A menos que superemos o medo, a autocensura se expandirá

Por Nick Cohen
DO “OBSERVER” – NA FOLHA DE SÃO PAULO

Temos uma lei sobre blasfêmia. Nenhum eleitorado a aprovou. Nenhum Parlamento a votou. Nenhum juiz fiscaliza sua aplicação e nenhum júri determina se há prova irrefutável de culpa. Não há direito a recurso. E a pena é a morte. Ela não é aplicada por uma polícia sujeita a códigos de conduta, mas por um medo que não ousa dizer seu nome; uma covardia tão completa que lhe falta até mesmo a coragem necessária a admitir que tem medo.

Os britânicos são os piores covardes do mundo. Uma coisa é dizer que você não aprova os cartuns do “Charlie Hebdo”. Mas a BBC, o Channel 4 e muitos jornais do Reino Unido não exibem qualquer imagem de Maomé, não importa a origem.

Teriam pelo menos reconhecido a censura se admitissem temer ataques ao seu pessoal. Teriam preservado um resquício de honra se dissessem: “Não censuramos por respeito; desdenhamos os assassinos que impõem seus tabus por meio de Kalashnikovs. Mas não queremos viver anos nos escondendo, como fez Salman Rushdie. Ou sofrer um ataque a faca na rua, como aconteceu com Theo van Gogh. Ou ouvir um islâmico derrubando nossa porta com um machado, bradando que ‘agora nos vingaremos’ -como aconteceu com Kurt Westergaard. Por isso decidimos exercitar a cautela”.

É claro que uma admissão honesta de que o terrorismo funciona destrói a pretensão de que os jornalistas são destemidos e não hesitam em dizer a verdade ao poder. Mas seria um pequeno gesto de solidariedade. Diria a todos, dos paquistaneses laicos assassinados por se oporem à selvageria teocrática aos pais britânicos que temem que seus filhos se alistem no Estado Islâmico, que o islamismo radical é uma verdadeira força fascista.

Em lugar disso, a maioria dos jornalistas vive uma mentira há anos, e o mesmo vale para muita gente nas artes, na academia e no humor. Nós encaramos os poderosos -e pedimos que nossa bravura seja admirada- se, e apenas se, esses poderosos não forem uma força paramilitar capaz de nos matar.

PIOR

O homicídio em massa de cartunistas e policiais no “Charlie Hebdo” e os ataques a judeus, que revivem tantas memórias medonhas do fascismo europeu, mudarão o nosso mundo -e quase certamente para pior. A menos que encontremos a coragem necessária para superar o medo, a autocensura se expandirá, e não só na mídia.

Colegas que queriam que os historiadores de um museu londrino falassem sobre a longa história das representações de Maomé na arte islâmica, na semana passada, encontraram pânico da parte de assessores de imprensa que tentavam fazer com que os especialistas se calassem.

O historiador Tom Holland, que recebeu ameaças de morte depois de contestar os mitos de criação do islamismo, disse que não consegue “pensar em qualquer outra área da história na qual o debate seja tão nervoso”. Ele espera que os historiadores continuem a afirmar que o Corão foi criado pelo homem, mas duvida que os jornalistas se disponham a levar a avaliação deles ao público.

Não se trata de uma pequena capitulação. No século 19, a crítica textual de estudiosos alemães revelou que a suposta palavra de Deus na Bíblia era um emaranhado de histórias concorrentes. Isso causou tantos danos ao cristianismo e ao judaísmo quanto o darwinismo.

Qualquer pessoa que tenha a esperança de repetir esse exercício e desmantelar o Corão e as hadiths, hoje, será reprimida pelo medo de terminar morta, tal como os humoristas que tentaram fazer o mesmo por meio de desenhos antirreligiosos.

Meu amigo e camarada Maajid Nawaz foi jihadista antes de se converter ao liberalismo, e compreende a mente totalitária. Diz que as pessoas ainda não percebem que os islâmicos radicais não querem apenas impor seus tabus por meio das armas.

Querem “criar uma guerra civil”, para que os muçulmanos europeus aceitem que só podem viver no califado, e encorajar a ascensão da extrema direita branca a fim de tornar impossível a coexistência cotidiana. Se vencerem uma de suas demandas, como estão vencendo no Reino Unido, buscarão um aumento de tensão que lhes permita vencer também a próxima.

Assim que você passa a considerar as demandas, em lugar de rótulos, o muro que separa os extremistas dos demais desaba. A Arábia Saudita é aliada e parceira de confiança do Reino Unido. Recebe vastas quantidades de armas e promove propaganda nas mesquitas e universidades britânicas.

Enquanto Paris se tornava zona de guerra, as autoridades sauditas chicoteavam o liberal Raif Badawi por insultar o islã. Pelo menos não o mataram, você talvez diga; mas se os tribunais religiosos o tivessem considerado culpado de apostasia -ou seja, de tomar como adulto a decisão de abandonar a religião de sua infância- a sentença teria sido de morte.

HESITAÇÃO

Os liberais europeus deveriam ter parado, depois que a sentença de Badawi foi aplicada, para pensar sobre sua hesitação em criticar as religiões dos “impotentes” e dos “marginalizados”.

A monarquia saudita detém todo o poder em seu país, como acontece nas demais ditaduras do Oriente Médio. Poder depende da posição que uma pessoa ocupa e da posição daqueles que estão abaixo dela.

Um desempregado com uma arma é mais poderoso do que um jornalista parisiense. O religioso marginalizado pode ter tido uma vida difícil, mas se ele fizer parte de um tribunal da sharia que imponha regras misóginas a mulheres muçulmanas britânicas, devemos temê-lo.

Os liberais europeus poderiam ser fiéis aos seus princípios e se aliar aos dissidentes, liberais, esquerdistas e livres pensadores das comunidades muçulmanas. Poderiam ajudar ex-muçulmanos que temem ser assassinados por apostasia.

Poderiam refletir que um muçulmano terá de encarar a xenofobia da direita, mas não ouvirá críticas rigorosas nas universidades ou outras instituições esquerdistas quanto ao sexismo, antissemitismo, homofobia e sede de sangue da religião militante.

O autointeresse deveria bastar como motivação. O medo do islamismo radical não só gera apoio à Frente Nacional na França e ao Partido de Independência do Reino Unido como oferece desculpa a novos ataques contra as liberdades civis, o que inclui, apesar das palavras pias de David Cameron depois do acontecido no “Charlie Hebdo”, ataques à liberdade de expressão.

Espero estar errado, mas não consigo ver uma mudança de cultura na escala necessária acontecendo. Temo que teremos de contemplar um futuro de mentiras e de medo.

 

NICK COHEN, 53, é jornalista inglês e autor de “You Can’t Read this Book” (Fourth Estate).

Tradução de PAULO MIGLIACCI.

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