Mercedes Sosa naquela tarde

Por Lívio Oliveira

Carrego em minha consciência e em meu peito alguns modelos de humanidade. São os meus espelhos e faróis quanto a essa estranha e imprescindível condição sobre a Terra. Sigo seus exemplos como posso, mesmo podendo muito pouco, diante da grandeza de alguns e algumas. Não falo de heróis ou heroínas, que quase todos foram enterrados quando comecei a ouvir aquela canção já tão batida de Cazuza. Aliás, a própria ideia de heroísmo já não me agrada tanto hoje quanto quando eu ainda era criança e me embevecia debruçado sobre livrinhos ilustrados de história e civismo parciais, parcialíssimos (em p&b) ou mesmo com os gibis que me animavam pelas cores e pelo movimento das ilustrações, mesmo que alienígenas, estrangeiros do meu sonho tão terra, tão país, tão continente misterioso de mim.

O que falo é sobre padrões mínimos de decência, de idealismo, de sabedoria em viver e em amar. O exemplo humano e que se situa numa seara muito simples, muito simples. Ou aparentemente despretensiosa, porém preciosa. E é o que me serve. Como a palavra que me serve, a que eu sirvo, des-pu-do-ra-da-men-te. São os abraços que sinto mais eficazes. Das gentes que me traduzem utopias e apontam o tempo todo, o tempo todo, o tempo todo para onde ir, caso não possa ficar, caso tenha mesmo que partir daqui e voar por sobre dunas deslizando para o Atlântico, ou acima dos Andes, mirando o Pacífico.

O meu exílio pessoal é em meio a essa gente, nesse tipo de mentalidade e de coração sangrando pelo bem, pelo caminho onde se constrói o amoroso discurso, lá onde ficam os meus escaninhos de guardar crenças, manter fé, erguer passos edificantes, para não me abandonar e nem abandonar minhas dolorosas conjunturas e estruturas pessoais que já chegam acompanhadas dos seus lenitivos específicos, como um livro de poemas para cada dor. A rosa branca aparece em meio à poça de sangue que se transforma em fonte. Fronte ferida, mas rija. E são rijas as pernas das bailarinas que me trazem sua dança cheia de transparências, fazendo-me o encanto que me salva da descrença usual.

A minha fé peculiar me faz lembrar o dia em que vi Mercedes Sosa, à entrada de um elevador de hotel em Copacabana. Era o ano de doismileoito e eu estava com o meu primogênito, observando a cena ir-e-vir no hall de recepção. Decidimos subir para o apartamento, onde estava a outra metade da família. Foi quando percebi quem era aquela senhora rechonchuda e de olhinhos pequenos, imersa numa cadeira de rodas, ares de rainha resignada. Seu ajudante se esforçava para transportá-la ao interior do elevador. Apressei-me a oferecer ajuda e perguntei, ainda um pouco aturdido, estendendo a mão para o aperto afetuoso e puro:

“– Mercedes Sosa?”

Recebi, em resposta, a doce e ainda muito forte voz da senhora com seu cachecol (apesar do calor que fazia) ao redor do pescoço:

“– Sí.”

E antes que eu pudesse proferir uma palavra maior do que a sílaba que acabara de ouvir, meus ouvidos sentiram a beleza suave e o peso ancestral e muito intenso de uma expressão que revelava todo o sentido do valor que Mercedes Sosa transferia para qualquer ser humano, da América ou do mundo, mesmo um intruso de boa vontade como eu era diante dos olhos do meu filho e do ajudante da cantora, com as mãos guiando a cadeira de rodas:

“– Encantada!”

Aquilo me bastou. Duas ou três palavras que jamais esqueceria. Aquela mulher era e continua sendo, para mim, um dos maiores símbolos e elementos de convicção de que a humanidade tem muito valor, sim. E tem jeito e pode ganhar a paz, até porque ainda há utopias a serem distribuídas nas mãos dos sonhadores, que não são poucos. Somos muitos, creiam. Creiamos.

Depois que Mercedes entrou no elevador, decidi ficar no hall, com o meu filho Bruno. Não quis mais atravessar a serenidade de sua tarde quente e protegida no Rio que a acolhia. Não me permitiria tal atrevimento. Preferi buscar a compreensão – o que ainda faço até hoje – acerca de toda a sua história (um ano depois, ela partiria) plena de amor verdadeiro e intenso ao povo do Brasil, da América do Sul e do mundo. Nunca mais parei de ouvir sua voz, canções e encantos.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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