Minha Mãe – Dª Santinha

“DEUS FEZ O CÉU A PÁTRIA DAS ESTRELAS, DO OLHAR DAS MÃES O CÉU DAS CRIANCINHAS”. Auta de Souza

E ficava o meu ser suspenso do sorriso
Do sorriso que doira as almas carinhosas,
vendo longe, bem longe, abrir-se o paraíso,
no eco de sua voz, já transformada em rosas!!
(…)
Mamã (Henrique Castriciano)

O amor de mãe ninguém duvida. Minha mãezinha chama-se Dona Santinha, veja que bonito. O Nome dela no cartório é Joana Pereira da Costa, mas foi como Santinha que ela ficou conhecida e amada. É um ser extremamente forte e solitário. Viveu como as mães de antigamente, em função dos filhos e de um homem, meu querido pai que chamava Melquíades. Até quando foi possível viveram juntos, mas nunca faltou a ternura. Esta chama que nos incendeia. Separaram quando ela ainda era jovem, e havia se preparado para este único amor de Homem. Enviuvou duas vezes: quando se separaram e quando ele faleceu prematuramente aos 55 anos.

Quando papai faleceu morava com outra pessoa, mas mamãe fez questão de ficar estes últimos momentos com ele. Estas cenas nos marcaram indelevelmente. Teve seis filhos que deixaram a casa para viverem suas vidas. Ficou sozinha com as suas lembranças, fantasmas e um tremendo vazio. Não teve tempo nem aprendeu as diversões da vida. Vive só. Com a presença eventual e esporádica dos filhos e netos. Freqüentou pouco os bancos escolares, como era comum na sua época. Nunca teve religião e foi sempre um exemplo e doação total aos filhos. Já no outono da vida e com os filhos criados entrou numa escola de alfabetização de adultos.
Quando apertou o orçamento doméstico foi à luta trabalhando fora. Fez feiras, confecções para conseguir suas próprias economias. Muito inteligente para matemática nunca precisou de calculadora para as suas contas. A rede foi sua companheira de todos os momentos. Nela sonhou e viveu a vida que foi possível. Cabelos lisos e pretos como a asa da graúna. Gestos suaves e traços indígenas. Muito bonita e sem nenhuma vaidade. Sua maior diversão na vida foram os bailes da juventude, quando era conhecida como pé de valsa. Hoje, gosta de jogar baralho com os filhos. Vive num tempo e espaço que é só seu.

Sei que sou um herdeiro direto da sua solidão. Nenhum ser para mim é mais misterioso e ao mesmo tempo tão simples. Talvez o mundo seja simples e o mistério são os homens que o fazem. Existe sim uma grande simplicidade e beleza nas leis da natureza que me comovem. Mamãe talvez seja sábia porque a natureza é sábia. Ela aprendeu a ler nos olhos e nos gestos da vida. Sabe perfeitamente quando não estamos bem. Tem a sabedoria dos povos primitivos, onde o céu era tudo: Lazer, alimentação, vida, esperança, presente e futuro. O todo que não pode ser separado em partes. Eram seres holísticos. Sou parte de minha mãe e não consigo viver feliz vendo mamãe sozinha. Sua solidão e a minha. A solidão de amar.

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Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Oreny Júnior 5 de maio de 2010 17:57

    Silêncio!
    Domingo, 09.05 estarei distante da minha mãe, Zefa. Estou no recôncavo bahiano e a sua solidão é a minha solidão. A solidão faz parte das moças de Caicó, Santinha, Zefa, Severa,…
    Abração!

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