Menos silêncio, por favor

Por Carlos Alberto Mattos
O GLOBO

Tentei calar-me, mas fui vencido pela necessidade de dizer duas ou três coisas a propósito e a partir do artigo de Felipe Bragança (“Meu último texto de cinema”) no Prosa & Verso de sábado passado. É um texto articulado e vibrante, que faz um histórico do surgimento de um novo cinema e uma nova crítica no Brasil nos últimos dez anos, concluindo com a proposta de uma agenda de realização que contemple o “erro” e o “prazer do vazio”. Filmes como “monstros maravilhosos”, para resumir.

O artigo pede para ser lido como peça política de um movimento que se auto-intitula de “reinvenção do cinema brasileiro”. Outras peças do gênero têm se posicionado em mostras, revistas eletrônicas e sessões cineclubísticas. Isso configura um movimento de fato, embora nem todos os citados se sintam como parte de um.

Que há muitas novidades por aí, não resta a menor dúvida, mas é necessário não confundir manifestos com panegíricos. Nem toda busca leva a um encontro. Existem buscas que são belas em si, outras que apenas se acomodam no pretexto da busca para não dizer nada. O texto de Felipe, como de praxe nesse mircrouniverso, é recheado de afirmações mais ou menos peremptórias sobre o cinema supostamente mais adequado a este ou àquele momento. Para elevar os chamados (não por Felipe) novíssimos, é necessário rebaixar os que os antecedem. Assim é que os filmes de Walter Salles aparecem reduzidos a “um cinema-de-arte bem composto” e os de Fernando Meirelles, a “explotation (sic) do imaginário urbano”.

Quando cita “O céu de Suely” – FOTO (do qual foi corroteirista) como um dos marcos de influência dessa nova onda, Felipe parece desconsiderar o caminho aberto por “Terra estrangeira”, de Walter Salles, para o florescimento de coisas como o maravilhoso filme de Karim Aïnouz. Prefere citar nomes mais afeitos a um perfume “de invenção” para constituir uma genealogia do seu próprio êxtase.

Esse tipo de ação política tem que ser visto com desconfiança. Que mais não seja, pela distância gigantesca entre a qualidade dos textos e a qualidade de grande parte dos filmes em que eles almejam se concretizar. É preciso desmontar o pacto de silêncio e levantar a redoma das meias palavras a respeito do que se tem visto nas telas. Este é um texto bem pessoal, mas estou levando em conta também uma percepção do que ouço ao redor, muitas vezes em tom de cochicho para não ferir os amigos e admiradores.

Reconheço uma potência de enunciação e um desejo real de comunicação em certos realizadores e filmes pernambucanos. Os recentes longas da turma da Alumbramento (Ceará) trazem uma simpatia e uma busca estética a suprir parte do enorme vazio que ocupa o seu centro. Alguns mineiros têm seu charme e propõem radicalidades embasadas em talento plástico e escolhas bem definidas. Mas, afora isso, são poucos os filmes aptos a ultrapassar o filó de uma certa patota e a curiosidade prospectiva de alguns festivais internacionais.

Na Mostra de Tiradentes, frequentemente citada como “prova” de sucesso, afora os convidados, ver filmes na tenda é um programa gratuito e atraente para o público que aflui à cidade, sobretudo nos fins de semana. Mas, sem contar as comuns debandadas em meio à projeção, muita gente sai rindo dos filmes e fazendo comentários bem distantes do que os seus diretores gostariam de ouvir. Em muitos casos, eu dou razão a quem abandona a tenda muito antes de o filme terminar, avassalado pelo tédio ou pela perplexidade.

Por mais que me interesse pelo que vem sendo feito pela geração “novíssima”, não posso compactuar com a rede de proteção estendida sobre ela e por ela mesma. Em boa medida, há uma síndrome de autocontentamento com o filme barato e sem rumo. Uma espécie de masturbação recíproca coletiva acompanha os intercâmbios de talentos entre grupos e estados da federação. Uma permuta de legitimações ocupa o lugar de uma real aproximação crítica dos filmes.

Os rebentos cariocas que conheço são particularmente ineptos — e não é à toa que os filmes mais interessantes a chegarem brevemente aos cinemas sejam de dois cineastas um pouco mais velhos e à margem dessa celebração: Eduardo Nunes com “Sudoeste” e Eryk Rocha com “Transeunte” — além de um ligado à órbita da produtora Cavídeo, frequentemente “esquecida” nesse tipo de balanço, que é Gustavo Pizzi com “Riscado”.

Por sua vez, as realizações dos críticos-cineastas, praticamente sem exceção, têm naufragado num misto de pretensão, infantilismo intelectual, umbiguismo cool e referencialismo blasé. Elas compõem um panorama de cinefilia e filosofia mal digeridas, transformadas em filmes abúlicos.

Há marcas insistentes de um ressentimento com relação a um cinema narrativo e humanista, assim como à crítica que o valoriza ou tolera. Um patrulhamento semântico bombardeia conceitos como “arte”, “qualidade” e “autoria”, trocando-o por termos menos palpáveis como “vida”, “afeto”, “fluxos” e “lugar”. No entanto, os filmes em si demonstram que uma real inovação não se faz apenas com mudança de vocabulário e elogios em circuito fechado.

Minha experiência pessoal e minhas observações ao redor, entre jovens cinéfilos e cultuados mavericks da invenção, é de que, resguardadas as exceções, as manifestações verbais têm soado mais vistosas e articuladas que as imagens e sons atirados, a custo baixo e em mão única, no retângulo da tela.

Este texto não pretende ser um contramanifesto, muito menos um ataque indiscriminado a certo jovem cinema brasileiro. Quer ser antes uma tentativa de jogar alguma dúvida e relativização num tipo de discurso que aspira à hegemonia.

* CARLOS ALBERTO MATTOS é crítico e pesquisador de cinema

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois × três =

ao topo