Metamorfose invisível

Por Conrado Carlos

A geografia tem incomodado Marie Ndiaye. Para a primeira negra vencedora do principal prêmio literário em língua francesa (Goncourt), categorizar artistas de acordo com a localização do pedaço de chão onde nasceu é incompreensível. Mesmo nascida e criada na terra de Balzac e Proust, ela entende que o tratamento dispensado pela mídia local, que a intitula como “escritora franco-senegalesa”, reflete um preconceito latente – o pai nasceu no país africano, mas abandonou-a quando tinha um ano de vida. Ainda que o engajamento político esteja fora de seus planos, tanto que, descontente com a medida do “franco-hungaro” Nicolas Sarkozy e da crescente xenofobia gaulesa, mudou-se para a ‘tolerante’ Alemanha, a situação problemática das minorias está presente em suas obras.

Como um dos grandes nomes da literatura francesa contemporânea, a autora de contos, peças teatrais, roteiros para o cinema e dez romances, só agora tem um primeiro livro lançado no Brasil. “Coração Apertado” (Cosacnaify) – no site da editora, Ndiaye é descrita como “escritora de origem senegalesa”, traz um casal de professores de meia idade que, de repente, começa a ser mal tratado por vizinhos e colegas de trabalho. Logo nas primeiras páginas, o suspense é provocado pelos questionamentos da narradora Nadia: “Meu deus, o que eles veem? O que todos estão sabendo que não sei? Onde eu estava esse tempo todo, quando era preciso ver e saber?”. E a tensão aumenta com o afastamento de Ange, marido cada vez mais raivoso. Uma suspeita de gravidez pode ser o motivo (seria de um amante?).

Na medida em que as pessoas demonstram ojeriza pelo casal, a especulação sobre o motivo dos olhares atravessados e da cusparada que leva na cara, enlouquece Nadia. Desconfia, mas guarda silêncio. Enquanto isso, Ange surge com uma ferida no abdômen, rapidamente transformada em grave moléstia. Teria sofrido um atentado? Ele dispensa médicos e cuidados da mulher, tarefa executada por um vizinho esquisito, outrora discriminado pelo casal. Angustiada por um suposto crime que desconhece ter cometido, Nadia se desespera. Uma repulsa pelo odor da ferida impregnado no marido faz com que reminiscências aflorem. Parte em busca do ex-marido que abandonou e do antigo namorado do filho – relação interrompida pela homofobia de Ange.

Alegam influências kafkianas na narrativa de Marie Ndiaye. A semelhança entre o ferimento de Ange e a consequente podridão, com a transmutação decrépita de Gregor Samsa em um inseto, em “A Metamoforse”, validam a comparação. É tudo tão claro e incerto. A resignação de Ange prostrado na cama enquanto é consumido pela chaga; o vizinho que promove deliciosas orgias gastronômicas em meio ao caos; a agressividade e o desprezo das pessoas; a culpa de Nadia pela situação (“O coitado do Ange, fui eu que o contaminei?”); e a neblina que encobre Bordeaux (espaço geográfico da trama) durante os acontecimentos; tudo é intensificado pela clareza da escrita de Ndiaye. Entre curioso, confuso e desconfiado, o leitor se pergunta o tempo: O que aconteceu de verdade?

“Coração Apertado”
Autora: Marie Ndiaye
Editora: Cosacnaify
Preço: R$55,00

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