Millôr de A a Z

Millôr Fernandes para além de ter sido um grande pensador, cartunista e escritor humorista, foi também um grande frasista. Um pensador ao nível ou acima do genial H. L. Mencken. Um resumo da sua verve e grande engenhosidade linguística está resumido em seu livro “ a Bíblia do Caos”, onde estão reunidos 5142 pensamentos, aforismas, máximas , heresias, sofismas, paradoxos, etc.

Desse imenso cipoal extraio o meu abecedário vãgogoano, com o humor que marcou a sua vida até na morte. Muito bom o retrato 3 X4 do Cartunista Ziraldo que finda esse glosando.

A
– O acaso é uma besteira de Deus
– o adultério é o mercado negro do orgasmo
B
– O Bêbado é o subconsciente do abstêmio
– a melhor maneira de demonstrar que você é um homem de extraordinário bom senso é não acreditar nisso.
C
– o pior ano na vida de casado é este
– chato é o cara que conta tintim por tintim e depois entra em detalhes
D
– se você consulta um psicanalista para tratar de uma depressão ocasional adquire depressão permanente
– Penso, logo Descartes não existe
E
– o ego é a única coisa que vaza por cima
– meu epitáfio: “Não contem mais comigo”
F
– antes de Freud o sexo era um maravilhoso pecado. Agora um enrolo tedioso.
– Futuro meu Deus, que coisa mais classe média!
G
– O gourmet é o comilão erudito
– já pensei em fundar uma religião mas tenho medo que me sigam
H
– a história é uma lenda só que muito mais mentirosa
– O homem feliz não usava camisinha
I
– ignorar é a única defesa possível contra ignorância.
– eu não posso contar vantagem, mas uma coisa posso afirmar: a minha infância foi tão maravilhosa quanto a de qualquer outro mentiroso.
J
– se a causa é justa, o melhor é dar no pé
– Muitos morrem a punhalada, mas só houve um Júlio Cesar.
K
– Cultura só não sai dos ministérios de Kultura
– Know-How é a diferença entre um cara que possui dinheiro e um cara que é possuído por ele.
L
– um lar sem mulher é um oásis sem deserto
– Nunca li um livro que justifique a orelha
M
– Há males que vem pra pior
– medo é a marcha ré da coragem
N
– novo mesmo só coisa muito antiga
– neurótico é um sujeito cego de um olho que pensa que é do outro.
O
– O `Neill, um Shaw sem humor, um Shakespeare sem coração
– certos escritores, de original, só tem mesmo a ortografia.
P
– Que Manuel Bandeira me perdoe, mas … “vou-me embora de Pasárgada / Sou inimigo do Rei / Não tenho nada que eu quero / Não tenho e nunca terei / Vou-me embora de Pasárgada/ Aqui eu não sou feliz / A existência é tão dura / As elites tão senis / Que Joana, a louca da Espanha, Ainda é mais coerente / do que os donos do país.
– Partir é morrer um pouco. Morrer é partir demais
Q
– afinal o que mais falta nesse Congresso: quórum ou dequorum?
– “quem ama o feio bonito lhe parece”. ( provérbios prolixizados. 1959)
R
– seja recatado. Reserve sua lascívia para os dias santos.
– mistura sempre uma pitadinha de passional no seu racional.
S
– quem semeia verbos colhe diatribes
– sexo causa gente
T
– Temor: existe casamento depois da morte?
– o turista é o câncer do meio ambiente
U
– Não somos unanimes nem sozinho
– há coisa mais dura / do que a lousa/ da sepultura ?
V
– não há vanguarda sem retaguarda
– nada é mais falso do que a verdade estabelecida
W
– Woody Allen; o infeliz que deu certo
– depois do Women´s Lib, a mulher é o cansaço do guerreiro
X
– xadrez é um jogo que desenvolve a inteligência de jogar xadrez
– Xiita é uma pessoa capaz de matar ou morrer por uma ideia que não tem.
Z
– Zen : Olha, / entre um pingo e outro / a chuva não molha
– Ziraldo é de Caratinga, cidade mineira de 3 milhões de habitantes (em toda a sua história). Desde menino perseguiu o sucesso até que o sucesso passou a só frequentar os mesmos locais que ele. Aos dez anos fazia versos, mas aos quinze, amadurecido, já fazia humor, que é o reverso. Seu primeiro emprego foi na Fiat Lux, aquela firma que fez a primeira iluminação do mundo. Sua frustação maior é não ser um escândalo nem uma calamidade. Pois, popularíssimo, acha, como eu, que merecia ser mais incompreendido ( da séria Retratos em 3 X 4 de alguns amigos 6 X 9, 1969)

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Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 29 de março de 2012 19:47

    Alice, boa noite!

    O chapeleiro louco te esperou e responde. Millôr, trabalhou nos maiores órgãos de comunicação desse país. Com colunas históticas: Pif paf, Vão Gogo, Livre pensar é só pensar, etc. Ninguém que se diz jornalista cultural, professor ou o escambau pode negar a grandeza desse cara. OU não conhece, e devia ficar calado. Humildade é bom.
    Mais precisamente:
    – 25 anos na Revista o cruzeiro. A maior revista que esse pais leu com assistia Hoje ( alguns ) a Rede Globo. Dava gosto ler Raquel de Queiroz ( sua conterrânea ), O amigo da onça e o grande Millôr. Gênio.
    – 14 anos na Revista Veja. A revista Veja já foi bem melhor. O Millôr escrevia como um profissional e nunca seguiu a ideologia da revista
    – Seis anos no Pasquim. Maravilhoso e fez historia. Millôr foi um dos principais protagonistas.
    – Dez anos em Isto é
    – oito anos no Jornal do Brasil
    E ainda trabalhou na Tribuna da Imprensa e Correio da Manhã.
    Foi um grande tradutor de Shakespeare. Dramaturgo com peça premiadas e históricas.
    “o pior é não morrer. É não poder espantar as moscas”. MF

  2. João da Mata 29 de março de 2012 13:36

    O dia da quase entrevista

    http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,o-dia-da-quase-entrevista-com-millor,854661,0.htm

    Trechos

    Tem como acabar com a corrupção no Brasil?

    Não. Isso não tem jeito, porque a corrupção é inerente ao homem. O homem sempre foi corrupto, e vai continuar sendo.

    Mas pode-se melhorar as instituições?

    Ah, melhora uma ou outra, mas em geral tudo é corrupto. Pega aí por exemplo essa ação da polícia aí, no Complexo do Alemão. Estão dizendo que tão acabando com o crime organizado. Olha, para mim, o crime organizado tem nome: Judiciário, Legislativo e Executivo. O próprio judiciário quer aumentar os próprios salários em 40%, mesmo com todas as mordomias que eles já têm. Esses caras têm carro pago, gasolina paga, tem até uma cozinheira para cada gabinete, e ainda querem ganhar mais. É assim que é o homem.

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