Minha mãe

Pretendia visitar Minha mãe no final do ano passado, mas a viagem acabou sendo adiada e nosso encontro aconteceu durante o carnaval desse ano, o que de certo modo foi melhor porque passamos mais tempo juntas.

Afinal, foram quase três décadas longe dela. Quando nos separamos eu tinha dez anos. Apesar de algumas tentativas, nunca consegui encontrá-la, nem mesmo no período em que morou em Natal (veio para a casa da minha irmã mais velha para fazer tratamento contra o alcoolismo. Aliás, essa é a filha que mais tem lhe dado assistência e afeto ao longo dos anos).

Nessa época cheguei a ir até o condomínio onde ela morava, mas não consegui localizar ao apartamento. Uma época em que não havia celular, rede social. Desolada, voltei para casa e nunca mais a procurei. Durante esse tempo ela morou em Garanhuns, São Paulo e Recife. Hoje reside na zona rural de Jupi, município de Pernambuco.

Por vezes me pergunto por que demorei tanto para procurar minha mãe, se eu tinha o desejo de reencontrá-la. Talvez por medo de revisitar o passado. Talvez por medo de enfrentar algumas vivências que não merecem ser lembradas. Talvez por medo de não saber como reagir. Jamais terei uma reposta para essa pergunta.

Leia “Lembranças de minha mãe…”, de Andréia Braz

Seja como for, o importante é que nosso reencontro foi tranquilo, cheio de afeto e paz. É como se nunca tivéssemos nos separado, ou mesmo se tivéssemos ficado apenas alguns dias distante uma da outra. Não houve mágoas, ressentimentos, apenas alegria e gratidão. Muitas histórias e gargalhadas também.

Aliás, se tem uma coisa que puxei a minha mãe é a facilidade de rir. Rir, inclusive, de mim mesma, em certas situações. Em poucos minutos de conversa, estávamos a gargalhar de suas inúmeras histórias.

Certamente o bom humor tem tornado as coisas mais leves ao longo da nossa caminhada. Ela tem um jeito peculiar de encarar a vida e isso me deixou encantada.

Jupi fica a 210km de Recife, no Agreste Pernambucano; mãe de Andreia Braz mora na zona rural do município de 12 mil habitantes

Na tarde de uma quarta-feira

Confesso que também senti certa insegurança por não saber se haveria afinidade entre nós, o que de certa forma seria natural pela pouca convivência que tivemos, sobre que tipo de assunto conversaríamos etc. Mas todas essas incertezas ficaram para trás quando nos encontramos.

Antes de visitá-la, passei alguns dias em Garanhuns, na casa da minha amiga Célia Quintans, onde fui muito bem recebida por ela, seus filhos e nora. Flávio, Felipe e Alice foram os melhores anfitriões que alguém poderia ter. Espero poder retribuir esse carinho e atenção quando eles vierem a Natal.

Na ocasião também reencontrei minha amiga de infância, Uiadja Cavalcanti. Desfrutamos de um dia muito agradável na companhia do seu esposo, Osman Holanda, e de seus dois filhos (Manuela e Osman Júnior). Muito bom reencontrar minha amiga e ainda conhecer sua família.

O papo sobre literatura e artes fluiu solto porque Osman é poeta dos bons e Uiadja uma amante das letras e das artes em geral. Jamais esquecerei aquele nosso almoço no Varanda, um lugar aconchegante e espaçoso no charmoso bairro de Heliópolis. Saboreamos um bacalhau à portuguesa.

Voltando ao dia do encontro com minha mãe. Nosso encontro aconteceu num final de tarde de uma quarta-feira. Logo após o almoço, fui ao centro da cidade para tomar um ônibus que me levaria a Jupi.

No ponto de ônibus tive a oportunidade de conversar com alguns vendedores ambulantes e conhecer um pouco de suas histórias de vida, o que me fortaleceu para seguir viagem. O momento ficou registrado em algumas fotografias. Acrescentei à bagagem um bolo de milho para o café da tarde.

O alcoolismo

“Minha mãe é bastante conhecida no lugar porque durante anos foi vítima do alcoolismo e perambulava pelas ruas da cidade. Muitos acreditavam que ela não sobreviveria àquela situação deplorável.”

Antes de chegar no sítio onde ela mora, fiquei na cidade aguardando seu Severino, uma espécie de protetor de minha mãe, que me levaria até a casa dela.

O ponto de espera foi uma loja de material de construção que pertence à irmã de seu Severino. Fui muito bem recebida por lá e jamais esquecerei aquele momento.

Enquanto esperava a carona, Josa me ofereceu um lanche com sabor de infância (pão com mortadela e guaraná) e quis saber um pouco mais da minha história.

Minha mãe é bastante conhecida no lugar porque durante anos foi vítima do alcoolismo e perambulava pelas ruas da cidade. Muitos acreditavam que ela não sobreviveria àquela situação deplorável. Hoje é vista como um exemplo de superação e está livre do álcool há oito anos. Alguns dizem que é um milagre ela está viva.

Há oito anos, foi acolhida por dona Cida, professora aposentada, e seu Severino, agricultor, e desde então aquela vida de sofrimento e vício ficou para trás. Construíram uma casinha para ela em sua propriedade e depois de muita luta conseguiram aposentá-la.

A dificuldade maior foi sua documentação, pois seu nome e data de nascimento estavam errados na carteira de identidade. O documento foi tirado numa certa campanha política, e mãe acabou registrando um nome diferente do de batismo, adotou o nome do primeiro marido (José Braz). Ela não sabe ler e escrever e não tinha dimensão do que estava fazendo.

Felizmente, tudo se resolveu com a ajuda do único irmão que ela tinha vivo, à época, Severino, que faleceu ano passado. Ele foi até o cartório de Ibirajuba, cidade onde nasceram, e solicitou a segunda via do registro dela.

Ou seja, descobri que o verdadeiro nome de minha mãe não é Maria Braz da Silva, mas sim Maria Magalhães da Silva.

Portanto, terei de mudar meus documentos também. Mas pretendo continuar usando o “Braz”, até porque adoro esse sobrenome, e acrescentar o “Magalhães”, se possível. Mas essa é uma história para outra crônica.

Sorrisos e fotografias

Voltemos ao nosso tão esperado reencontro. Uma das grandes alegrias desse momento foi tê-lo registrado em algumas fotografias poucos minutos depois que cheguei à casa de minha mãe. Nossos sorrisos dizem tudo. E nosso olhar então! Se pudesse eternizar um momento da minha vida, seria aquele. Que bom que existe a fotografia.

Aliás, vou revelar nossas fotos e presenteá-la em nosso próximo encontro, que deve acontecer somente no início do próximo ano, devido à pandemia da Covid-19. Estou contando as horas para abraçá-la novamente e escutar de perto sua gargalhada. Outro dia nos falamos por chamada de vídeo e foi muito emocionante.

Também quero desfrutar das comidinhas deliciosas que ela faz. Aliás, quando cheguei ao sítio, ela havia preparado cuscuz e galinha guisada. Um gesto de amor.

Isso sem falar no xerém, um prato típico do Nordeste e muito tradicional em Pernambuco. Ele é feito à base de milho triturado e geralmente é servido com leite, galinha guisada ou outras misturas.

Um outro momento marcante da viagem foi nossa ida à feira de Jucati, município vizinho a Jupi. A feira da cidade acontece aos sábados. Adoro aquele ambiente tão diverso e cheio de simplicidade e alegria. Era bonito de se ver a alegria com que me apresentava aos seus conhecidos: “Essa é Andreia, minha filha que mora em Natal”.

Escrevo esta crônica no dia do seu aniversário de 74 anos e meu desejo era poder estar ao seu lado para festejar esse dia tão significativo. Mãe adora comemorar essa data, mas esse ano não foi possível.

Tão logo tudo isso termine, faremos uma festinha de aniversário para ela, com direito a bolo e guaraná, do jeitinho que ela gosta. Ah, e muitos presentinhos também, é claro.

Ela é super vaidosa e não será difícil agradá-la com roupas, perfumes, adereços, maquiagem. Também desejo que ela consiga atravessar essa pandemia com saúde e que possamos desfrutar de muitos momentos como aquele que vivenciamos no início desse ano.

Ainda temos muito por viver!

Escritora e revisora de textos [ Ver todos os artigos ]

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