Meus casamentos

Não lembro exatamente quantos foram os meus casamentos, mas passam de uma dezena. A diversidade também é marcante: oficiais, oficiosos, civis, religiosos, gay e até matuto. Meus papeis variaram tanto quanto as formas com que os matrimônios a mim se apresentaram. É claro que eu fui a noiva, mais de uma vez, mas também fui a mãe da noiva, testemunha, convidada, madrinha e até dama-de-honra.

O primeiro dos meus casamentos foi quando eu era ainda muito pequena, nem sei quantos anos eu tinha. Também não sabia que tinha participado desse casamento até o dia em que a minha cunhada revelou que eu havia sido sua dama de honra e me mostrou uma foto amarelada, como são todas as fotos antigas. Na foto uma criança que eu não reconheci, mas que era eu mesma.

O casamento mais sonhado aconteceu quando eu tinha 17 anos e, como toda adolescente, pensava que o primeiro amor é para sempre. Então o casamento, eu pensava, é a consequência natural depois de tantos anos de idas e vindas de um namoro louco que começou quando eu tinha 14. Vã filosofia! Como ninguém vive só de amor e uma cabana, bastaram uns poucos meses para eu enxergar que outros maridos viriam com o tempo. E que iriam embora quando não houvesse mais por que ficar juntos.

Certa vez fui convidada para ser a madrinha de um casal numa cidade do interior. Não imaginava que iria participar de um momento tão importante na vida de duas pessoas, e tão sem importância na vida de tantas outras, próximas aos dois. Na Igreja, que era imensa, a principal da cidade, estávamos o padre, o sacristão, os noivos, eu e minhas duas filhas. Mas, os noivos estavam muito felizes e nós ficamos felizes também.

Mais tarde fui convidada para testemunhar a união de um viúvo que estava a casar com a amante de mais de 20 anos. Um amor que eu testemunhara e que admirava pela convicção dos dois. Sabiam-se amados um pelo outro, mas impedidos de proclamar esse amor por “princípios morais”, diziam. Casaram-se e foram felizes por muito tempo. Até que a morte os separou.

Conheço muitos casais homoafetivos, homens e mulheres, que convivem sob o mesmo teto, que dividem suas alegrias, tristezas e conquistas. Mas, um casamento gay eu nunca havia ido, e nesse fui como convidada. Eram duas mulheres e a cerimônia foi num bar. Um juiz oficializou as núpcias e as famílias comemoraram com muita alegria e com os muitos amigos presentes.

Foi no sítio, numa festa de São João que eu participei de um casamento matuto. Pensando bem, casar na fogueira é muito mais simples, dispensa proclamas, testemunhas, alianças e aquele rito longo dos casamentos civis e religiosos. No Nordeste, depois que “São João diz e São Pedro confirma”, uns três pulinhos na fogueira e você já pode correr para dançar forró de novo, casada e feliz, como fica todo mundo num casamento e numa festa junina.

A cerimônia mais longa da qual eu participei foi o casamento da minha filha, que eu chamo a Melhor do Mundo. É claro que foi a noiva mais linda que eu já vi. A cerimônia coletiva aconteceu em praça pública, numa cidade do interior e reuniu mais de 200 casais. Na plateia outras centenas de pessoas, que ouviam a transmissão por autos-falantes, por umas boas horas.

Mas, todo mundo parecia ter todo tempo do mundo: tempo para ver os casais desfilarem, atravessando a praça, ocupando os lugares que lhes foram destinados. Depois tempo para o sim, para as fotos, para o bolo… tempo para ser feliz.

Agora o meu último casamento. Depois dos preparativos iniciais, me coube entregar o convite ao pai da noiva, que deveria levá-la ao altar. Mas ele, por motivos que não me cabe explicar, se recusou acompanhar a filha, apesar de todos os argumentos que consegui apresentar. Foi uma decisão que me deixou muito triste, particularmente por que me coube, também, comunicar à noiva a decisão do pai.

Mas, como o mundo dá muitas voltas e todos os casamentos devem ser realizados num clima de paz, fui presenteada com o convite para substituir o pai da nova. E lá vou eu, e ela, felizes rumo ao altar, onde nos esperavam o noivo, os padrinhos e o pastor. Meu último casamento foi evangélico.

Eu acho que Santo Antônio é laico.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Enoleide Farias 23 de junho de 2021 16:24

    Oi Jeanne, obrigada pelas observações. Outros textos virão, espero você aqui.

  2. Jeanne de Castro 15 de junho de 2021 20:47

    Adorei seu texto! Legal esse ponto de vista “meus casamentos”… foram os que você participou. Isso deu uma leveza ao texto e à vida…Concordo plenamente que participamos de vários!
    Parabéns!

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