Mia Couto

Por Paulo Miguez
NO TERRA MAGAZINE

Mia Couto, escritor moçambicano e um dos expoentes contemporâneos da literatura de língua portuguesa passou mais uma vez pela Bahia.

Esteve entre nós, na primeira semana de agosto, marcando presença no VII ENECULT o cada vez mais importante Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura promovido pelo Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura da Universidade Federal da Bahia e que congrega estudiosos de diversos campos do conhecimento, do Brasil e do exterior, interessados nas temáticas culturais. De quebra, além das muitas entrevistas que concedeu, foi o palestrante do Conversas Plugadas, projeto da Secretaria de Cultura do Estado que acabou, nesta sua edição, compondo a programação de encerramento do XXI Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, este ano realizado em Salvador.

No ENECULT, Mia, com um texto que batizou com título “O homem que casou com a Bahia”, tratou da relação entre cultura e desenvolvimento. “Culturas e desenvolvimentos”, consertou ele, afirmando sua compreensão de que ambas as palavras só fazem sentido se pronunciadas no plural – palavras que, como “cultura”, são tão complexas que, relatou, são intraduzíveis em muitas das mais de duas dezenas de línguas nacionais faladas em Moçambique.

No Conversas Plugadas, Mia deliciou-nos com a conferência “Um Mar Vivo: como Jorge é Amado em África”, propondo uma leitura africana da obra de Jorge Amado, do impacto da obra do escritor baiano na literatura africana de língua portuguesa – feliz coincidência, a fala de Mia Couto aconteceu exatamente no dia 10 de agosto, data em que Jorge Amado completaria 99 anos.

Em ambas as conferências, uma fala mansa, cuidadosa, preciosamente poética. Em ambas, Mia nos disse da sua familiaridade com a cena brasileira, da sensação de sentir-se em casa estando na Bahia. Mas nos disse, especialmente do que considera ser uma tarefa fundamental dos tempos que correm, a reabilitação da esperança.

Esperança. A ela tem se dedicado Mia no seu ofício de escritor – e de biólogo. Mia se recusa a ser um escritor de tempo integral. Continua a trabalhar como biólogo, na área da ecologia. Aliás, um casamento mais que perfeito. O biólogo ecologista, preocupado com as questões ambientais, e o escritor, atento ao fascinante e diverso universo das culturas moçambicanas que servem de alimento seminal para suas palavras-poema.

Esperança de que a compreensão da cultura ultrapasse os fatos visíveis e alcance os gestos silenciosos que dão sentido à vida das gentes. Esperança, a mesma esperança que os livros de Jorge Amado despertaram nos escritores africanos de língua portuguesa que, em luta contra o colonialismo português em África, aprenderam a ver em Jorge a possibilidade de fazer do português uma língua também deles, africanos.

Vivi em Moçambique durante 11 anos. Entre 1982 e 1993. Lá conheci Mia. Lá, ao longo destes 11 anos, quase todos marcados por uma guerra odiosa, tive o privilégio de integrar, com Mia e com muitos outros, moçambicanos e estrangeiros “cafrealizados” como eu, uma geração que bem pode ser chamada de “geração esperança”.

Ficaram para trás as ilusões da revolução que amávamos tanto. Nesse sentido, somos hoje, esta geração, tomando de empréstimo a expressão com que designávamos os guerrilheiros que fizeram a Luta Armada de Libertação Nacional em Moçambique, a geração dos (novos) “velhos combatentes”. Mas não abandonamos a mania de sonhar, de ter esperança.

As palavras de Mia, seus livros, nos garantem, tanto lá quanto aqui, cestos de sonhos, rios de esperança.

Khanimambo (obrigado) Mia.

Breve nota biográfica:

Mia Couto nasceu António Emilio Leite Couto a 5 de julho de 1955 na cidade da Beira, Província de Sofala, em Moçambique. Filho de uma família de emigrantes portugueses, Mia publicou os primeiros poemas no “Notícias da Beira”, com 14 anos. Em 1972, deixou a Beira e partiu para Lourenço Marques, atual Maputo, para estudar Medicina. Com a independência de Moçambique, em 1975, ingressou no jornalismo. Dirigiu a Agência de Informação de Moçambique (AIM) e, posteriormente, a revista semanal “Tempo” e o jornal “Notícias”. Tendo abandonado os estudos de medicina, formou-se em 1985 em Biologia pela Universidade Eduardo Mondlane. Durante a década de 1980 publicou seus primeiros trabalhos. “Raiz de Orvalho” (1983), “Vozes anoitecidas” (1986) e “Cada Homem é uma Raça” (1990), o primeiro, um livro de poesias, os dois outros, de contos. Em 1992, publicou seu primeiro romance, “Terra Sonâmbula”. Na sequência publica “Estórias Abensonhadas” (1994), “A Varanda do Frangipani” (1996), “Vinte e Zinco” (1999), “Contos do Nascer da Terra” (1997), “Mar me quer” (2000), “Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos” (2001), “O Gato e o Escuro” (2001), “O Último Voo do Flamingo” (2000), “Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra” (2002), “O Fio das Missangas” (2004). Tendo ganho vários prêmios literários, Mia Couto é hoje um dos escritores africanos mais traduzidos e suas obras estão publicadas em mais de 20 países. No Brasil, acaba de lançar um livro de ensaios intitulado “E se Obama fosse africano? e outras interinvenções” (Companhia das Letras, 2011).

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