meu cu: minha bandeira

Berenice Bento insiste em traduzir Teoria Queer para Teoria Transviada como esforço no sentido de manter o impacto que a palavra queer (bicha) tem dentro de uma instituição mofada como a academia. “Mas de que serve esse impacto”, hão de perguntar os menos sagazes. Ora, imaginem que o termo “queer”, aos de língua inglesa, assim como o “bicha” para nós, tem servido arbitrariamente como xingamento, e que esse tipo de discurso (heteronormativo à médula) engendra e difunde uma prática de que todos os calhordas politicamente corretos hoje tentam se redimir: a homofobia. O esforço de Berenice, assim como o meu e o de todos os outros que dedicam esforços à visibilização da experiência transviada, portanto, consiste numa reapropriação de termos marginalizados dentro de uma estrutura de discursos heteronormativa com a finalidade de subverter relações de poder entranhadas nas pragmáticas sociais.

Do mesmo modo, quando o STA! sobe no palco e canta a Dança da Passiva (“dança da passiva: abre o cu e mete a pica”) o impacto político não é diferente. O cu, apesar de ser um buraco que todo mundo tem (inclusive a sua mãe), é, sem dúvida alguma, a área do corpo mais interditada pelas normas de gênero na medida em que (no nível da atividade sexual) faz exceder o sexo meramente reprodutivo e possibilita práticas sexuais não-cartesianas em relação ao papai-e-mamãe binário outorgado pelo arbitrário cultural. No nível do discurso, onde tudo aflora, o tradicional “vai tomar no cu” (enquanto insulto) não representa outra coisa senão uma forma bastante sutil de repressão. E a castração simbólica não pára por aí: podemos retornar à época da Inquisição quando a Santa Igreja fazia uso de instrumentos de tortura como a Mesa de Evisceração – um cilindro enorme de ferro maciço enterrado como castigo no cu dos hereges. Nosso corpo é um território repleto de fronteiras delimitadas à revelia de nós (biopolítica). E o que Pedro Costa faz, quando tira do cu o terço, quando sobe no palco de fio dental pro show da Solange Tô Aberta!, é reivindicar o domínio de suas próprias fronteiras e suscitar uma liberdade vital que só pode ser exercida por meio da consciência do próprio corpo enquanto célula política.

Comentários

Há 9 comentários para esta postagem
  1. Godot Silva 14 de novembro de 2011 9:10

    – Esse comentário é muito bom!

    – Conhece?

    – Conheço. Quem é?

    (risos)

  2. S.O.L. 13 de novembro de 2011 21:45

    Sinceramente, este é realmente muito grande, jota. E aquele,…, só disse sobre si no fim das contas, e só.

  3. Jota Mombaça 13 de novembro de 2011 20:14

    Dada a existência conforme se comprova nos trabalhos publicados de Puncher e Wattmann de
    um Deus pessoal quáquáquáquá de barbas brancas quáquáquáquá fora do tempo fora do espaço
    estando fora da hipótese de compreensão que do alto de sua divina apatia divina atambia divina afasia a
    todos ama profundamente com algumas exceções por razões desconhecidas mas o tempo dirá e sofre
    como o divino Miranda com aqueles que por razões desconhecidas mas o tempo dirá estão
    mergulhados no tormento mergulhados no fogo cujo fogo da flama se durar e quem pode duvidar
    incendiará o firmamento isto é atirar o inferno ao céu tão azul tranqüilo e calmo tão calmo com uma
    calma que mesmo vista como intermitente é melhor que nada mas não tão rápido e considerando o que
    é mais que um resultado dos trabalhos inacabados concluídos pela Acacacacademia de
    Antropopopometria de Essy-em-Possy de Testew e Cunnard fica estabelecido descartando-se todas as
    dúvidas todas as outras dúvidas que o que é permitido aos cálculos humanos assim como o resultado
    dos trabalhos inacabados de Testew e Cunnard consta a seguir mas não nos apressemos não tão rápido
    por razões desconhecidas que tendo em vista um resultado dos trabalhos publicados de Puncher e
    Wattmann estão estabelecidas acima de qualquer dúvida que tendo em vista os esforços de Fartov e Belcher deixados incompletos por razões desconhecidas de Testew e Cunnard inacabadas fica
    estabelecido quantos refutam aquele homem em Possy de Testew e Cunnard aquele homem em Essy
    aquele homem enfim resumindo que o homem em resumo apesar dos progressos na alimentação e na
    defecação perdas e rejuvenescimentos perdas e rejuvenescimentos e ao mesmo tempo
    simultaneamente por razões desconhecidas apesar dos progressos na cultura física na prática de
    esportes como tênis futebol atletismo ciclismo natação aviação mergulho equitação pára-quedismo
    conação camogie patinação tênis de todos os tipos morte aviação esportes variados outono verão
    inverno inverno tênis de todos os tipos hockey de todos os jeitos penicilina e sucedâneos em poucas
    palavras eu resumo aviação pára-quedismo golfe de nove e de dezoito buracos tênis dos mais variados
    tipos em poucas palavras por razões desconhecidas em Feckham Peckham Fulham Clapham nomeando
    ao mesmo tempo simultaneamente o que por razões desconhecidas mas o tempo dirá definha
    resumindo Fulham Clapham em poucas palavras a morte per capita desde a morte de Bishop Berkeley
    sendo de uma polegada e um quarto per capita aproximadamente e muito mais ou menos próxima a
    medida decimal arredondada determina os pés descalços em Connemara em poucas palavras por razões
    desconhecidas não importa o que importa os fatos estão aí e considerando o que é mais muito mais
    grave que a luz a luz à luz dos esforços perdidos de Steinweg e Peterman parece o que é muito mais
    muito grave que a luz à luz a luz à luz dos trabalhos perdidos de Steinweg e Peterman que nas planícies
    nas montanhas pelos mares pelos rios água corrente correndo fogo corrente o ar é o mesmo e então a
    terra quer dizer o ar e então a terra no grande frio no grande escuro o ar e a terra transformam-se em
    pedra no grande frio tristemente no ano de seu Senhor seiscentos e alguma coisa o ar a terra o mar a
    terra transformam-se em pedra nas profundezas o grande frio no mar nas terras e no ar resumindo por
    razões desconhecidas apesar do tênis os fatos estão aí mas o tempo dirá em resumo tristemente em no
    enfim justo em frente em transformar-se em pedras quem pode duvidar resumindo mas não tão rápido
    sem pressa eu resumo o crânio sumindo sumindo sumindo e concomitantemente em paralelo o que é
    mais por razões desconhecidas apesar do crânio o crânio o crânio em Connemara apesar do tênis os
    cálculos abandonados inacabados enterrados ainda abrigando pedras em poucas palavras resumindo é
    uma pena tristemente abandonadas inacabadas o crânio o crânio em Connemara apesar do tênis do
    crânio das pedras Cunnard —

  4. Godot Silva 13 de novembro de 2011 16:44

    Isso mais parece uma missa. O avesso do avesso… Um comentário idiota… Dizer por dizer – Coitado de Nietzsche. Onde está o sentido das coisas e as asas da imaginação? Sinceramente, que merda!!! Wenn Sie nicht schreiben können, schreiben Sie nicht!

  5. S.O.L. 12 de novembro de 2011 16:24

    E aí não só o “vá tomar no cu”, mas o “foda-se”, o “filho da puta”, a “rapariga”, o “é foda”, o “escroto”, o “caralho”, a “buceta”.
    A mesa de evisceração não era a unica brincadeira da inquisição, muito menos a favorita. O cu não é a única área do corpo interditada, o corpo está interditado por inteiro, e defender exclusivamente o direito ao cu condenando o papai-e-mamãe (já amplamente ojerizado) não compre nada senão estabelecer mais um par de oposição e manter o paradigma de que sexo (anal, vaginal, oral, etc) é feio e se alguém o faz não deve publicar.
    Se solange-estou-aberta não for exatamente a mesma coisa que NX-ZERO (duas coisas pelas quais não me interesso) verificamos um prolema. Não a ouça quem não quiser e enumerar razões de qualquer ordem para ouvir ou não uma música não é pertinente em circunstância alguma. O que temos aqui, no nosso mundo, é um embate de cristãos, a filosofia cristã de salvar/condenar o outro se traveste em arte, critica e revolução. Querer que o outro ouça solange-estou-aberta e dê o cu é tão bom quanto querer que o outro não ouça e não dê. Mudamos o nome do messias, mas não mudamos o pilão que queremos usar para soca-lo, queers, vegetarianos, intelectuais, evangélicos, saradões. Mudamos o recheio do pastel de carne para soja, mas não conseguimos abandonar o pastel. Mudamos o recheio da lasanha de queijo para berinjela, mas precisamos da ideia da lasanha e não basta eu comer meu pastel e soja. Todos precisam comer. Respeito é não interferir em nenhum pastel que não nos pertença, lembrando que quem mantem-se neutro numa situação de opressão está tomando o partido do opressor. Nem abaixem e nem aumentem o som das solanges, as deixem ser.

  6. Jota Mombaça 2 de novembro de 2011 17:31

    Eu explico: Beckett me inspira! E vá (!), faça boa viagem (!) e não se preocupe comigo (!) : não sou de ficar Esperando Godot…

  7. Godot Silva 2 de novembro de 2011 16:43

    Olha Monbaça, infelizmente somente agora, às 16:30 horas, foi que li o teu comentário. Não vai dar pra dizer muita coisa, pois viajo às 19:00 horas para o país dos Kirchners, onde passarei alguns dias de férias… Gostaria, no entanto, de fazer um pequeníssimo comentário: Você continua confuso, também numa roda de fumo – brincadeirinha –. Não existe esse papel que você quis, subindo as paredes, demonstrar. Se você atento queria trazer à lembrança, segundo sua própria experiência e de amigos, o efeito integral e puro da arte de Pedrinho, julgo ter reduzido o seu comentário – aí sim – a um verticalizador, não de condutas, mas de palavras, pois não entendi bulhufas! Escrever, meu caro J é preciso, viver não é preciso, entendes! Por que não aproveita a última frase para um poema? (risos)… Vc realmente não entendeu… Mas é inteligente e vai chegar lá, aonde não sei… Adiós amigo, gracias!

    Em tempo.: Não esperem por mim, estarei ausente por 12 dias, descansem! (risos)

  8. Jota Mombaça 2 de novembro de 2011 14:51

    Sabe que ontem, Godot, numa despretensiosa roda de fumo nos corredores da universidade de onde sou aluno, comentávamos, eu e meus colegas, sobre como é patético o papel do intelectual na medida em que todo papel, enquanto estrutura anterior ao indivíduo, configura uma fôrma institucional, um verticalizador de condutas. Mas não cremos (eu e meus colegas) em estruturas inescapáveis – talvez pelo fato de nossas pragmáticas estarem ocupadas em desviar tais ratoeiras, desiventar identidades que se nos impõe por meio de processos que você, vide suas longas falações acerca de tudo, certamente conhece tão bem quanto – ou mesmo melhor que – eu. Curiosamente, o próprio teatro, em sua aventura pós-dramática (desteatralizante), nos acompanha: a própria noção de personagem (estrutura fascista, exterior ao ator, assimilada por meio da introjeção) foi amplamente desconstruída para dar lugar a uma sinceridade visceral do ator, que a esta altura não mais assume papéis mas expõe – e por vezes exorciza – construções arraigadas, desentranhando-as, extrojetando sentidos intestinos, expondo-se para refundar-se na vida como obra de arte – feito Beatriz Preciado e sua auto-etnografia regada a doses ilegais de testorena; Joseph Beuys e seu mito pessoal inventado; ou mesmo qualquer transsexual que você porventura conheça. Nesse sentido, da arte da refundação de si, em vez da busca estética pela novidade – não havendo novidade possível e isso sendo perfeitamente sabido por todos -, nota-se o exercício de outras éticas, a emergência de formas novas de existência. Já somos poemas de carne e osso e não mais públicos ávidos por espelhos.

  9. Godot Silva 1 de novembro de 2011 23:25

    Se, nos dias atuais, soubesse que teria um pouco de simpatia
    para essa causa do corpo, talvez – quem sabe! –, ofereceria
    um prêmio para a melhor resposta à seguinte pergunta: de um ponto
    de vista artístico, qual é mais expressionista, o CÚ em si ou o CORPO
    em sua total dimensão? – Eis a questão. Não obstante, qualquer que
    seja a forma em que se trate de justificar racionalmente uma conduta,
    é evidente que os motivos são, algumas vezes, estranhamente complexos.
    Uma coisa é um jovem idealizar, através de seu corpo, uma personagem
    extravagante, escrachada, que saía dos limites impostos pelos preconceituosos e suas pudicas razões, e outra, completamente diferente, é o compromisso de satisfazer as expectativas e desejos de uma platéia que, apesar de jovem, não se libera homogeneamente porque lhe falta espelho, ou seja, medida do que pode, ou não, ser explorado. Ainda é preciso saber que a ameaça do tédio existe e é perpétua, como dizia Kierkegaard, porque ele exige constante defesa. Olhe. Não somos tão avançadinhos assim. Em algum momento da vida
    vamos nos deparar com os preconceitos – deles e nossos –, pois despir-se do ontem é um exercício. Por conseguinte, a busca estética de novidade conduz, em última estância, ao desespero. Assim, o renascimento da tragédia, como dizia Nietzsche, faz renascer igualmente o ouvinte estético, no lugar do qual costumava estar sentado, nas salas de teatro, um estranho quidproquo, de pretensões meio morais e meio eruditas, O CRÍTCO.

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