“Meu Rei”, da diretora Maïwenn, resgata a desilusão amorosa

Infelizmente, por uma série de compromissos, sociais e de trabalho, não pude acompanhar como gostaria o Festival Varilux de Cinema francês, no Moviecom, encerrado domingo. Só deu pra assistir “Meu Rei”, dirigido por Maïwenn Le Besco, com Vincent Cassel, Emmanuelle Bercot (melhor atriz em Cannes no ano passado) e Louis Garrel.

Mas se não deu para ver muitos, pelo menos escolhi um que me agradou demais. Sem ter visto os demais, arrisco dizer que “Meu Rei” certamente figura entre os melhores da mostra. O filme abre no presente, com uma bela fotografia de uma estação de esqui. Vemos em seguida uma mulher esquiando, descendo a montanha em velocidade temerária. O que era previsível acontece. Ela sofre um acidente e machuca seriamente um dos joelhos.

A partir daí a história apresenta duas narrativas. Uma, no presente, mostrando a dolorosa recuperação, física e psicológica, de Toni (Emmanuelle Bercot); e outra no passado, que ocupa a maior parte do tempo, reconstrói o relacionamento conturbado dela com o sedutor Giorgio (Vincent Cassel).

É um filme que a muitos de nós parecerá íntimo e familiar. Acompanha o nascimento de um relacionamento amoroso. Fogo, promessas, paixão e flores no início. Altos e baixos em seu desenvolvimento. No caso, muitos mais baixos do que altos. E um desfecho, após longa expiação, que sinaliza para um recomeço, com cada um indo para um lado.

MON_ROI_25

O casal que está vivendo a experiência amorosa, claro, não enxerga que a história tem tudo para não acabar bem. Nós, do lado de cá da tela, vamos firmando essa convicção. No filme, é o irmão de Toni, Solal (Louis Garrel) quem lança esse olhar crítico sobre o relacionamento do e adverte a irmã várias vezes da “roubada” em que ela entrou.

O drama do casal que se ama, mas não consegue superar as dificuldades de relacionamento e acaba separando-se, após um doloroso processo de sofrimento e expiação é recorrente no cinema. Na vida real nem se fala. As marcas que esse tipo de rompimento lega são muitas vezes eternas e em alguns casos sem ajuda de terapia é impossível seguir adiante. No filme, vemos Toni conversando com uma psicóloga.

Minha dúvida com relação ao enredo de “Meu Rei” é se Giorgio amava de fato Toni porque ele não para de aprontar, chegando ao cúmulo de ser flagrado na cama com outra mulher. Um estranho, mas possível amor, a realidade que o diga. Ao mesmo tempo questionamos como Toni aguenta todas as faltas do marido. O que nos leva a pensar que depois de um certo tempo a relação virou algo doentio, num jogo de compensações e carências obscuras mútuas.

Trata-se de um filme que aborda um tema relativamente batido na história da humanidade e da arte, a desilusão amorosa. Uma questão, contudo, que jamais perdeu sua atualidade, seja na ficção, seja na realidade. No caso da ficção cinematográfica, dependendo do enfoque e da forma estética com que seja abordada sempre terá algo de novo a dizer ao espectador.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo