Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir

Por Mário Bortolotto

Ela me ligou perguntando onde é que eu tava. Ah, ela sabia que eu tava num bar, não sei por que perguntou. Mas ela queria saber qual bar que era. Eu sou um cara previsível. Ou eu tô num bar ou tô nos outros dois. E ela chegou e eu a vi atravessar a rua com aquela elegância que era só dela e entrar naquele bar mal afamado que não estava acostumado a esse tipo de frequência. Mas naquele tempo ela não se importava de entrar num bar não condizente com ela pra me encontrar. Mas naquele tempo eu nem tinha real noção de que aquele bar não era condizente com ela. Eu sempre imaginava que se era condizente comigo, podia ser condizente e agradável pra qualquer pessoa. Toda a minha inocência vagabunda me autorizava a pensar dessa forma arrogante. Eu já tava no meu quarto whisky e juro que fiquei feliz por ela estar ali, era um tipo de felicidade que eu não sabia explicar. Na verdade eu ainda não sei explicar. Eu não sei explicar momentos felizes. Quem sabe fazer isso é o Odair José. Sou um cara que se aproveita de qualquer nocaute, de qualquer chute na boca ou de qualquer música do Lupicínio Rodrigues. Mas não sou bom nesse negócio de me sentir feliz. Não sei direito o que fazer com isso. Minha calça não tem tantos bolsos assim. Talvez por isso eu me sentisse “feliz” (acho que posso chamar assim), mas me sentisse totalmente inadequado, tipo carta no endereço errado. Mas eu pedi o quinto whisky e fui ficando relaxado. E os amigos foram chegando e a mesa foi ficando cheia. E eu brinquei que ela era minha namorada e deitei minha cabeça em seus seios. Naquele tempo eu ainda me dava ao luxo de brincar. Eles não entendiam de onde eu havia tirado tanta intimidade. E na verdade nem eu entendia. Acho que já disse que entendo pouca coisa, né? Acho que o quinto whisky me deu essa permissão. Mas aí outra delas chegou. Naquele tempo sempre havia outra. E outra. Que chegou logo depois. E eu gostava de todas elas. E eu gostava muito de todas elas. E eu nunca quis magoar ninguém e eu não me sentia a vontade. Minha vaidade de moleque irresponsável até curtiu aquilo, minhas andanças noturnas, minha distancia do que eu chamava de lar e meu sarcasmo diante de minha própria vida. Enfim, tudo me dava a devida permissão para me sentir meio orgulhoso do momento. Isto é, se eu não percebesse o pino saltando da granada, um vietcongue riscando o fósforo depois de sorrir de maneira sinistra, um abutre levantando voo com aquele tipo de precisão malévola. “Deus salve a América”, foi o que eu pensei quando levantei sem me despedir direito e atravessei a rua em direção a um bar que me inspirasse mais segurança mesmo com todos aqueles torresmos na estufa e toda a música sertaneja nos mais altos decibéis. Encostei num balcão e pedi o que eles chamam de whisky por ali. Fiquei imaginando ela atravessando a rua de volta pro seu carro com toda aquela elegância particular e rezei timidamente pra que tudo corresse bem pra ela e pras outras que eu gostava tanto e que eu me senti o maior canalha por levantar daquele jeito e fugir e pra mim e pra aquele sujeito que pedia outra música sertaneja e pro cara que se entupia de torresmo e pro amigo que foi pego no flagra pela namorada com outra no banheiro e pra namorada do amigo que pegou o namorado com outra no banheiro e pros meninos da aldeia que estava sendo incendiada naquele momento que já era outro dia em outro lugar do mundo e pros casais de namorados passeando no parque ou saindo do cinema. Naquele tempo eu esperava o dia amanhecer, uma nuca como um convite e um Jesus Cristo em Preto e Branco pendurado sobre a cabeceira da cama dela. Naquele tempo eu tinha pra onde voltar. Eu só preciso me acostumar aos novos tempos. Ou fazer o tempo voltar. Ainda não tenho a menor idéia pra onde é que eu vou. Mas eu tenho uma certa noção de como andar no escuro.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Eliane Dantas 12 de fevereiro de 2012 13:20

    Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins.

  2. Jarbas Martins 12 de fevereiro de 2012 10:40

    Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada.

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