Ministério é cultura

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Francisco Weffort reinou despercebido durante oito anos como ministro da Cultura de Fernando Henrique, sem que ninguém se lembrasse sequer de criticá-lo. Não digo isso para entrar no jogo faccionalizado dos debates atuais, mas para ver esse jogo à luz de uma visão propriamente cultural da política cultural. Weffort não tinha nenhuma concepção da cultura que não fosse uma inserção no mercado via Lei Rouanet. Sua gestão acompanha o processo pelo qual a imprensa desativou, por sua vez, o nervo problemático das pautas culturais, reduzindo-o a epifenômenos de vendagens, comportamento, polêmica superficial e modismos.

A discussão acesa por alguns gestos iniciais da ministra Ana de Hollanda, em choque explícito ou não com alguns gestos de Gil, repõe e atualiza questões polêmicas que ficaram suspensas desde 1968, colocadas agora na ordem do Estado. Estamos diante do fato, que não deixa de ser positivo, de que Ministério da Cultura também é cultura: dispara reações e controvérsias que têm ficado ainda, no entanto, com muitos pontos a esclarecer.

Ninguém acreditava que Gil resistisse muito tempo no cargo, mas era certo que ele daria um toque carismático e uma ponta de inovação simbólica ao início do governo Lula. Mais do que fazer o papel decorativo, no entanto, Gilberto Gil tinha uma visão da cultura e um apetite para exercê-la. Para resumir, pode se dizer que combinou a intenção descentralizante do PT com uma atualização do movimento tropicalista à sua maneira: ênfase na visão mais antropológica do que sociológica das práticas culturais, não compartimentadas pelas convenções estéticas, privilegiando o cruzamento de repertórios, e aposta no caráter potencialmente democratizante e inovador das novas tecnologias comunicacionais, em relação ao avanço das quais o governo brasileiro assumia posições de ponta

A sua expressão “do-in antropológico”, objeto em geral de galhofa , era a meu ver precisa, além de poética, para definir os Pontos de Cultura: tratava-se de potencializar os núcleos ativos existentes pelo país afora, com os poucos recursos do ministério, colocando-os em rede e dando crédito à sua capacidade de expressar e de engendrar. Para ir mais rápido, no entanto, ao ponto dolorido do “do-in ideológico” aí envolvido, é preciso dizer que o autor de “Parabolicamará” viu nas transformações trazidas pel rede (que ele quase adivinhava na capa de “Refazenda” e com as quais brincava em “Pela internet”) um campo a ser ocupado pioneiramente por uma política cultural brasileira

Usando o esquema que já citei aqui outro dia, tratava-se de constatar a passagem mundial de uma era da “repetição” (dada pelos recursos de gravação e difusão de áudios) para uma era da “composição”, como a entreviu Jacques Attali, em que os sons podem ser não só gravados mas acessados, deslocados, processados, remixados e sujeitos, queira-se ou não, a uma cadeia interminável de operações que balançam e embaralham as antigas concepções de autoria e de obra, de produtor e de consumidor, de composição e de escuta.

Do ponto de vista estético, não é o mundo em que se formou a minha sensibilidade, nem eu aceito com paciência a ideia de que videogames são tão ricos e válidos quanto um soneto de Shakespeare (como Hermano Vianna tende a dizer a título provocativo, sem experimentar demonstrar). Mas a minha inteligência não pode fugir ao fato de que a economia política dos sons anuncia grandes alterações incontornáveis, inevitáveis a não ser por uma catástrofe civilizacional, e de que essas transformações, exponenciadas pela espiral das gerações, afetam as condições atuais de controle, propriedade e difusão de todas as informações, comconsequências para as formasde controle, propriedade e difusão em todos os níveis. A eleição de Obama, WikiLeaks e as convulsões no norte da África e no Oriente Médio são apenas alguns índices desgovernados e desgovernantes desse fato.

Colocar esse assunto em pauta, mesmo que a título exploratório,foi uma obra depolítica cultural do MinC e do governo Lula. Os pontos obscuros são muitos, mas a questão é crucialpara uma esquerdademocrática, ventilada e antenada, se ela houver, tanto do pontode vista da análise material dos fatos quanto do ponto de vista de uma resposta original aos impasses contemporâneos. Porque estão no horizonte, se bem formuladas e defendidas, novas possibilidades de distribuiçãode bens simbólicos, para além da visão paranoic de que se trata apenas de mais uma forma de espoliação pelo capital

A polêmica sobre o Creative Commons, e as reações em defesa do direto autoral, disparadas por um ato simbólico da ministra, podem ser entendidas como o imbróglio resultante de um ensaio de entrada na era da “composição” (pela gestão de Gil e Juca Ferreira), agravado pela falta de clareza básica sobre os processos de arrecadação e pagamentos de direitos próprios da era da “repetição” (em torno dos quais se aglutinam os compositores,vários dos quais parceiros e amigos meus, que apoiam a sinalização da nova ministra). Mais fundo do que isso, no entanto, estão em jogo aquelas concepções difusas, não verbais, com que reagimos ao mundo, e que podem ser chamadas de diferenças culturais — produtoras de fantasmas. Quais são as diferenças culturais de fundo entre os ministérios da Cultura de Lula e de Dilma? É possível antevê-las?

Só mesmo continuando no próximo capítulo.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. joão batista 20 de Fevereiro de 2011 15:02

    Brilhante artigo do Zé Miguel Wisnik, em que faz uma pertinente análise da gestão do ministro Gil. Ao comparar a gestão da cultura no governo Lula e no que agora se inicia, toca em questões polêmicas que precisam ser compreendidas e discutidas, de maneira descentralizada.

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