Minha ilha – o exílio natural de quem se meteu em encrencas demais

Por Mário Bortolotto

Já tá virando rotina. Eu, descendo a Rua Augusta sozinho depois do show com o que sobrou da garrafa de Jim Beam. A Camila e a Gisela até pararam o carro pra me oferecer uma carona, mas achei melhor continuar andando sozinho. Tem uma trilha sonora torta na minha cabeça, uma música do Lounge Lizards que me joga pra frente e me faz passar entre os caras pedindo esmola e os boys que sobem a Augusta. Eu quase não os percebo. Me parece um presságio do que vai ser a minha vida. Esse ano que tá acabando só veio a confirmar isso. Eu sou um cara que tenho muitos amigos (graças a Deus – o telefone toca muito de madrugada), mas eu sei que sou muito sozinho, e isso não é exatamente algo que escolhi, me parece uma espécie de destino, sei lá. Já teve um tempo que eu até tentei reverter esse quadro, mas não deu muito certo. O jornalista Nelson Sato uma vez num texto prum jornal de Londrina se referiu à Rosi (minha primeira mulher) como minha “parceira de miragens”. E a gente sabe que miragens não duram muito tempo. Qualquer tempestade de areia é capaz de te fazer voltar à realidade. Então do alto dos meus 49 anos e nesse final de ano eu começo a admitir que já não há mais volta. Tenho a sorte de ter minha filha em Londrina e alguns bons amigos. E é só. Tenho dois irmãos que eu amo, mas às vezes eu acho que eles ainda conseguem ser mais esquisitos do que eu. Já não conto com mais nada. E se falo isso com certa tristeza (aquela típica tristeza que vem abraçada e beijando o pescoço da Sra. Incompetência), também falo com total aceitação. Eu devia ter sacado isso há muito tempo, desde os meus 7 anos de idade, voltando pra casa sozinho, parando pra jogar figurinha (bafo), ganhando do outro moleque e levando uma surra do irmão mais velho dele que não aceitou que o irmãozinho (que começou a chorar descontrolado) perdesse as figurinhas. E então eu voltando pra casa sozinho, com o guardapó todo rasgado e sujo e tendo que mentir pra minha mãe que eu havia caído e é claro que ela não acreditou e é claro que eu apanhei de novo. Então eu lembro de ficar horas brincando sozinho no quintal, inventando um mundo pra mim e é por isso que eu hoje escrevo textos. Porque é um jeito de inventar um mundo pra mim. Acredito que pessoas que não cabem nesse mundo acabam inventando um outro pra elas. Os que não conseguem pulam de prédios, se jogam na frente dos carros ou enfiam um cano de alguma arma na boca. Ou inventam um jeito suicida de viver. O que vocês acham que eu tava fazendo há dois anos atrás? É por isso que não tenho real bronca dos caras que atiraram em mim. De certa maneira, eu sabia que já não cabia mais no mundo e estava procurando um jeito de sair dele. A maneira que eu encontrei foi drástica demais e não recomendo pra ninguém. Procurem meios alternativos. Porque na verdade, alguns como eu, tem esse privilégio de conseguir inventar um mundo paralelo. Nesse mundo eu acredito que tenho alguma real importancia. Então depois de tudo isso, fritando nesse calor senegalês insuportável que está assolando São Paulo nessa véspera de Natal, depois de ter visto toda a Segunda temporada de “Walking Dead”, depois de ter preparado um sanduiche de mortadela que eu comi com coca-cola, depois de ter escrito meia dúzia de esboços de letras de blues e principalmente depois de ter cantado rock and roll com meus amigos da “Saco de Ratos” ontem à noite (não há nada que me faça um bem maior – tava falando isso pro Basa ontem – ele chegou meio invocado e quando começou a tocar, ficou leve de novo – eu sempre repito que é o que nos salva), me pego aqui, novamente sozinho olhando as capas dos meus LPs. Tem um que é especial: Rick Lee Jones no meio da rua conversando com um cara. Ele parece uma espécie de Homeless. No encarte tem uma foto dela com as pernas cruzadas. Uma foto belissima. Fico olhando a foto por longos minutos e penso que a vida que eu inventei pode não ser a melhor das vidas, mas é a que eu posso ter. E por mais que ela seja inventada (porque eu inventei, podem ter certeza disso), eu sei que há tanta verdade nela que fico sempre sem saber o que falar olhando pra foto da Rick Lee Jones, ouvindo apenas o barulho do motor do meu velho frigobar. Um homem e sua ilha. O protagonista natural que anseia por uma participação discreta no próprio roteiro. O sujeito saindo de dentro do incendio que transformou em ruínas sua casa. Saindo com uma garrafa de Jim Beam e uma música torta de John Lurie tocando na sua cabeça. Meus surtos de grandeza tiraram férias e não voltaram. Estou sozinho de novo, mas dessa vez não estou assustado. O que me assusta na verdade é essa calma filha da puta e a total compreensão de meus movimentos. Quando eu tinha 7 anos e tava voltando pra casa sozinho, com o guardapó rasgado e sujo eu ainda não entendia todo o tamanho da desesperança. Uma vez eu escrevi que “saber é solidão”. Sempre quis estar errado. Infelizmente só faltava mesmo eu compreender certas coisas, o resto já tava todo desenhado e escrito em letras garrafais no mural que chamam de “destino”. Não há nada mais que eu possa fazer. Então, que tenham todos um bom Natal. Não é tão ruim assim. Eu ainda tenho o que sobrou da garrafa de Jim Beam.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quinze − 11 =

ao topo