Miragem conjugal

Novela de Tolstói pode ser lida como um curioso esboço de sua futura obra-prima, o romance “Ana Kariênina”

CRISTOVÃO TEZZA
COLUNISTA DA FOLHA

“NA CÉLEBRE abertura de “Ana Kariênina”, de Lev Tolstói (1828-1910), o narrador nos diz que todas as famílias felizes se parecem, enquanto as infelizes o são cada uma à sua maneira -e será justamente um dos exemplos negativos que ele conta nesse clássico publicado na maturidade.

Mas o tema da vida conjugal, assimilado como um teste de laboratório da condição humana, perseguia Tolstói desde cedo. A novela “Felicidade Conjugal”, de 1859, que chega às livrarias a partir do dia 5, em uma bem cuidada edição, com tradução, notas e posfácio de Boris Schnaidermann, pode ser lida como um curioso esboço de sua futura obra-prima. A narrativa conta a história de amor entre a órfã Mária Aleksândrovna, de 17 anos, e seu vizinho Sierguiéi Mikhailovitch, com todos os elementos da educação sentimental típica do tempo. Reforçando a empatia com o leitor, a história é narrada pela própria Mária.

Nesse idílio de uma aristocracia rural padronizada, há as amizades fiéis, as sessões de leitura e piano, a beleza do luar e o papel da mulher: “Todos os meus pensamentos (…) e sentimentos (…) não eram meus, eram pensamentos e sentimentos dele, que de repente se tornaram meus, passaram para a minha vida e iluminaram-na”.

A percepção das injustiças sociais que explodiam no século 19 e que atormentarão a vida de Tolstói, já transparece, ainda que sem força, na paixão adolescente de Mária: “Também ele ensinou-me a olhar os nossos camponeses, os criados, as empregadas domésticas de maneira totalmente nova”.

Em toda a primeira parte, o texto reforça pelos olhos da jovem mulher a imagem de uma felicidade sem nenhum páthos, um idílio conjugal assexuado em que natureza, trabalho e papeis sociais se estabilizam num quadro amortecido e imutável de boas intenções.

Mas a intuição realista do jovem Tolstói vai discretamente pondo à prova esse paraíso congelado. Num momento, a heroína confessa: “Não sei que novo sentimento inquieto começava a penetrar-me furtivamente na alma”. Dali em diante, abalos sutis, mas inexoráveis, começam a romper o imaginário da prometida felicidade conjugal.

O contraste da tranquila vida no campo versus a corrupção do brilho dos bailes em São Petersburgo, o fantasma de traição e enfim a chegada do primeiro filho acabam por recolocar a vida em outro patamar, provocando descobertas insuspeitadas: “Então é esse o poder do marido -pensei. Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma culpa”.

Aqui ainda não há tragédia; apenas a consciência de uma transformação e, pela delicada evocação ficcional, a nostalgia da felicidade conjugal, “algo impossível de trazer de volta”.”

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