Meu Currículo Late

Meu nome é Enoleide, Enó, pra quase todo mundo.  E Au-au, ou Aiiimmm, prá meu cachorro Bob. É assim que ele me chama ou pede minha atenção.

Ainda há pouco, quando tomávamos café, uma das minhas filhas, a Mais-mais, falou no BBB e então eu pedi: me inscreva.  Não sei se ela vai me inscrever, mas na hora eu falei: envie o meu currículo com o título: Meu Currículo Late.

Por que? Porque bem nesse momento, por debaixo da mesa, meu pequeno Bob me roía as unhas dos pés e sempre que eu procurava me safar das mordidas ele latia. Meu Bob foi a minha inspiração.

Mais-mais é minha filha mais nova, adotiva.  Tem 25 anos e é enfermeira.  Mas eu tenho duas outras filhas, biológicas: a Tudo-na-Vida, que tem 42 anos e é professora de Inglês.  E a filha do meio, a Melhor-do-Mundo, que tem 41 anos, é pedagoga, e foi adotada por meu irmão mais velho, quando tinha pouco mais de um ano.

Tá parecendo complicado?  Pois é: sou mãe biológica, doadora e adotiva.  E nessa parte do currículo, acrescento que sou avó de um casal, com mais de 20 anos, Oscar, que não tem apelido, e Débora que eu chamo de Minha-Veia. Também sou bisavó de um “Bisolindo”, Otávio, de 4 anos. Bom, mas aí já se vão quatro gerações, então eu acho que de pedigree Meu Currículo Late já está bem servido.

O que eu sou mais? Lá no outro currículo, o Lattes, diz que eu sou jornalista há mais de 30 anos, servidora pública há 38, e professora de Filosofia concursada há mais de 10, mais que só há poucos meses começou a ensinar.  De forma remota, né? Porque quando assumi o novo emprego, em abril deste ano, já estávamos na quarentena. 

Aff!  Eu até já acreditava que tinha desistido de lecionar Filosofia, porque aprovada por três vezes em concursos públicos, nunca dava certo a assunção.  Mas, enfim, deu.  E a assunção faz parte dos meus “Encantos da Quarentena”, uns escritos que faço aqui e acolá, prá marcar esse tempo chato de isolamento social.

O que eu sempre fui?  Tem coisas que a gente foi um dia e vai ser pro resto da vida.  Eu sou sertaneja e acho que carregarei essa emblemática condição por toda a minha vida. Mas eu não sou daquelas sertanejas que pensa que dá pra viver só de amor e uma cabana. Não, eu acho que a cabana é um abrigo desconfortável, e que se for pra vida toda vai acabar o encantamento dos amantes.  Também sou apreciadora da prosa de Raquel de Queiroz e José Lins do Rego, e dos portos de Jorge Amado. 

O que mais eu sou? Mulher e amiga.  Incondicionalmente mulher! Que casou e se divorciou; se juntou e se separou; se ocultou e se assumiu, se resguardou e, enfim, se revelou. Porque há um tempo na vida que basta ser o que somos.  Basta ser feliz.  Esse é o meu tempo, agora.

Já como amiga, minhas amigas e amigos, todos, dizem o que sou “Uma boa amiga”. É o que eles dizem, mas eu, que não acredito e nem busco a unanimidade, dou um pequeno desconto aí. Tenho amizades de mais de 50 anos, porém, as amizades da meninice não subsistiram à minha “Triste partida” do interior para a capital. Contudo, ao longo de mais de 60 anos, consolidei algumas. As mais significativas são alguns ex namorados e namoradas, alguns colegas do tempo de faculdade e as Meninas da Agecom, um grupo de amigas da Universidade onde ainda trabalho. E por fim, uma amiga evangélica, da década de 70, que passo anos sem ver, mas que quando vejo é uma festa. Dela guardo uma das melhores demonstrações de amizade, de bem querer, que noutra crônica eu conto.

Ah, prá finalizar vou falar sobre o que ainda não sou, mas que serei, com certeza.  Uma BBB, uma escritora e uma viajante. 

Uma BBB porque este Meu Currículo Late é pra tentar convencer vocês a me aceitarem. Não levarei o Bob. Prometo!

Uma escritora porque escrevo umas coisas vez em quando, que gostaria que mais pessoas lessem.  Mas ainda não tive como publicar. E se eu quiser que as pessoas leiam há dois caminhos: escrevo na internet ou publico livros para doação. Como internet é algo caro, nem todo mundo que eu gostaria fosse meu leitor, pode ter; e os livros, caros também, não está entre as prioridades da maioria.

E quero ser uma viajante porque viajar é preciso em qualquer tempo ou estação. Quero viajar prá aprender espanhol.  Na Colômbia, de “Escobar” Wagner Moura ou no Panamá, do canal que quero conhecer. Mas, também, pode ser ali pelo Uruguai do terno escritor de terror, Horácio Quiroga.

É claro que tem muitas outras histórias nesses meus mais de 60 anos.  Mas às vezes eu não lembro de pronto, então vou deixar prá contar algumas lá, na Casa do BBB.  Vocês vão deixar, né?

É isso.  Até lá e um au-au de Bob pra vocês.

Ps:

Minha filha não enviou o meu Currículo Late. Não sei o porquê.

A crônica é de 2020, escrita depois que Bob chegou.

Em 6 de julho deste ano Bob completou um ano.

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