METAPSÍQUICA

José Régio *

Cerrado o circo e ausente a multidão,
– Bateu a hora, e a máscara desceu –
– Mostra-te, enfim, qual és, velho histrião!
– Que ninguém mais nos vê: só tu e eu.

Bebe, ri, chora, espoja-te no chão,
Não para gáudio, já, do poviléu…
Supremo juiz, não sou quem sou, senão
Porque a tua abjecção a mim me ergueu.

E vê que porque assim no meu espelho
Te vês qual és, trôpego, abjecto, velho,
E eu, no teu, frio, altivo, triste e forte,

Nos vamos ambos tendo em cena, até
Que a mim me fuja a vista, e a ti o pé,
E aos dois nos varra um-só a mão da morte…

José Régio se confessava através da literatura. E sabia que a arte mente assim como a vida. Uma é o espelho da outra. Poeta dos Fados, dos epitáfios e das saudações místicas. Primus enter pares de Fernando Pessoa. A matéria de seus poemas foi, sobretudo, a certeza de não ter certeza de nada.
Ficou muito conhecido no Brasil com o show “Brasileiro Profissão Esperança”, onde o ator Paulo Gracindo recitava o seu célebre poema
“Cântico Negro”

Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

…..

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Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Tácito Costa 8 de outubro de 2010 23:47

    Damata, os coments caluniosos e infames foram deletados. Aumentarei o rigor na liberação dos mesmos, principalmente em se tratando de pessoas desconhecidas. Na próxima, marco os coments deles como spams e ficamos livres para sempre. Receba minha solidariedade, meu reconhecimento pela sua contribuição ao SP e um grande abraço. Não ligue para esses invejosos.

  2. Ednar Andrade 8 de outubro de 2010 21:18

    Sabe querido, acredito que estás fazendo um comentário um tanto atrasado em relação a uma crítica que te fizeram. Fiquei triste, você tão digno,uma pessoa tão importante no SP, de tão boa índole,tão querido. Vi, até comentei aqui entre os meus: – Que coisa, ninguém merece! Muito menos o meu amigo Da Mata, pessoa cheia de boa vontade, colaborador do SP. Com certeza,durante a digitação,houve uma substituição involuntária de letra, a substituição de Régio por Sérgio. Hoje mesmo, quando comentaste meu texto “Pinot Noir (O Amor)” respondi ao teu comentário,mas não observei que antes de mim,uma pessoa do meu convívio havia postado no SP e tão somente por isso, permaneceu lá a sua conta e eu, distraída que estava, apenas enviei o comentário, para depois ver que entrou em nome de outra pessoa e não no meu. Normal, acontece. Palavra: fiquei aborrecida com o que disseram contigo. Não vou me prolongar, para não criar uma situação de conflito, pois não faz parte da minha índole. Enquanto ao nosso amigo Tácito, que não conheço de hoje, é e sempre foi uma pessoa de paz e prima pela liberdade. Com certeza, também está muito aborrecido, creio.

    Aproveito para dizer que quando fores ler a resposta ao comentário que fizeste ao meu poema “Pinot Noir (O Amor)”,a que está valendo é a que está em meu nome; a outra foi um equívoco. E quero em público aqui dizer-te que gosto de ler-te. Amo ler-te e que fico muito feliz quando vejo que tens um novo texto. Gosto, viajo, sinto-me viva, pois vejo o quanto prezas o tempo, coisa que nem todos fazem nesta vida descartável. Beijos querido.

    Qualquer noite dessa será noite de Lual, mandarei o convite ao SP.Por favor, não faltes. Esta amiga que te admira.

  3. João da Mata 8 de outubro de 2010 19:40

    Caros Abott e Rômulo Lemos, boa noite

    Em casos como esse o Tácito recomenda não responder. No meu caso eu filtraria os comentários desabonadores e agressivos de voces, pois eles não ajudam no propósito que é o bom convívio e a fraternidade que caracterizam a troca de informações no SPlural

    Não os conheço e pediria um pouco mais de gentileza. Quem é você, Abott, para acusar o meu caráter. Não vou discutir com você e não preciso mostrar erudição. O que escrevo é uma tentativa de contribuir para o debate e para a informação, não é para me mostrar. Vocês poderiam contribuir com o SPlural com seus textos e analises. Escrevi Sérgio, em vez de Régio por pressa no meio de outras tantas atividades. Muitas vezes na net cometemos esses pequenos deslizes.

    Tácito, amigo, peço providencias
    Cordialmente

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