Mercado da Redinha, da ginga e do eterno abandono

Quantos anos tem o Mercado Público da Redinha? Ninguém sabe e ninguém saberá, posso garantir. Ali moram segredos seculares, talvez. E mora uma realidade sequenciada de descaso; desde áureos tempos. Os lamentos perpassam gerações e fincam no presente, nas palavras dos herdeiros do abandono.

Voltei ao mercado neste feriado. Achei tudo melhor cuidado. A pintura nova ressalta aos olhos. Mas só “maquiagem”, segundo as comerciantes. Foi trocado o piso, aumentada em um metro a parede de azulejo dos boxes, reformado o banheiro e pintado a parte externa do lugar. Isso há uns 5 ou 6 meses.

unnamed (1)Nenhuma placa de restauração foi colocada. Isso porque a obra está inconclusa. Três dos 15 boxes passaram batido pela Prefeitura, que sequer mexeu na cobertura de palhoça na área externa, inaugurada ainda em 1982 e nunca reformada. O esgoto antes jogado ali perto, agora foi transferido direto para o mar. A porta de acesso pelo lado da praia sequer ferrolho existe e precisa ser escorada com móveis todos os dias, para evitar arrombamento.

Em pleno sábado de feriado o movimento era irrisório. Mesas vazias e uma desesperança estampada no rosto de cada comerciante. Ora, quem não conhece o Mercado passa direto. Não há nenhuma placa indicativa de que ali é o Mercado da única iguaria gastronômica típica de Natal. Não à toa, nenhuma comerciante quer mais repassar o ofício para seus filhos, como tem sido feito há três ou quatro gerações.

É certo também que, diferentemente do Mercado de Petrópolis, falta união e organização das próprias comerciantes do Mercado da Redinha, na formação, por exemplo de uma associação, para cobranças e direitos junto à Semsur.

Mas é certo também que todas as comerciantes têm medo da Prefeitura. Todas que entrevistei (estou com livro semipronto sobre a Redinha) se dizem vítimas de uma censura camuflada. Se reclamam temem perder a cessão do box. E a ameaça, segundo dizem, é real. Elas são apenas permissionárias ali, mesmo muitas tendo comprado o ponto em décadas passadas.

Aquele Mercado, como muitos outros pontos histórico-culturais da Redinha mereciam melhor atenção para amenizar a situação do bairro – hoje dominado pela criminalidade, inclusive com toque de recolher às 19h. É preciso frisar, no entanto, que essa mesma administração de Cadu Alves foi responsável pela reurbanização da Redinha, acho que em 2004. Mas falta muito.

O Mercado, o Redinha Clube, o Cemitério dos Ingleses são potenciais pontos turísticos. A “praia bonita” de Cascudo ainda conserva sua aura provinciana, seu charme bucólico. Mas tudo está passando. A violência tem acabado, inclusive, com a principal atividade da Redinha: a pescaria. Pescadores têm dificuldade de encaminhar seus filhos aos estudos ou à profissão de pescador, porque os Direitos Humanos proíbem a lida antecipada, mas os criminosos estão ali, para aliciarem os jovens logo cedo.

A realidade da Redinha é triste e vem de décadas. O livro que venho lançar retrata alguma realidade disso tudo. Feliz também que o videomaker Augusto Lula tenha inscrito projeto audiovisual no FIC 2015 para filmar essa Redinha de que falo. Mas ficaria mais feliz se a Prefeitura olhasse por ela, como talvez nunca nenhuma gestão tenha olhado.

MUDANDO DE CONVERSA……………… O IFRN Cidade Alta e a Cinemateca Potiguar recebem, nesta terça, às 19h, o Circuito Nacional de Exibição do Revelando os Brasis, com lançamento do documentário “Aboio: A Poesia do Vaqueiro, o Lamento das Caatingas” dirigido pelo jornalista Tárcio Araujo……………… Uma obra de realismo fantástico que é também barroca, pois apresenta o contraponto entre alegria e dor, sombra e luz, tragédia e comédia. Assim é o livro “Pipa voada sobre brancas dunas”, do dramaturgo e escritor potiguar Júnior Dalberto. A obra será lançada no próximo dia 5 de novembro durante o FLIN, no estande da Editora CJA do Editor Cleudivan Janio……………… O RN Criativo oferece a Oficina prática como fazer um rider técnico esta terça e quarta, das 8h30 às 12h30, no Solar João Galvão – Cidade Alta. Curso ministrado pelos produtoras culturais Juliana Furtado e Camila Pedrassoli, sócias da Guria Produtora……………… Alcione e Benito Di Paula. Juntos, eles fazem uma turnê comemorando 45 anos de boa música. O show acontecerá no Centro de Convenções de Natal. Cadeira: R$ 100. Mesa no setor A: R$ 600 e setor B: R$ 400……………… O escritor Lêdo Ivo é tema do projeto AURORA na UFRN intitulado: “Poesia Sem Fronteiras: Pauta e Cena com Lêdo Ivo”. O evento pretende reunir leitores, pesquisadores, tradutores e editores do consagrado autor. O projeto ocorre no período de 3 a 6 de novembro, no Auditório do Centro de Educação da UFRN, a partir das 9h.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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