Minha ignorância

Caetano Veloso
O GLOBO

Há uma filial da Mídia Louca no Pelourinho. A matriz é no Rio Vermelho: uma loja que não parece poder ter uma filial. Adorável. Cheia de discos velhos e com uma sala nos fundos onde de vez em quando tem show. Sem palco. Curiosamente, muito do agito boêmio que sumiu do Pelô migrou para o Rio Vermelho.

{faça download do cd citado por Caetano aqui}

Como já disse, se eu pudesse, toda a movida que rolava no Pelourinho teria vingado e crescido.

Dou grande importância a esses ambientes onde jovens da classe média chegam junto e misturado com gente mais pobre — e mais rica: é aí que as ideias fermentam e o gosto se exercita. Pois bem, Moreno achou o disco do Jon Hendricks numa liquidação no Pelô. E me mostrou em sua casa do Rio Vermelho. Me formei nas Sete Portas, no Bazarte do Politeama, no Maciel, no Solar da Fossa, no Cervantes da Prado Junior, no Gigetto, na Galeira Metrópole, no Redondo em frente ao Arena de Boal e Guarnieri. Não poderia desconhecer o disco que Jon Hendricks fez em homenagem a João Gilberto. Leio as listas que Felipe Hirsch põe aqui às segundasfeiras e me assombro com minha ignorância. No mundo inteiro encontro pessoas que, como Hirsch, ouvem muitíssima coisa. Tenho uma certa inveja.

Pois a verdade é que não ouço tanta música assim.

Não que eu seja incapaz de ouvir com proveito Grizzly Bear, Tiê ou Deolinda. Mas nunca fui um grande ouvinte.

Devo confessar que eu acho que ouço canções para aprender a cantá-las — e a fazer outras. De modo que minha inveja e minha sensação de ignorância são temperadas por essa sensação. Mas eu não conhecer até hoje esse disco do Hendricks revelouse um buraco enorme.

Ouvir João Gilberto foi para mim uma experiência central.

Parece que ali eu fruía, aprendia a ouvir, a julgar e a fazer.

Fazer qualquer coisa. Não necessariamente (e, muitas vezes pensei, principalmente não) música.

Como então eu passei décadas achando que nenhum grande músico americano tinha trabalhado um tema de Carlos Lyra? Eu me fazia exatamente esta pergunta: mas nem mesmo “Coisa mais linda” ou “Você e eu”? Pois bem, Jon Hendricks gravou exatamente essas duas, em versões feitas por ele mesmo.

Gente, eu me perguntava por que não havia versoes de canções de Lyra para o inglês! Convivi com os seguidores da bossa nova que têm a minha idade. Li muito sobre o que saía na imprensa a respeito.

Conversei com brasileiros e americanos sobre isso.

Como nunca calhou de alguém me falar do disco de Jon Hendricks? Talvez esse desencontro tenha servido para ampliar a repercussão que o disco teve em mim. Ouvio só uma vez, na casa de Moreno, e fui pro banheiro chorar. Quer dizer: chorei na sala um pouco mas fui assoar o nariz e quando me vi sozinho, redobrei o choro.

Não é só porque há Carlos Lyra como sei que ele merece e julguei que não tivesse tido.

Também coisas conhecidas como “No more blues”, que é a versão de “Chega de saudade”, aparecem ali com uma beleza de que eu não suspeitava.

Seguramente isso se deve ao modo como Hendricks a canta (ele fez muitas das versões: será que essa de “Chega de saudade”, tão conhecida em outras vozes, é dele também?).

Li pouco do que está no encarte. O essencial: Hendricks diz que conheceu João em Nova York e que isso foi uma das maiores lições de canto que ele teve na vida, só superada pela audição direta de Louis Armstrong, em outra ocasião. É isso: João Gilberto e Louis Armstrong. Eu também não faço por menos. E olha que Armstrong era um mito para Hendricks quando ele o conheceu: João era apenas um cara vindo do Brasil.

“No more blues” é cantado a partir dessa apreciação. Se nota. O disco tem um título em espanhol, talvez sugerido pela gravadora (o subtítulo — que é obviamente o que Hendricks queria dizer com tudo aquilo — é “Homenagem a João Gilberto, o inventor da bossa nova”). A palavra espanhola ali (“Salud!”) nos lembra que, nessa noite em 67 (quando o disco foi gravado), a música brasileira e a língua port u g u e s a a i n d a eram demasiado remotas, o que se nota no modo como o baterista e o baixista sentiam o ritmo. Hoje músicos americanos daquele nível tocam bossa nova com naturalidade.

Mas tanto o “Salud!” quanto o jeito aquadradado de tocar da “cozinha” contribuem para a força estética e histórica desse album. Ouvir Caymmi e Lauro Maia tarduzidos com amor, ouvir as refações dos arranjos de Jobim e Walter Wanderley, realizadas com minúcia e cuidado, num disco em que o baixista ainda toca como gringo, comove.

Hendricks chamou Laurindo de Almeida, que vivia nos EUA, para tocar o violão. E ele foi musicalmente leal ao reproduzir os acordes que João fazia. Leal e luminoso. Ele também traduziu as letras para Hendricks fazer as versões.

Você não pode imaginar o que eu senti ao ouvir esse disco.

Era ver um retrato do que aconteceu dentro de mim quando os 3 LPs de João foram lançados, entre 59 e 61. A escolha das canções dentre as que estão neles, a ênfase em certas linhas de arranjo — tudo fala da força que aquela música teve sobre mim. Moreno me disse: pai, esse cara parece que teve a mesma experiência que vocês tiveram ao ouvir João. Jobim gostava de eu dizer que o Brasil precisa estar à altura da bossa nova. Ou merecê-la. Sei lá. O que senti diante do “Salud!” reafirma o impulso que me leva a gravar o DVD do Zii e Zie e a votar em Marina, Gabeira, Cesar, Lindinho, Wylys e Freixo (que, DaMatta, não escolhi por serem meus amigos).

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