Meu pai na memória

“E se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou” (Jota Quest – trecho da canção “O Sol”, eternizada na voz de Milton Nascimento).*

Nunca pensei muito num momento como este. Talvez por receio. Talvez por não ter lido melhor Norberto Bobbio e o seu “O Tempo da Memória”, que agora tenho em mãos numa edição da Campus. E assim, sem que eu fizesse previsões, estabelecesse prioridades, refletisse acerca de iniciativas e providências pessoais, o tempo chegou. O tempo da despedida e das lembranças de um tempo. Não da despedida de um ídolo pop, de um intelectual de relevo, de uma autoridade, de um amigo. Mais. Muito mais do que tudo isso, o tempo que me invadiu janelas e portas, a partir de uma gélida lufada de vento, foi o tempo da despedida do meu pai, o último encontro. O silêncio me vestiu com sua manta e embargou minha voz, suprimiu minhas palavras. Um leve e translúcido pano caiu na escuridão do abismo, nos arrecifes das lembranças. Foi carregado por ondas espumosas. E agora, somente agora, tento jogar alguns bosquejos nessa folha em branco que me parece posta no horizonte, lá longe, como se fugindo do meu olhar cansado e sofrido desses dias de luto.

É o olhar do meu pai que alivia esse meu olhar de fadiga. Mesmo que ele me mire, já não mais a partir deste plano terreno, mas de uma dimensão cheia de luz, caminhos novos, certamente por veredas em que o frescor dos arbustos e árvores, o canto matinal dos pássaros, o sol intenso e protetivo (Ah! Como ele gostava do sol!), tudo mantendo a serenidade de que muitas vezes se precisa em vida, mas não há em demasia, há em falta nesta nossa época tensa e lotada de atribulações. É em meio à paz que vejo o meu pai. O meu pai, que era o meu país. O meu pai-continente, pleno de ensinamentos voluntários e involuntários. O seu olhar ainda me aponta os caminhos. E hoje, certamente, ele está no melhor deles.

À memória chegam aos poucos, pouquinhos lentos, imagens que vêm desde os meus primeiros momentos de infância, sempre sob o seu olhar intenso, diante de sua voz grave e perto de suas mãos macias e generosas, que também se fizeram rudes e duras quando acreditou que a lição grave permitiria formar filhos de forma adequada e reta. Formou, sim, os cinco filhos – quatro homens e uma mulher. Todos se encaminharam a partir dos primados da educação e do trabalho. Eram esses os seus balizamentos filosófico-pragmáticos. Jamais arredou desses parâmetros edificadores.

Lembro de milhares de vezes em que me estendeu a mão e me mostrou como alcançar as minhas metas de forma ética e digna. Lembro das palavras que me ensinou, quando eu tinha preguiça de consultar um dicionário. Lembro das massagens lenitivas que dava no meu peito asmático, em meio às crises sufocantes que eu vivia. Lembro dos sons do seu violão 7 Bocas/Del Vecchio muito antigo (ainda preservado na casa da minha mãe), que era afinado quase que tão grave quanto a sua voz. Recordo-me da conta sempre aberta na vetusta Livraria Universitária, permitindo-me comprar diretamente, sem a sua presença, os livros que eu necessitasse ou tão-somente quisesse, sem prévia consulta ao seu apertado orçamento. Recordo-me e vejo as suas assinaturas nos meus boletins de escolas primária e secundária, acompanhando pari passu, todos os meus instantes de vida estudantil.

O meu pai sempre esteve presente na minha vida. Nunca me faltou e nem aos meus irmãos e à minha linda mãe, sob qualquer aspecto. Era um cumpridor de tarefas, de compromissos, de palavra. Somente agora fico sem a sua palavra. Há, no entanto, a memória. E a memória fala muito, pelos cotovelos. Não me esquecerei do que vivemos juntos desde os meus primeiros momentos na rua Segundo Wanderley – incrustada nos quadriláteros do Barro Vermelho – até os veraneios animados e as comemorações do seu aniversário (31 de janeiro) na praia do “Barro Branco” (segundo o Tupi-Guarani e, conforme me ensinou o amigo Edgar Dantas, este é o significado de Tabatinga), onde o meu pai era conhecido como o “Barão de Tabatinga”, apelido carinhoso que o bom e velho Jaime Alves de Oliveira ganhou, por seu carisma e altivez atenciosa no tratamento com todos.

Soube de sua passagem quando eu estava longe, na Bahia, acreditando que, mais uma vez, ele estava ultrapassando a barreira da doença. Consegui retornar a tempo de me despedir, mesmo que o voo de volta a Natal tenha parecido eterno. Sobre as nuvens brancas e cinzas, lembrei que no réveillon deste ano, após o espocar dos fogos que vimos juntos lá do meu lugarzinho de morada, o meu pai balbuciou, com as dificuldades que já evoluíam: “– Vencemos mais uma batalha!”.

Verdade, meu pai. Mais uma, dentre tantas. Vencemos juntos. Estávamos de mãos dadas, o que simbolizava um abraço de toda a família. Todos juntos ali, de uma forma ou de outra, aprendendo a vencer batalhas a partir de sua lição forte e de sua firme e sempre estendida mão. É ela, sua mão, que beijo agora. E os seus cabelos brancos, lisinhos, lisinhos, perfumados sempre pelas mãos da minha mãe que continua e continuará aqui conosco, bela e cheia de energia, sempre nos lembrando quem o senhor foi e é, além do que representa para todos nós, família que muito lhe deve. Um dia nos encontraremos, todos de novo. Todos. A bênção, meu pai!

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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