Meu amigo Totonte

Quando você se torna carrasco de outros seres vivos é sua própria liberdade que está em jogo; como explicar para um filho na primeira infância que animais são mortos por diversão? Segue uma tentativa particular.

A chifrada foi certeira na barriga do leão, que agonizou poucos segundos antes de morrer na savana africana. O gigante lendário como suposta montaria das hordas do mongol Gengis Khan veio em socorro a um filhote do bando, assediado pelo felino esfomeado. Ernesto olhava para a tela congelado.

Meu vacilo paterno se deu por segundos de descuido com a seleção natural youtubiana, que lançou um documentário com um desses títulos “Os 10 maiores assassinos da natureza”, uma demonização de bicho que só vendo, logo depois de um musical infantil em animação.

Rinocerontes, hipopótamos e gorilas estão bem presentes em minha rotina, de um ano e pouco para cá. São animais queridos por Ernesto, mesmo que exemplares ‘naturais’ ou reais estejam a milhares de quilômetros de distância. Raros são os banhos em que não preciso lavar um menino e um boneco do mamífero gordão.

Em seu linguajar incipiente, é o “Totonte”, o “Popótum” e o “Duíla”.

Encantado com o encanto de meu filho, busquei informação sobre eles, pois acredito que todo bicho tem algo a nos ensinar. Basta nosso nível de curiosidade sair do modo standard.

Roosevelt_safari_elephantBrincar de lord inglês do século XIX pode custar caro

Cerca de uma semana atrás, li que um caçador foi devorado por leões, em um parque privado na África do Sul. “Bem feito!”, é o que nos salta de imediato. Sujeito gasta milhares de dólares para brincar de lord inglês do século XIX e fuzilar animais em extinção.

Na mesma notícia, o dado que me pegou: todos os anos são mortos mais de mil rinocerontes na África. Mil! São as maiores vítimas da matança recreativa. Um bicho que nasce após dois anos de gestação, sempre um filhote de cada vez.

Ou seja: no ritmo que a coisa vai, os filhos de Ernesto, ou os netos, só saberão que eles existem como registro arqueológico, em livros ou museus, feito dinossauro – o desprezo pelo Reino Animal e tudo que envolva a natureza ocorre por aqui também, no Brasil e no Rio Grande do Norte.

E o que o sumiço de um bicho africano afeta nossa vida?

Minha tentativa de resposta é que, para nos afirmar como indivíduos, devemos comunicar e construir sentido das experiências, o que inclui o contato com a arte, a natureza e nossos antepassados.

Essa ‘memória’ é o que nos ajuda no combate à alienação e à toxidade do dia a dia. Questão de civilização ou barbárie, como prega o próprio europeísmo do caçador degustado pelos leões.

Meu amigo Totonte.2Rinocerontes em extinção e nossa liberdade em jogo

Hoje existem cinco espécies de rinoceronte no planeta. Dois na África e três na Ásia. Já adultos, o único predador é o homem. Os enormes mamíferos são sem rivais na savana e nas florestas, durante os 50 anos de vida (em média). Todos eles estão em extinção. O branco, na verdade, cinza claro, é a espécie mais comum e de maior porte (africano), cujo peso pode chegar até 2,5 toneladas.

Matar um bicho desses com uma arma de fogo deve ser moleza. O que não é tão fácil entender é o tamanho do vazio, da presunção, da futilidade do ato. O cara mata o bicho pelo prazer de vê-lo tombar – seria como derrubar uma conífera milenar para escutar o barulho do impacto no solo.

Quando você se torna o carrasco de outros seres vivos é sua própria liberdade que está em jogo. A violência urbana brasileira é o exemplo perfeito. Nos acostumamos a ver crimes atrozes de um jeito que agora estamos cercados, sem saber para onde correr – ecoam gritos de intervenção militar, como solução final, sem que o perigo de tal medida esteja claro para seus defensores.

Pode parecer exagero de minha parte, palavras escritas a esmo para encher esta nota cinza, em um dia nublado na Capital do Sol. Talvez, sim. Mas foi o que matutei aqui após a chifrada do rinoceronte no leão, ao pensar no futuro da pós-ingenuidade de Ernesto.

Orwell
George Orwell era chefe da polícia num vilarejo da Birmânia (atual Mianmar), então parte do Império Britânico, quando uma elefante enlouquecido aterrorizou nativos; ele foi convocado para dar cabo do animal e contou a historia em “O abate de um elefante”.

Dois textos sobre o tema

Relembro dois textos relacionados ao tema Humanos x Animais. O primeiro de George Orwell, intitulado O Abate de um Elefante. O segundo, de David Foster Wallace, Pense na Lagosta. Dois primores de escrita e questionamentos sobre nosso papel neste planeta.

Orwell era o chefão da polícia imperialista inglesa num vilarejo na Birmânia (atual Mianmar), quando um paquiderme ensandecido aterrorizou a localidade. Pelo cargo que ocupava, os nativos o procuraram para resolver a bronca.

O elefante tinha destruído plantações, matado um homem e uma vaca e comia quieto num trecho da mata vizinha. A lucidez com que Orwell analisa o ato de matar um animal tão grande e poderoso (e sobre o poder que detinha em mãos, como funcionário de um império) é pra virar texto base nas escolas.

Assim como o textaço de Foster Wallace, uma odisseia taxonômica em um festival de lagostas no Maine que virou clássico na ‘literatura ecológica’, tamanha riqueza de ideias sobre o crustáceo e nossa mania de comer carne animal. Se sou professor de biologia do Ensino Médio, lê-lo virava tarefa de casa.

Wallace pergunta: “[…] é possível que as gerações futuras considerem as práticas de agronegócio e alimentares contemporâneas da mesma maneira como hoje enxergamos os espetáculos de Nero ou os experimentos de Mengele?”. O Totonte que Ernesto gosta tanto não entra no pacote gastronômico, mas entendeu o que eu quis dizer? 

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