O Mestre e Margarita

Título original: As muitas possibilidades do romance do diabo 

Por Isabel Lucas
PÚBLICO

A obra maior de Mikaíl Bulgákov conhece uma nova tradução em português. Depois de António Pescada, Nina e Filipe Guerra mostram outra possibilidade de ler O Mestre e Margarita. A diferença começa logo no título.

“O tradutor de prosa é servo, o tradutor de poesia é rival.”

A frase ecoa em Nina Guerra, tradutora, e ela repete-a para classificar o seu trabalho de aproximação à obra que traduz. “É sempre uma tentativa de estar o mais perto possível do que o autor quis dizer. Os tradutores são servos dos grandes escritores”, justifica antes de falar sobre a recente tradução de O Mestre e Margarita, o romance em que Mikhaíl Bulgákov trabalhou durante mais de dez anos, de que fez muitas versões, queimou uma, destruiu várias e que deixou por publicar quando morreu, em 1940, com apenas 49 anos.

A história da escrita e edição deste livro é quase tão complexa quanto a matéria de que trata. Tem o diabo como figura central e apresenta o homem em toda a sua plenitude, tão cobarde e fraco como capaz de se transcender. A mulher de Bulgákov, Elena Shilovskaia, terminou-o, respeitando as inúmeras notas que o marido lhe deixou enquanto a doença o consumia, mas demorou quase 30 anos até que o romance fosse publicado. Antes, teve que atravessar na gaveta todo o período estalinista que denunciava e que por isso o censurou. A primeira versão, publicada em fascículos na revista literária soviética Moskvá em 1966 e 67, saiu modificada pela censura. A versão integral, tal qual a fixou Elena, surgiu no mesmo ano de 1967, em França, pela YMCA-Press. Tornava-se um dos romances mais discutidos da literatura. Motivo? A complexidade e abrangência da obra e o facto de não existir o que o tradutor António Pescada chama de “versão canónica”. Bulgákov fez muitas versões até chegar à derradeira e irá sempre especular-se acerca de que livro teríamos se o seu autor pudesse ter continuado a tentar melhorá-lo. “Ele não conseguiu elaborar a última parte tanto como queria; essas páginas não passaram pelo mesmo processo que as anteriores. A mulher apontava as suas intenções, as emendas, mas notam-se algumas incoerências. Nada que comprometa a sua qualidade, no entanto. E isso é extraordinário”, refere Nina Guerra.

Traduzido em 180 línguas, considerado um clássico, um dos romances mais brilhantes da literatura russa, apresenta vários níveis de leitura, está cheio de metáforas, paralelismos, uma paródia de significados marcada por subterfúgios linguísticos, “um mistério”, como lhe chama Nina Guerra, “impossível de traduzir” para outra língua sem que muita coisa se perca. Um dos desafios mais estimulantes para perceber a tal complexidade, ou as muitas possibilidades de leitura que a obra oferece, é pegar nas duas traduções da obra em português disponíveis actualmente, as únicas a partir do russo. A que acaba de sair pela Presença, assinada por Nina e Filipe Guerra, e a de António Pescada para a Relógio d’Água, editada em 2007. As diferenças de abordagem, de leitura – sem que o essencial do livro se altere – começam logo pelo título. O Mestre e Magarita, na tradução do casal Guerra, e Margarita e o Mestre, segundo António Pescada.

“O romance em russo chama-se O Mestre e Margarita”, justifica Nina Guerra sobre a opção pelo seu título. “Escolhi o título em função do modo como soava em português e da importância das personagens no livro. Margarita é mais relevante e pareceu-me que Margarita e o Mestre seria mais adequado na nossa língua”, refere António Pescada. Ao longo do romance são várias e distintas as opções seguidas pelos textos em português. Na versão de Nina e Filipe Guerra o tom e a grafia dos nomes estão mais próximos do original, enquanto António Pescada optou por “contar o melhor possível a história de Bulgakóv em português”, explica numa frase que é, em simultâneo, uma síntese acerca do modo como encara a tradução. “Sigo o mais possível o original, procurando contar aquela história como se estivesse a escrever o texto original em português”, afirma o tradutor, salientado ainda a sua satisfação pelo facto dos leitores portugueses terem duas traduções de uma obra sempre a colocar desafios em que a lê e ainda mais em que a traduz.

Não haver o tal texto canónico faz do livro uma obra aberta a muitas discussões e interpretações. Em 2007, o mesmo ano em que António Pescada publicou a sua tradução revista, saia na Rússia um volume de mais de mil páginas com anotações e diversas versões de um livro que teve vários títulos até Bulgákov se decidir pelo último. O Mágico Negro, oO Pesunho do Engenheiro, O Grande Chanceler, Romance Fantástico, O Príncipe das Trevas são hipóteses que Bulgákov considerou e António Pescada lembra no prefácio à sua edição. Quando em 1938 escrevia à mulher dando conta de que tinha 327 páginas dactilografadas e cerca de 22 capítulos, o escritor já fixara o título definitivo. Faltava-lhe o que achava a sua tarefa maior: rever um livro que tinha como grande referência O Fausto, de Goethe, além de muitas lendas e narrativas ocidentais.

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