MINICONTO: O jovem sonhador e o adulto viajado

Por Valdinei José Arboleya (Toledo/PR)

Fora um menino calado. Leitor de todas as utopias e distopias. Casa – escola – casa. De mapas, brinquedos fazia, e sempre só, percorria todos os países com barcos e carrinhos imaginados e reais. A mãe, sempre a deixá-lo na masmorra de seu espírito fugidio, alimentava, inconscientemente, o seu desprazer pelas relações sociais e o pai, tão mais fugidio que o filho, uma manhã deixou a casa para o trabalho e daí para nunca mais. Jovem, enclausurou-se nos games e na obsessão por máquinas de transportar pessoas. Nunca viajava, mas tinha o espírito tão cheio de barcos, carros, ônibus, aviões e trens que levava a vida num eterno chegar e partir sem sair do lugar. Um dia embarcou dentro de si mesmo e nunca mais voltou a ser. Foi um estranhamento aquela súbita necessidade de conversar tudo o que evitara durante anos de mocidade. E tudo falou sem pensar e nunca mais pensou para falar, ignorando, na hemorragia vocabular, os satíricos olhares e as ironias mordazes que antes sempre o faziam recuar. Passou a conversar com todos os que o ouviam sem nada dizer-lhes; falava, senão, para si mesmo e na altura que bem lhe importasse, viajando a tantos lugares não idos quanto pudesse aguentar seu corpo andarilho, antes que caísse entorpecido por um sono feito de comprimidos. E então, no outro dia, recomeçava. A mãe tentou inutilmente demovê-lo da viagem. Mas já se abria para ele as aquecidas fronteiras do Oriente Médio, tão longe estava. Agora, todos os dias, desembarca numa fantasia diferente e conhece lugares e inventa pessoas e viaja. É uma estrada comprida essa de se perder de si mesmo.

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* Conto classificado em 4 lugar no Concurso de Minicontos promovido pelo Grupo Casarão de Poesia

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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