1960

Segunda parte de trechos do diário do artista plástico pernambucano Francisco Brennand. Uma primeira parte, publicada no mês passado, você acessa aqui. O material vem sendo publicado, simultaneamente, no SP e no jornal Rascunho, de Curitiba.

ENGENHO SÃO FRANCISCO

Francisco Brennand

Há tanto tempo de volta da cidade de São Paulo… Que, que belo salto!(…) Que expressivo silêncio, marcado por tantas incompreensões e por todas as formas de desafios! O ambiente desta cidade, além de enlouquecedor,  é  propício  aos  desencontros   fatais  e, depois, não há como recolocar um tão gigantesco trem de volta aos seus trilhos, embora  reconhecendo  que a Paulicéia desvairada me fascina até ao paroxismo.

A demora foi muito maior do que aquela desejada e, no entanto, eu sabia que viajando em junho do ano passado, me antecipava em demasiado à abertura da V Bienal e assim ficaria flanando sem nada o que fazer. E foi mais ou menos o que aconteceu. Por sorte a possibilidade de expor monotipos e desenhos na Galeria das Folhas concretizou-se. Embora a sua inauguração tenha sido quase simultânea com a Bienal, os dois eventos geminados favoreceram-me como introdução a um centro cultural onde eu era totalmente desconhecido. Só retornei ao Recife às vésperas do Natal, reencontrando Deborah que, não suportando o clima, só permaneceu em São Paulo dois meses. Às vezes, nos fins das tardes frias e enevoadas de julho,  na casa do bom amigo Flávio Motta, ela costumava me dizer: “O que será de tua alma, assassinada nos muros eternos?”.

Convivemos ainda com vários outros amigos como, Quirino da Silva, Mússia e Carlos Pinto Alves, Paulo Mendes de Almeida, Maria da Penha Müller Carioba e tantos outros paulistas que gentilmente procuravam reanimá-la no que fosse possível, mas ela, na sua sempre intuitiva determinação, voou de volta à sua cidade de nuvens claras e de enormes céus.

Tanta coisa para recolocar em ordem, e mais do que nunca recomeçar o trabalho, o chamado “bom caminho”, o que certamente significa, antes de mais nada, esforço e honestidade. De algum modo, pressinto uma formidável reação ao que faço e também ao que pretendo fazer. Verifiquei estes indícios durante os longos seis meses de permanência em São Paulo. Os descompassos da incompreensão apenas começaram a surgir e, no entanto, o que levei para mostrar foi tão pouco… Posso imaginar o espanto de um público acostumado às últimas novidades da vanguarda européia e norte-americana se  eu tivesse carregado as telas de maior  formato ─ estes grandes retângulos estampados de barbarismos! Até  a minha  assinatura caligráfica foi motivo de especulação e eu que pretendo reduzi-la a um mero F. e um B. desenhados como ornatos, para que não destoem do próprio grafismo das pinturas e, pelo contrário, se identifiquem com ele e até se percam dentro dele. O que me causa espécie, como já disse, é que tudo ainda me resta por fazer e, no entanto… Já o alvorecer de certas formas, o seu magnético resplendor, roçou o coração de diferentes pessoas e de maneira definitiva. Embora esses admiradores não tenham sido muitos, os que assim se posicionaram foram da melhor qualidade.

A compreensão de um Flávio Motta, de um Quirino da Silva, de um José Geraldo Vieira, de um Paulo Mendes de Almeida, de um pintor da importância de Volpi, mesmo de um Di Cavalcanti (de natural, tão avaro em elogios), de um Sérgio Milliet que, inclusive, prestou-se a escrever uma apresentação ao meu catálogo, de fato representou muito para quem apenas se dava a conhecer. Incluiria neste grupo a própria direção da Galeria das Folhas ─ a família Lerner ─  abrindo espaço na sua pauta a um ilustre desconhecido…

Mas, eu indago: se a minha aceitação pelos melhores espíritos ficou evidenciada, quem então estava contra mim? Nada poderia ilustrar melhor a resposta do que o grosseiro equívoco em que incorreu a própria comissão  julgadora da V  Bienal.  Em  primeiro  lugar, esses juízes cortaram duas das cinco telas enviadas para julgamento e em segundo lugar, colocaram-me entre os pintores ditos “ingênuos” ou “primitivos”, o que aliás, como equívoco, foi providencial. Depois, com mais vagar, explicarei por quê.

A minha longa permanência em São Paulo não deixou de ter as suas vantagens, e, como já mencionei, colocaria em destaque a amizade de Flávio Motta, professor de História da Arte da Faculdade de Arquitetura, um dos mais aproximados colaboradores de Pietro Maria Bardi na fundação do Museu de Arte de São Paulo, tendo um papel relevante neste período heróico, quando o maior pedaço deste acervo de arte ainda estava por chegar, organizar e catalogar. Dificilmente podemos hoje ter uma estimativa do quanto custou de esforço, audácia e obstinação e até de sacrifício, pôr em prática esse projeto ─ na época tido como irrealizável (ou mesmo insano) ─ dotando o país com um Museu desta categoria. Menciono isso apenas historicamente ─ sem contar os meandros de sua verdadeira história, esta desconhecida para mim e para a maior parte das pessoas.

Não tenho intenção de aprofundar méritos de quem quer que seja. Se de fato houve uma equipe, ela é por demais conhecida, incluindo os seus eventuais e generosos doadores.

Quanto à figura de Assis Chateaubriand (conheço-o pessoalmente), um dos poucos homens deste país a quem ocorreria uma ideia desta envergadura, está bem de acordo com o dizer do poeta Matheos de Lima: “Forjado em fornos de alta pressão e infernais calorias”.

O interesse e a ajuda de Flávio Motta  foram inestimáveis. Incluo nesta colaboração a ideia de fazer um catálogo que apareceria simultaneamente ao da Galeria das Folhas no dia da exposição. Formato, papel, cores, ilustrações, disposições dos textos de Ariano Suassuna e Sérgio Milliet acrescidos do pequeno texto de Henri Van de Velde extraído das Fórmulas de uma Estética Moderna, tudo ficou por conta do extraordinário sentido estético de Flávio que, aliás, entre outras qualidades  também  é  pintor, e  bom pintor. O resultado gráfico deste pequeno catálogo não cabe a

mim dizê-lo mas asseguro que causou espanto. Os dois textos, sobretudo o de Ariano, que aborda exatamente aquilo que eu gostaria que ele dissesse e ele o disse como ninguém,  elucida, ou pelo menos insinua, o mundo da sexualidade presente em todos esses desenhos e monotipos.

A meu pedido, para tornar essa relação ainda mais explícita, Suassuna colocou uma epígrafe retirada de um trecho de H.G.Wells, “O desabrochar da estranha orquídea”, que não ilude a quem quer que seja. O pequeno diálogo é bem claro, direto e perturbador, embora ainda assim, permaneça misterioso:

─   “Não gosto dela ─ disse a governanta ─ tem um formato muito feio.

─   Quanto a mim não vejo sequer que tenha forma.

─   Não gosto dessas coisas espetadas para fora ─ teimou a governanta.

─   Amanhã vou plantá-la num vaso.

─   Parece uma aranha”.

Veja como são as coisas e como os fogos de artifício se entrecruzam sem que se faça a menor força para isto:  no dia 19 de março de 1959 eu falava no nome de Félix Labisse, dizendo que num texto de René Huyghe de quinze anos atrás, no capítulo dedicado ao Retorno à Vida Interior (Nova Geração de Pintores Franceses), ele estava ao lado de Balthus, Bérard, Coutaud, Grüber e Venard. Jamais ouvira falar dele até a leitura daquele texto repleto de ilustrações e assim também pude ver um dos seus quadros. Agora encontro-o em pessoa na casa de Francisco Mattarazzo Sobrinho, conversando animadamente com Yolanda Penteado. Chamou-me atenção a sua cabeleira totalmente branca. Se de fato nasceu em 1903, devia estar com 56 anos. Fomos apresentados em seguida e falamos bastante. Lembrei-lhe o álbum de René Huyghe e a presença de Balthus. Ele não fez nenhum comentário, mas nesse momento seus olhos pareciam sorrir. Poucos dias depois, passou na Galeria das Folhas. Eu acabara de sair, assim deixou-me um bilhete que me foi entregue no dia seguinte. Embora elogioso, guardei-o comigo mais pela coincidência dos acontecimentos do que pelo que ele disse.  Em todo caso, sou-lhe grato.

O trabalho prossegue, e mesmo que esta exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo marcada para o dia 24 de maio fosse hoje, tudo estaria pronto. Difícil se me afigura escolher entre tantas e variadas formas de expressão cerâmica, ou seja: placas ovais e retangulares, relevos, pratos, pequenos murais  e alguns vasos. Acontece que sempre a preparação de um catálogo exige antecedência e o museu pressiona e adverte para as dificuldades de uma boa impressão, etc. O texto será o mesmo de Ariano Suassuna, colocado no meu projeto de livro, feito pelo Gráfico Amador, uma vez que as cerâmicas comentadas  são  praticamente  as mesmas,  apenas  com  algumas  peças  acrescentadas. O título deste texto, “Brennand ─ Um mundo Novo”, é mais que sugestivo e acredito que neste momento, no país inteiro, ninguém penetraria tão expressiva e profundamente nestas imagens. Pedi a Flávio Motta que se ocupasse da parte gráfica do catálogo ou  pelo menos que tentasse uma orientação junto ao pessoal do M.A.M.. Suponho que a direção não criará empecilhos.

O irrequieto Flávio Motta habituou-me a frequentar, todos os dias, a Fundação Armando Álvares Penteado, onde temporariamente estava albergado o grande acervo do MASP, cuja sede na rua 7 de Abril, passava por reformas. Flávio era, também, professor desta Fundação, e membro do seu Conselho de Ensino, o que me ensejou demorado contato com outros professores e alunos, numa espécie de franca camaradagem que muito me facilitava o trânsito e a permanência neste recinto. Entre outros, lembro o excelente pintor e gravador Eduardo Sued, nascido no Rio, mas lecionando em São Paulo pintura, gravura e desenho. Curiosamente esteve em Paris no mesmo ano em que eu também lá estive (1951) e frequentou as academias Julien e La Grand Chaumière. Também João Rossi, pintor e ceramista de grande habilidade, que lecionava  numa turma cada vez mais interessada nesta renascente forma de arte.

Contudo, meu maior interesse e fascínio concentrava-se na grande sala de exposição do acervo do MASP. Essa fantástica coleção de pinturas e esculturas, surgindo praticamente do nada, a não ser de um súbito ideal visionário desse jornalista de gênio, que é Assis Chateaubriand, pouco possuía em comum com as suas congêneres européias ou norte-americanas. Não foi obra de doação de nenhum mecenas, pois o doutor Assis não colecionava coisíssima alguma (a não ser triunfos) e nem ao menos nasceu de uma demorada elaboração, conquistada palmo a palmo, anos a fio como aconteceu com a Fundação e Coleção Oskar Reinhart, em Winterthur, na Suíça, obra de um mecenas, cuja dedicação corresponde a uma grande parte de sua vida a serviço das artes. Não, o museu brasileiro, MASP,  nasceu  num  passe  de mágica e audácia, só possíveis nestas paragens e nestas temperaturas. E se para tanto necessitava ainda de um expert, a escolha não poderia ter sido mais acertada, recaindo no professor Pietro Maria Bardi. Não mais precisamos, nós brasileiros, ultrapassar os contrafortes Alpinos ou dos Pirineus, para vermos um Piero di Cosimo, um Giovanni Bellini, um Mantegna, um Ticiano, um Cranach, um Holbein, um Greco ou um Goya. Eles estão todos aqui em território brasileiro, quer sejam clássicos ou modernos, quer sejam espanhóis, franceses, flamengos, alemães ou italianos; estão todos aqui. E, parece, vieram para ficar.

Ninguém pode imaginar o espanto que fui tomado na primeira vez que me coloquei diante do Auto-Retrato do Gólgotha, de Gauguin, e, novamente, recordar a amarga herança dos deuses e dos seus últimos dias de desespero quando, inclusive, pensou em voltar à velha Europa de há muito repudiada.

Rever como quem apenas por acaso encontra uma amiga querida, em lugar inesperado. Saudá-la, amável senhorita Zéllie Courbet, aquela que o crítico André Chamson descreveu como um “fruto de refulgente carnação“, a mesmíssima jovem raptada da tela de Courbet para o invernoso castelo de Chassy,  de Balthus, e lá reintegrada no Les Beaux Jours, como num sequestro e violação consentidos. Em todo caso, continua jovem e igualmente desejável, o que não acontece com a irmã Juliette ─ a preferida de Courbet, a mais bela e a mais moça e, agora (quase na mesma posição  em  que foi pintada, nos seus momentos gloriosos de casta juventude), de luto e trinta anos mais velha. Saúdo-te assim mesmo, com a mesma cortesia do teu irmão quando, não conseguindo fazer aceitar o teu belo retrato de mocinha no salão de 1845, prometeu mostrá-lo um dia com o nome secreto de Baronesa de M., o que só veio  acontecer em 1882, quando o pintor já havia desaparecido… Consegui enfrentar o mais belo retrato de Cèzanne, Madame Cèzanne en Rouge, uma obra-prima, que só a sua solitária presença no museu já justificaria a fama de qualquer coleção.

Suponho que esta deve ter sido, em parte, a verdadeira razão da curiosa visita de André Malraux o ano passado à cidade de São Paulo, tão somente para rever essas obras-primas, reconhecê-las, batizá-las e consagrá-las à sua maneira.

Vi, e outras testemunhas devem ter percebido o mesmo, quando, recém-chegado de Brasília, penetrou nos salões da Fundação com os olhos refulgindo, à procura da ambicionada presa. As apresentações protocolares não lhe diminuíram o fulgor da testa larga e possante, embora um tanto descarnada. Os primeiros passos em direção aos quadros, os primeiros comentários, seguidos de longo silêncio e, depois, novamente, a palavra mágica que a precisão do gesto não fazia senão confirmar.

A fascinante demonstração do espírito gaulês diante da graça infinita do Retrato de Marthe Bèrard, imitando-lhe burlescamente o gesto das mãos entrelaçadas sobre o baixo ventre, apenas tangenciando a linha magnífica do cetim cerúleo sobre um negro azulado de profundezas abissais. Renoir não teria feito melhor ao sugerir à encantadora modelo sua pose definitiva. O ministro, o artista, ou o ator, quem se responsabilizava pela cena? Ainda deu mais dois passos atrás para, repentinamente, como se dirigisse à mademoiselle, dizer: “Assim é melhor!”. Logo adiante o seu longo sorriso (que procurou a necessária cumplicidade na  platéia que o acompanhava), na presença do Grande Nu, obra do mesmo pintor: aquela maré sublime de carnações iridescentes, um rio, um oceano de sensualidade e poesia.

O que o fez  parar, mudo e atencioso diante do Escolar de Van Gogh? Ele não poderia, de certo, ali em público, falar das paixões humanas e do desespero. Silenciou e prosseguiu. Lá estava ele, agora, diminuto, mas distinto diante da Vênus Vencedora colocada no seu pedestal e pronta para adoração. Símbolo de uma cultura que costuma remanejar paixões ociosas e colocá-las sob os cuidadosos preceitos da razão: “Lá, onde tudo não é senão ordem e beleza, luxo, calma e voluptuosidade..

Os seis Modiglianis e a bela natureza morta de Matisse ─ O Torso de Gesso ─ foram devidamente apreciados, e nenhuma dessas obras e tantas outras deste mesmo acervo, escaparam de seus comentários, às vezes cheios de malícia…

Chegava afinal a vez dos clássicos, e a pequena corte que o rodeava mal deixava uma brecha para ouvi-lo e acompanhá-lo. Vi-o à distância, diante do Cardeal Cristoforo Madruzzo de Ticiano, retrato de corpo inteiro (2,10 x 1,09m), e o que não daria para ouvir neste momento! Ele estava, enfim, diante de alguém… diante de um homem como ele que, por paixão intelectual e experiência política (os dois não eram homens com quem se brincasse),  poderia acrescentar alguma coisa aos intrincados e absurdos segredos do poder. Um cumprimento tácito de reconhecimento, talvez até uma simples cortesia entre potentados. E o cortejo prosseguiu em direção a outros italianos de igual importância.

Chegou a minha vez de me defrontar com Madruzzo. Chamei atenção de Carlos Pinto Alves (que me acompanhava desde o início da visita ) para os olhos do Cardeal e para o seu indefinido sorriso… Decerto apertava os maxilares ao adivinhar “o horror, o horror” da condição humana! No entanto, não havia cólera nem desdém na sua expressão, tampouco piedade… Carlos concordou. Ele não é cego; é um dos homens mais inteligentes desta Província de São Paulo, a que chamo de província, não por desmerecê-la, mas para engrandecê-la na lembrança dos seus heróicos primórdios. Sem pressentir que Carlos não estava mais ao meu lado, eu continuava com as minhas digressões: o Cardeal, como príncipe da Igreja, participara do Concílio de Trento, segundo diz o catálogo. E o seu gesto de entreabrir uma cortina, parece revelar alguns dos mistérios que o envolvem… Virei-me para sentir a aprovação de Carlos, mas ele já estava longe, do outro lado da sala em demanda à comitiva que, a meu ver, apressava o passo embora estivesse reunida, lá adiante, ouvindo os comentários de Malraux sobre Goya. Decerto Carlos não veio ao recinto do Museu à procura das minhas opiniões e sim ─ mesmo que por fragmentos ─ escutar Malraux. O romancista de A Condição Humana, falava agora de Ferdinando VII e do Retrato da Condessa de Casa Flores. Não dava para escutá-lo, mas adivinho que repetia o que disse no seu admirável SaturnoUm Ensaio sobre Goya: “Sua arte de retratista tornou-se uma das mais ricas e sutis que se conheceu no Ocidente. Diante do enorme retrato de D. Antonio Ilorente, aquele que apesar de sua figura sombria e sardônica não consegue esconder abaixo da  batina curta os enormes pés, calçando luzidios sapatos negros de fivelas, fato especioso que neutraliza a sua perigosa índole, em algo de grotesco ou mesmo infantil. Malraux certamente prosseguiria: “Ele procura o estilo do seu gênio e não da sua moral. Ele é racionalista como Cervantes, um romancista de aventuras, e como Dostoievski, um romancista social. O racionalismo de seus comentários dos Caprichos é moralizante, mas quase todos os profetas do irremediável ─ por menores que sejam ─ pretendem ser moralistas: Pascal, Baudelaire, Dostoievski, Tolstoi, Nietzsche…”

A comitiva já se ausentava e não me preocupei em desgarrar do grupo, seguindo na direção da tentadora Angélica Aprisionada, de Ingres, e lá fiquei pasmo de tantas audácias reunidas num só quadro… Um belo e sugestivo formato oval parece desculpar as extravagâncias e de uma certa forma as justifica.

André Malraux  saiu da Fundação direto para a V Bienal a convite de Francisco Mattarazzo Sobrinho e, apesar da exaustiva maratona pictórica realizada diante dos seus mestres conhecidos, ainda teria de enfrentar uma espécie de corrida de obstáculos ao deparar com os mestres do desconhecido… O resultado dessa visita na V Bienal, alguns  jornais paulistas comentaram com visível atrapalho, outros do Rio de Janeiro foram mais explícitos, sobretudo a Tribuna da Imprensa quando não se negou a afirmar que Malraux deu destaque aos pintores primitivos brasileiros (lembrar que eu estava, por equívoco da comissão julgadora, incluído entre estes).

Se perguntassem a mim o significado desse verdadeiro acidente de percurso, em face dos expositores vanguardistas brasileiros sentirem-se contrariados pelo pouco caso de Malraux, eu diria: sou levado a acreditar que o ministro, olhando de viés em direção ao verde (pela primeira vez encontrava esta cor em todo recinto da gigantesca exposição), descobriu os primitivos e as minhas três telas. De uma certa maneira esta descoberta afinou-lhe a leitura dos meus “colegas” primitivos,

os quais, por sua vez, na sua rude inocência, lançaram luzes purificadoras sobre os meus incipientes barbarismos… Essa mistura ideal para os olhos cansados do ilustre visitante, fê-lo dizer: “Magníficos e puros!”  Presumo que foi tudo. Aqueles que desejam levar o “incidente” mais a sério leiam o artigo de Sérgio Milliet, cujo título Advertência de Malraux interessará e, ao mesmo tempo, apaziguará gregos e troianos. Tomar igualmente conhecimento sobre o que pensa o autor de Os Conquistadores (discurso pronunciado no Rio de Janeiro), a propósito da cultura do Terceiro Mundo.

Confesso estar entediado desses encontros hilariantes e, na realidade, cresce a indagação: o que tem a ver tudo isso com os problemas reais da pintura? Pior ainda é recordá-los e transcrevê-los permanentemente… E, se estou às vésperas de uma nova exposição, presumo que mais uma vez me encarregarei de descrevê-la… Dentro de pouco tempo, com mil e uma desculpas e os naturais subterfúgios, recomeçarei.

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