Meu Amigo Belchior


Acharam Belchior “escondido” na Colônia de Sacramento, no Uruguai. Passei por lá em fevereiro deste ano. É um lugar tranquilo, próximo ao porto; reduto histórico do país. É como se fosse nossa Ribeira, com os chãos todos semelhantes às pedras antigas da Travessa Pax.

Nem imagino se eu visse Belchior naquele fevereiro em que vivia um misto de dor e paz, pós-morte do meu pai, mas ao lado da família. Sou fã do cara já faz um tempo. Quando esteve aqui, antes mesmo da entrevista postada mais abaixo, tentei outra conversa no flat onde estava hospedado, em Ponta Negra. Mas só deu pra comprar os dois Cds de poemas de Drummond musicados por Belchior junto ao empresário. Coisa rara. E cara.

Abaixo segue um texto que escrevi à época. Acho que em meados de 2005. Foi publicado em O Poti, na coluna de Carlos Magnos Araújo:

Meu Amigo Belchior

Grata surpresa tive esse semana ao saber do show de Belchior que se realizou no dia 9no Centro de Convenções. Acho que todos têm lá suas preferências musicais. Tenho muitas também, e bem ecléticas: Beatles, Los Hermanos, Luiz Gonzaga, Bob Marley… Mas destas guardo a sensação de que compartilho com outras milhares de pessoas. Com o Belchior é diferente. Ele não é tão popular quanto minhas predileções citadas. E por isso penso sempre que posso ser seu fã nº 1. Acho – como todo fã que se pensa o nº 1 – que entendo suas mensagens melhor que ninguém. Somos cúmplices em muitas delas.

Nesse mundo de solidão e solidões, tenho Belchior como bom amigo. É como se vivêssemos os mesmos problemas e algumas poucas alegrias. Somos parecidos. Como ele, também sou mero rapaz latino americano sem dinheiro no banco. Num desses dias mofados do cotidiano, em que as tardes se alongam por horas congeladas, sem ninguém pra ver, onde os acasos se mostram apenas nos quarteirões ao longe, senti saudades do Belchior. E ele, como se entendesse minha agonia de rotinas arrastadas, disse: “Por força desse destino um tango argentino vai bem melhor que um blues”.

Comovido com minhas desesperanças, o amigo quis passar alguma alegria: “Você não sente e nem vê, mas não posso deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança, em breve, vai acontecer”. Desta vez discordei. Já não guardo o mesmo entusiasmo de outrora. Os tempos são outros e a estrela vermelha tornou-se preta e branca. Continuamos como nossos pais. Ele concordou, e acrescentou: “O passado é uma roupa que não nos serve mais”.

Belchior gosta de exaltar o passado, os bons momentos vividos na juventude. Ele traz um saudosismo doído em sua voz; uma melancolia infinda. O conheço bem. Ele sempre se lamenta dizendo: “O passado, nunca mais”, ou “O tempo andou mexendo com a gente, sim”. Em outro instante, quase em prantos, quis desabafar: “O que é que eu posso fazer com a minha juventude, eu um simples cantador das coisas do porão? Olho diferente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história pó. Não há motivos para festa. A hora é esta. Eu não sei rir à toa”.

Desta vez tentei eu consolá-lo com ilusórias promessas de felicidade. Mas meu amigo Belchior também se mostra desiludido das coisas do presente: “Fique você com a mente positiva. Eu quero é a voz ativa. Ela é que é uma boa”, respondeu-me. Em comentários sobre John – um outro amigo íntimo nosso – Belchior disse, como quem estivesse cansado destas frases imperativas dos outdoors, dessas leis morais desgastadas, do cárcere da vida moderna: “Saia do meu caminho. Eu prefiro andar sozinho. Deixem que eu decida minha vida. Não preciso que me digam de que lado nasce o sol, porque bate lá meu coração”.

E, sabedor das armadilhas destas propagandas que prometem o sucesso da vida, completou: “A felicidade é uma arma quente!”. Então, relembrei uma frase que havia me dito ainda no começo de nossa amizade e que nunca mais esqueci: “Graças a Deus perco sempre o juízo”, Belchior. “É, Sérgio, viver é melhor que sonhar”, respondeu meu amigo, cantador das coisas do porão.


Acharam Belchior “escondido” na Colônia de Sacramento, no Uruguai. Passei por lá em fevereiro deste ano. É um lugar tranquilo, próximo ao porto; reduto histórico do país. É como se fosse nossa Ribeira, com os chãos todos semelhantes às pedras antigas da Travessa Pax.

Nem imagino se eu visse Belchior naquele fevereiro em que vivia um misto de dor e paz, pós-morte do meu pai, mas ao lado da família. Sou fã do cara já faz um tempo. Quando esteve aqui, antes mesmo da entrevista postada mais abaixo, tentei outra conversa no flat onde estava hospedado, em Ponta Negra. Mas só deu pra comprar os dois Cds de poemas de Drummond musicados por Belchior junto ao empresário. Coisa rara. E cara.

Abaixo segue um texto que escrevi à época. Acho que em meados de 2005. Foi publicado em O Poti, na coluna de Carlos Magnos Araújo:

Meu Amigo Belchior

Grata surpresa tive esse semana ao saber do show de Belchior que se realizou no dia 9no Centro de Convenções. Acho que todos têm lá suas preferências musicais. Tenho muitas também, e bem ecléticas: Beatles, Los Hermanos, Luiz Gonzaga, Bob Marley… Mas destas guardo a sensação de que compartilho com outras milhares de pessoas. Com o Belchior é diferente. Ele não é tão popular quanto minhas predileções citadas. E por isso penso sempre que posso ser seu fã nº 1. Acho – como todo fã que se pensa o nº 1 – que entendo suas mensagens melhor que ninguém. Somos cúmplices em muitas delas.

Nesse mundo de solidão e solidões, tenho Belchior como bom amigo. É como se vivêssemos os mesmos problemas e algumas poucas alegrias. Somos parecidos. Como ele, também sou mero rapaz latino americano sem dinheiro no banco. Num desses dias mofados do cotidiano, em que as tardes se alongam por horas congeladas, sem ninguém pra ver, onde os acasos se mostram apenas nos quarteirões ao longe, senti saudades do Belchior. E ele, como se entendesse minha agonia de rotinas arrastadas, disse: “Por força desse destino um tango argentino vai bem melhor que um blues”.

Comovido com minhas desesperanças, o amigo quis passar alguma alegria: “Você não sente e nem vê, mas não posso deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança, em breve, vai acontecer”. Desta vez discordei. Já não guardo o mesmo entusiasmo de outrora. Os tempos são outros e a estrela vermelha tornou-se preta e branca. Continuamos como nossos pais. Ele concordou, e acrescentou: “O passado é uma roupa que não nos serve mais”.

Belchior gosta de exaltar o passado, os bons momentos vividos na juventude. Ele traz um saudosismo doído em sua voz; uma melancolia infinda. O conheço bem. Ele sempre se lamenta dizendo: “O passado, nunca mais”, ou “O tempo andou mexendo com a gente, sim”. Em outro instante, quase em prantos, quis desabafar: “O que é que eu posso fazer com a minha juventude, eu um simples cantador das coisas do porão? Olho diferente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história pó. Não há motivos para festa. A hora é esta. Eu não sei rir à toa”.

Desta vez tentei eu consolá-lo com ilusórias promessas de felicidade. Mas meu amigo Belchior também se mostra desiludido das coisas do presente: “Fique você com a mente positiva. Eu quero é a voz ativa. Ela é que é uma boa”, respondeu-me. Em comentários sobre John – um outro amigo íntimo nosso – Belchior disse, como quem estivesse cansado destas frases imperativas dos outdoors, dessas leis morais desgastadas, do cárcere da vida moderna: “Saia do meu caminho. Eu prefiro andar sozinho. Deixem que eu decida minha vida. Não preciso que me digam de que lado nasce o sol, porque bate lá meu coração”.

E, sabedor das armadilhas destas propagandas que prometem o sucesso da vida, completou: “A felicidade é uma arma quente!”. Então, relembrei uma frase que havia me dito ainda no começo de nossa amizade e que nunca mais esqueci: “Graças a Deus perco sempre o juízo”, Belchior. “É, Sérgio, viver é melhor que sonhar”, respondeu meu amigo, cantador das coisas do porão.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

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  1. Carlos Augusto [Floyd] 31 de Agosto de 2009 15:11

    O Belchior estava ‘na paz’ aí vem a turma da GROBO perturbar a vida do pobre coitado…

    é foda.

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