Microcefalia põe aborto na pauta do país

Dráuzio Varella é um médico respeitado e o mais popular do Brasil. Graças aos quadros na Tv e também ao livro Estação Carandiru, que resultou no filme Carandiru, de Hector Babenco. Nos últimos dias suas opiniões sobre aborto, agora por conta do Zika Vírus, voltaram a pôr o assunto em pauta. Mas não é de hoje que ele critica duramente a hipocrisia e o enfoque religioso sobre a questão. Em entrevista essa semana à BBC (leia matéria) o médico trata do assunto. Seus argumentos são sensatos, corajosos e baseados numa realidade trágica para as mulheres pobres, que ele, como médico, conhece bem. Por isso, conta com minha admiração.

A temperatura do debate acerca da relação microcefalia/aborto deverá aumentar ainda mais nos próximos dias. Nesta sexta-feira, 05, o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos defendeu que os chamados direitos reprodutivos da mulher sejam garantidos, incluindo a descriminalização do aborto (aqui).

Todos sabem. Ou deveriam ter a obrigação moral e humanitária de saber. Serão as pessoas com renda mais baixa que pagarão o pato mais uma vez. As “classes inferiores”, conforme um radialista em seu programa do meio dia, ao abordar a contaminação do vírus por saliva, anunciada hoje pela Fiocruz. Eu ouvia o programa no caminho para casa e quase perco o controle do carro.

O estado brasileiro não tem condições de oferecer acompanhamento às famílias atingidas pela microcefalia. Família, vírgula né, porque em Pernambuco os “homens”, assim mesmo entre aspas, estão largando suas companheiras que pariram filhos com microcefalia. Um quadro geral, sob todos os aspectos, aterrorizante.

Há tempos se sabe que o aborto se transformou em um caso trágico de saúde pública no Brasil, tantas são as mulheres mutiladas e mortas em “clínicas” de fundo de quintal. Além do trauma emocional, sob elas ainda paira o risco de prisão. Quem tem dinheiro está livre disso. Aliás, disso e de tantas outras coisas que o dinheiro compra no país, né mesmo?.

Por isso, minha opinião sobre o aborto, de um modo geral, mantém-se a mesma desde sempre. Sou favorável à legalização. O corpo pertence à mulher e ela tem direito a fazer o que quiser com ele. Estado e religião não tem o direito de decidir por elas. No caso do Brasil, essa minha defesa ganha mais convicção diante da situação das mulheres pobres que são obrigadas a recorrerem à interrupção da gravidez em condições desumanas e colocando em risco a vida.

O tema é polêmico e o debate costuma ser extremado e contaminado por crenças religiosas e hipocrisia. Eu não quero convencer ninguém de nada e nem pretendo debater em termos que considero fundamentalistas e obscurantistas. Portanto, se sua opinião vai nesse caminho, respeito, mas poste-a lá na sua timeline. Obrigado. De nada.

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