Minhas “Estantes”

Comentando a realidade da Literatura potiguar, Lívio evocou o peso dela em suas estantes.

Isso me fez lembrar das estantes em minha vida.

Na infância, vivi em família pobre. Não havia estante propriamente dita. Um pedaço do guarda-roupas era usado para poucos livros.

Na adolescência, comecei a comprar uns e outros volumes, juntei algumas dezenas. Quando vim embora para São Paulo, aos 19 anos, vendi a maioria a preço de banana, trouxe menos que dez.

Estudante de graduação (História), frequentei sebos e liquidações. Recomecei a juntar livros. Casei com uma moça da mesma área, compramos juntos muita coisa. Quando nos separamos, após 19 anos, tínhamos um volume razoável de livros, a maioria de História, mais alguma coisa de Literatura, Filosofia, Artes visuais. Quase tudo ficou com ela – parece a letra de “A Rita”, de Chico Buarque.

Recomecei a juntar livros aos 44 anos. Hoje, possuo uma quantidade razoável em desordem assombrosa.

Tenho a impressão de que, ao longo da vida, livros vêm e vão. Deixando de lado circunstâncias mais complicadas (mudança de cidade e separação em casamento), sempre selecionamos o que fica e definimos os que partirão.

No caso dos autores potiguares, nascemos no RN, convivemos com esses escritores por essa circunstância – mas também por apreço, por qualidades intrínsecas que levam gaúchos a lerem Zila Mamede e goianos a estudarem Diva Cunha. Qual etnógrafo preservar, Câmara Cascudo ou Franz Boas? Qual poeta manter, T. S. Eliot ou Sanderson Negreiros?

Eu guardaria todos. Falo isso sem bairrismo nem condescendência.  Citei intencionalmente potiguares de primeira linha. Além dessa circunstância, penso que eles me ajudam a entender meu mundo imediato, e num padrão literário digno.

Mas sempre existem descartes de objetos na vida. O melhor é doar livros que não mais queremos para bibliotecas decentes – as que preservam as obras e garantem o acesso público a todas.

Descartes são inevitáveis ao longo da vida. No caso de livros, tanto de autores potiguares quanto russos e paraguaios. Descartar não é desprezar, é compreender o fim do convívio. Sempre restará a memória da leitura.

Ah, existem livros que guardamos sem saber o motivo. Precisamos aprender a evitar isso.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 31 de outubro de 2011 15:15

    Vale mesmo festejar a literatura potiguar. Sempre há bons motivos.

  2. Alex de Souza 31 de outubro de 2011 14:44

    Beleza, Marcos, é isso aí.

  3. Marcos Silva 31 de outubro de 2011 9:19

    Obrigado a Anne a Lívio.
    Anne, estarei no FLIPIPA (mesa sobre a correspondência Cascudo/Mário) e, em seguida, participarei de banca na UFRN. Espero encontrar vc, Ednar, Danclads & Cia. Mesmo que não seja nesses dois lugares.
    Lívio, conheço pouco os paraguaios (Roa Bastos, Josefina Plá, Campos Cervera), o Paraguai é mais que zona de contrabando mas a gente finda explorando pouco. Acho legal pensar que a Literatura potiguar é Literatura como qualquer outra, montanha russa e descoberta.

  4. Lívio Oliveira 31 de outubro de 2011 5:34

    Marcos, explico minhas “evocações”:

    1. Peso e pesar são palavras distintas; 2. Acabou-se o fetiche dos livros; 3. Livros em desordem nem sempre nos servem; 4. Pior, ainda, quando encaixotados; 4. Autores potiguares sempre contam um pouco de nossa história, nosso mundo; 5. Autores, em geral, contam a história e as estórias da humanidade, do mundo; 6. E fazem arte; 7. Eu não guardaria todos, nem uns e nem os outros; 8. Bibliotecas e acervos públicos merecem ser mais valorizados; 9. Não aprecio muito os autores paraguaios; 10. Para um bom cartesiano, Descartes.

    E como dizia Tim Maia: “Me dê motivo…”. Marcos, diga-me: como conviver com as (r)estantes de autores paraguaios?

  5. Anne Guimarães 30 de outubro de 2011 23:59

    Marcos, meu menino…
    Adorei as suas estantes, memórias e explicações….
    Apesar de ainda não ter chegado a esse nível de desapego a alguns livros que amo e sempre releio, achei isso divino: “Descartar não é desprezar, é compreender o fim do convívio.”
    Um beijo n’alma.
    🙂

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