Milton Hatoum, sobre ausência de crítica literária: “Já não há mais espaço na imprensa para a academia”

Tenho trabalhado na transcrição dos anais do Festival Literário de Natal. E uma das palestras que me encontro mergulhado no momento é a do escritor amazonense Milton Hatoum. Coincidentemente ele responde uma pergunta do poeta Lívio Oliveira sobre crítica literária. Achei que caberia transportar para cá porque ratifica muito do que já foi dito aí nos comentários de Thiago Gonzaga, Cefas Carvalho, Aluísio Azevedo Jr e Nilvha Ferreira. Segue a pergunta de Lívio e a resposta de Milton:

“Milton, você mencionou alguns nomes de críticos que você considera excepcionais. A seu ver a quantas anda a crítica literária nacional e o que define quais são os elementos caracterizadores de um bom crítico?”

Milton Hatoum: Uma coisa é a resenha. A resenha não é um trabalho crítico. Outra coisa é um trabalho de fôlego, um ensaio sobre uma obra. Já não há mais espaço na imprensa para a academia, para os professores se manifestarem. A imprensa, os suplementos culturais perderam muito esse espaço que havia na década de 50, 60 e talvez até há 10 ou 15 anos.

Hoje o jornalismo cultural no Brasil está carente de espaço para crítica literária. O que existe e vai existir é a crítica universitária das revistas universitárias ou de livros escritos e produzidos por professores críticos que se ausentaram da imprensa.

Se você pensar que nos anos 50 o crítico titular da Folha de São Paulo era Antônio Cândido é uma coisa incrível. Isso dava muita força e credibilidade a esse trabalho crítico.

Hoje a crítica jornalística está praticamente ausente. Agora, esses críticos – os que continuam vivos, evidentemente – continuam a escrever. Antônio Cândido esteve na Flip para falar sobre Osvald de Andrade; o David Arrigucci escreveu vários livros de crítica literária e ainda está escrevendo há anos sobre o Sertão Oeste Pampas, sobre o Borges, Guimarães Rosa, enfim.

Eu tive a felicidade de conhecer (João Luís) Lafetá e seus ensaios magníficos sobre São Bernardo. Então acho que foram críticos com os quais, de algum modo, eu convivi e que fizeram parte da minha formação.

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