei a burocracia para liberação do Estado e do Município onde leciono e conquistei meu direito de convívio com outra cultura, de buscar o novo”.

Mente sã e corposanto
Um ano e meio separam Tânia de Natal ao dinâmico curso de Mestrado em Criação Artística Contemporânea da Universidade de Aveiro-UA. E ainda faltam seis meses intensos.

Sendo curso prático, Tânia já apresentou sete performances em Portugal nesse curto período. Sem outras obrigações profissionais ou pessoais, dedica tempo integral à arte.

Paralelo à rotina de mestrado, concorre em festivais ou qualquer movimento que possibilite suas expressões e impressões artísticas.

Nos dias 20 e 21 de maio, Tânia participará do Festival Internacional Mais Imaginarius, o maior evento de arte de rua em Portugal e um dos maiores da Europa. Lá, ela apresentará a performance ‘Corposanto’.

Durante a performance Corposanto
Durante a performance Corposanto
“Corposanto foi elaborada para o espaço museológico Santa Joana Princesa, dedicada à arte sacra de Aveiro. E teve como premissa os doces conventuais, especialmente o pastel tentúgal, doce que no seu fabrico apresenta muitas camadas. Pensando nisto, surge o olhar sobre o espaço ao qual foi destinado a performance: o museu, espaço carregado de significados, onde a figura do feminino é pura e imaculada, e predominantemente conservadora no seu modo de vestir. Contrapondo esses conceitos e paradigmas, a performance questiona o papel impositivo da religião na vida das mulheres, com seus trajes moralizadores. Assim, a performance reúne elementos contraditórios, alusivos ao sagrado e ao profano. Aqui o corpo é o suporte, a vestimenta, o alimento. Somos todos antropofágicos e vamos comer a santa”.

A próxima performance também está montada e se chama ’25 Recruta-se mulheres’. Será apresentada dia 25 de abril, dia muito significativo aos portugueses, considerado o “Dia da Liberdade”. A data celebra a revolta dos militares portugueses em 25 de abril de 1974, pondo fim ao regime ditatorial do Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar.

O estendal na Afurada de Baixo
À procura de motivações sociais para pesquisa de mestrado, Tânia encontrou a comunidade piscatória chamada Afurada de Baixo e a tradição do estendal: mulheres a lavar roupas em tanques ou rios – uma verdadeira instalação artística a céu aberto.

“Em outros tempos, o cenário da Afurada já era embandeirado pela presença dessas mulheres. Elas representam ícones de resistência ao tempo, tanto no modo de viver, quanto na atividade de lavar roupas. Por isso, em cada peça há um modo especial para colocar a escorrer e secar, como se fosse uma válvula de escape, simulacro daquele modo de viver, onde os afazeres domésticos estejam emprestados àquelas viventes almas”.

Resultado da residência artística Ex-tenda-se. Ao fundo, o barraco onde Tânia passou três dias imersa na comunidade
Resultado da residência artística Ex-tenda-se. Ao fundo, o barraco onde Tânia passou três dias imersa na comunidade
Diante dessa constatação, Tânia montou barraco no próprio estendal por três dias como se fosse moradora da Afurada. Buscou a ideia de pertencimento e também causar estranhamento para produzir uma obra a partir daquele cotidiano.

Surgiu daí a residência artística ‘Ex-tenda-se’.

“Não há significados ou significantes. Deixo-me atravessar pelo acaso, pelas pessoas passantes. Instigar a participação na obra é minha função. A naturalidade é provocativa, intencional, paradoxal e envolvente. Ali não falamos só das viventes mulheres lavadeiras, mas bordamos muitos arabescos… Não havia regras, havia um jogo que envolvia ou não. A sedução estava no envolvimento. Meu interesse é em torno dos gestos\ações da vida cotidiana, e como transformar isso em performance, em obra artística”.

Performance em terras Lusitanas
A performance representa um incisivo diálogo entre arte e vida na contemporaneidade. E essa vivência difere em cada lugar e, claro, há particularidades no processo criativo de cada performer.

“Diria que a experiência enquanto performer em Portugal é a maior escola no sentido de abrir fronteiras, desbravar caminhos, experimentar e, porque não dizer, fazer histórias”.

Isso porque a performance ainda é pouco explorada no Velho Continente. E em Portugal não é diferente. Só ano passado, de forma pioneira, o Museu de Arte Contemporânea Serralves abriu portas durante dois dias para performances, e para dois ou três grupos de nacionalidade portuguesa; todo o resto foram de estrangeiros.

Outra característica peculiar dessa arte em Portugal é o caráter mais sutil na linguagem. “Considero nossas montagens mais politizadas, mais sadomasoquistas, digamos. Como dizia meu grande mestre Marcos Bulhões: ‘É preciso fazer ilhas de desordens’, e tenho feito, embora mantenha a sutileza, a poeticidade e o lirismo, mesmo quando quero ser agressiva”.

Tânia cita a performance ‘Abstração’ como exemplo:

Performance Abstração
Performance Abstração
“Consiste em eu vestida de balões com a frase ‘eu não posso fazer nada por você’. Nada mais lúdico do que um balão de festas de aniversário. No entanto, a frase era dura. Ouvi essa frase de um professor da Universidade e fiquei muito desolada. Logo, fiz da dor a sublimação. Dai o nome Abstração. As pessoas pediam os balões. Lembro que uma moça queria muito um balão para entregar ao namorado, era uma declaração de amor! (rs). Crianças e adultos no museu vinham até mim, todos queriam levar o balão para casa”.

Não à toa Tânia tem assistido efervescente migração de artistas visuais, poetas, músicos e bailarinos brasileiros a Portugal. Essa colonização às avessas tem aberto portas e incentivado a presença de público aos eventos culturais, sobretudo aos de performance.

Essa aceitação, segundo ela, também depende da proposta da performance e do nível de entendimento de quem assiste.

Em “X gesto”, Tânia se embalou em papel filtro e tomava banho com diversos produtos industrializados, tipo coca cola, farinha de trigo, caramelo, mostarda, extrato de tomate, entre outros…

x gesto“A reação foi surpreendente, aguçou não só o olhar visual, mas também o olfato, com a mistura dos produtos, o cheiro causou náuseas, espanto e admiração. Foi uma ação muito rápida, impactante. Depois a pessoa da limpeza ficou muito brava comigo, dizia que aquilo não era arte e que criança de seis anos fazia aquilo”.

Apesar dos diferentes olhares para a mesma obra, Tânia prossegue com seu processo criativo, amparada na pedagogia da esperança, do otimismo, da luta. É essa a sua bandeira hasteada desde quando o bonde do destino transportou seus sonhos de menina à uma nova realidade mais experimentada e tão sutil quanto o fiar e o tecer de uma rede.

VEJA IMAGENS DE OUTRAS PERFORMANCES DE TÂNIA SUASSURUNA

‘TERRAL’
terral

‘TSER’ (homenagem à avó Ambrosina)
tser

‘ADENTRO’
adentro

FOTO DE CAPA: Roberto Limeira

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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